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Papo com Afonso Andrade, coordenador do FIQ: “O FIQ, como um evento calcado nas artes, na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência”

Escrevi na terceira edição da coluna Sarjeta sobre os dois principais eventos de quadrinhos do Brasil em 2020, o FIQ, em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A 11ª edição do evento na capital de Minas Gerais está marcada pra rolar entre os dias 27 e 31 de maio, sempre com entrada gratuita. Bati um papo com o coordenador do FIQ, Afonso Andrade, para saber mais sobre seus planos e expectativas para o evento.

Você lê o meu texto para a Sarjeta #3 ali no site do Instituto Itaú Cultural. Compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com o responsável pelo FIQ, na qual também conversamos sobre o impacto da crise econômica, social e política pela qual passa o país e o papel do mais tradicional evento de quadrinhos do país em um contexto de conservadorismo aflorado. Ó:

“A proposta do FIQ é apresentar um recorte da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

O FIQ é hoje o maior e mais importante evento de quadrinhos do Brasil, mas a proporção e a relevância do evento foi algo construído com o tempo. Qual balanço você faz hoje do que o FIQ era quando surgiu, em 1999, e hoje, como esse grande marco bienal das HQs nacionais?

O FIQ surge em 1999 a partir da realização, em Belo Horizonte, no ano de 1997, da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Então podemos dizer que, de 1999 a 2005, o FIQ segue a linha da Bienal, muito focada em exposições e  convidados. É também um período de transição no mercado de quadrinhos. As publicações começam a migrar das bancas de revistas para as livrarias e a auto-publicação. A partir de 2007 o festival sofre várias mudanças que levam a sua consolidação como um grande evento para o mercado de quadrinhos e  para a cidade:

-Mudança para  a Serraria Souza Pinto: local com melhor estrutura, maior e que por sua localização gera mais visibilidade;
-Comunicação do evento: o festival passa a ter um foco maior em dialogar com a cidade e pensar no festival como um espaço de formação de leitores e difusão dos quadrinhos para um público além do habitual; 
-Ampliação da participação dos quadrinistas independentes através da  criação de um canal de diálogo direto com quadrinistas de BH e do Brasil e  da participação destes como convidados e expositores;
-Visitação escolar: abertura do festival para a visitação e participação em atividades  de escolas e grupos, como parte da política de formação de leitores. 

A partir daí o FIQ fortalece sua posição como um evento importante no calendário cultural da cidade, sendo, inclusive, sua realização objeto de lei municipal, em 2017. 

O número de exposições diminui, cedendo espaço para quadrinistas que podem apresentar suas publicações e interagir com o público. Mas atividades interativas e de formação crescem, como a rodada de negócios.   O festival tem tido cada vez maior a participação de quadrinistas de todo Brasil, como expositores e/ou convidados. Em 2018 foram mais de 500, vindos de 19 estados e do Distrito Federal. 

Uma das marcas do FIQ está na abertura aos mais diversos estilos e gêneros, na recepção à diversidade das HQs nacionais. Você consegue definir a linha editorial-curatorial do FIQ indo além desse filtro? Como você define o recorte que o FIQ faz e apresenta hoje em termos de autores e publicações?

A proposta do FIQ é apresentar um recorte da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo. São duas linhas de “curadoria”, a escolha de convidadas e convidados e temas dos debates e a seleção para a ocupação do “artist alley” e estandes. A curadoria indica quem será convidado, a partir de alguns parâmetros definidos em conjunto com a coordenação do evento: equilíbrio de gênero; representatividade racial e LGBTQ; diversidade de estilos e propostas artísticas; diversidade regional; Mix de quadrinistas veteranos  e novatos; Atenção especial a quadrinistas de Belo Horizonte. A seleção para o artist alley e estandes também segue essa linha. Com isso conseguimos apresentar um painel bem interessante de autores e publicações. Em 2018, somando convidos e expositores, tivemos cerca de 500 quadrinistas presentes, apresentando suas publicações e trabalhos, com o lançamento de, aproximadamente, 300 publicações inéditas ou recentes. 

“Com tanta instabilidade no país, a estratégia é fazer o planejamento e ir lidando com as ‘crises’ na medida do possível”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

Quais são as suas expectativas para o FIQ de 2020? Tem alguma novidade ou informação inédita que você já pode adiantar sobre essa 11ª edição?

A expectativa é boa, temos o respaldo institucional e financeiro Prefeitura de Belo Horizonte  realizadora do evento através da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura Estamos na fase de planejamento inicial do festival, mas já anunciamos a data do festival que será de 27 a 31 de maio de 2020.

Belo Horizonte é um dos principais pólos das HQs nacionais por conta do FIQ, mas há na cidade uma cena crescente de feiras e eventos de quadrinhos e publicações independentes, vários deles inclusive bancados por editais públicos e leis de incentivo. Você nota essa movimentação crescente em BH? Se sim, o que você acha que impulsiona essa agitação?

Sim, tem crescido o número de feiras dedicadas aos quadrinhos, publicações independentes  e artes gráficas. A cidade já tem uma tradição de feiras livres de artes que vem de muitos anos. Porém, acredito que seja um fenômeno nacional, uma vez que vemos acontecer em outras cidades do país. As feiras são um espaço alternativo aos meios  tradicionais de comercialização das publicações e produtos gráficos. Elas permitem um contato direto entre o artista e o público, proporcionando um diálogo e uma troca, que vai além da simples observação do objeto. Além disso, eliminam um gargalo que é a distribuição, um grande dificultador para quem produz sem um aporte de uma grande editora ou distribuidora. 

“O país vive um retrocesso civilizatório”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

Como a crise econômica, social e política que assola o país, somada à crise do mercado editorial, tende a impactar a realização do próximo FIQ?

A curto prazo o impacto maior é econômico. Com a crise, os municípios arrecadam menos e, consequentemente, o orçamentos de todos os órgãos e projetos tem que ser revisto. Além disso, o patrocínio privado também é impactado, assim como as leis de incentivo à cultura. 

O mercado editorial já vive em crise há alguns anos, especialmente por conta do esgotamento do modelo de grandes redes de livrarias. 

Porém é muito difícil prever como estará o país em maio de 2020 e se teremos mais alguma crise no caminho até lá. Com tanta instabilidade no país, a estratégia é fazer o planejamento e ir lidando com as “crises” na medida do possível. 

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um festival como FIQ dentro desse contexto? 

O país vive um retrocesso civilizatório.  Assistimos a diversas tentativas de censura à produção artística e ao livre pensamento, baseadas em preconceitos, ideias autoritárias e anti-científicas. O FIQ, como um evento calcado nas artes,  na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência nessa conjuntura. 

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

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