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Entrevistas / HQ

Papo com Andy Poyiadgi

A carreira do artista Andy Poyiadgi como quadrinista é recente. Como diretor de comerciais para televisão, ele já filmou peças de divulgação pra marcas como Heinz, Ford, Guardian e BBC. Seu primeiro quadrinho foi publicado apenas em 2011, quando ele foi um dos finalistas da competição Graphic Short Story Prize organizado pelo jornal The Observer, pela editora Jonathan Cape e pelo festival londrino de quadrinhos Comica. Quatro anos depois, já em 2015, Poyiadgi lançou pela Nobrow The Last Property, HQ curta publicada pela série 17X23 da editora inglesa, dedicada a novos talentos dos quadrinhos. O gibi conta a história de um carteiro que acaba esbarrando com todos os objetos que já possuiu.

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Entre sua primeira HQ em 2011 e a chegada de The Lost Property às livrarias, Poyiadgi publicou poucos títulos, todos curtos, mas sempre investindo em algumas possibilidades pouco exploradas da linguagem dos quadrinhos. No painel de Origami Comic ele ensina como montar uma HQ a partir de uma série de dobraduras. Na belíssima On Reflection, ele cria um quadrinho que pode ser lido a partir da primeira página ou da última. Definitivamente, um dos autores mais inventivos que conheci recentemente. Cheguei a bater um papo rápido com ele na edição do ano passado do Elcaf, em Londres, quando conheci a maior parte de sua obras. Mandei um email pro autor recentemente e ele me respondeu a entrevista abaixo. Conversa bem boa de um dos talentos mais promissores dos quadrinhos britânicos. Saca só:

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No seu site você diz que faz filmes de dia e quadrinhos a noite. O que entendo disso é que você vive do dinheiro que ganha com filmes e quadrinhos são uma espécie de hobby. É isso mesmo?

Esse defivitivamente era o caso nos meus dois primeiros anos fazendo quadrinhos. Sou um diretor e escritor freelancer então eu trabalhava em projetos comerciais para pagar as contas e focava na criação de quadrinhos no meu tempo livre, normalmente no início da noite. No entanto, as coisas começaram a mudar ano passado, quadrinhos e ilustrações passaram a ocupar maior parte do meu tempo e, gradualmente, estão começando a pagar as contas também. Caso apareçam novos trabalhos, ficaria feliz que isso continuasse a acontecer.

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Você sempre fez quadrinhos ou esse é um projeto recente?

Eu leio quadrinhos minha vida inteira e sempre quis produzir alguns, mas nunca tive a confiança suficiente pra compartilhar meus esforços até alguns anos atrás, quando decidi participar de uma pequena competição anual de quadrinhos organizada pelo The Observer, pela Jonathan Cape e pelo Comica Festival. Eu tinha um deadline e um limite de quatro páginas, então um bom incentivo para terminar alguma coisa. Minha história ficou entre as finalistas e isso me deu a coragem pra continuar fazendo quadrinhos.

E por que quadrinhos? Viver de filmes parece ser muito mais rentável, certo?

Eu amo filmes, principalmente o elemento colaborativo, mas há algo singularmente único em contar uma história em formato de quadrinho. Acho que há uma troca especial entre o autor e o leitor que permite uma experiência muito pessoal, dependendo da história. Pela minha experiência, é mais difícil criar essa conexão individual com um filme, um dos motivos é por ser uma mídia mais passiva. Com quadrinhos é você pegando seu tempo para contar uma história e o leitor gastando o tempo dele para ter a experiência dessa história.

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Quadrinhos e cinema são linguagens com alguns aspectos em comum. Você aplica muito dos seus conhecimentos como diretor nas suas HQs?

Fazer vídeos tem sido uma ótima lição de narrativa. Pensar em aspectos como personagens, estrutura, ritmo e enquandramento de alguma forma impactou meu trabalho com quadrinhos. Mas é uma prática totalmente diferente não ter um elenco e uma equipe e, às vezes, sinto que fazer um quadrinho é como fazer um filme inteiro sozinho!

Nos últimos anos houve uma leva de publicações que explorou diferentes aspectos da linguagem dos quadrinhos. Para lembrar só alguns, artistas como Chris Ware, David Mazzucchelli, Richard McGuire e Scott McCloud publicaram obras que abordam várias facetas da linguagem. Você publicou quadrinhos em saquinhos de chá, em formato de origami e um que pode ser lido de trás pra frente. Por que isso? Você tem algum motivo em particular para tentar algo fora dos formatos usuais?

Eu amo o potencial dos quadrinhos como objetos tácteis que você pode pegar, ler e explorar. Os formatos diferentes implicam em formas novas e intrigantes de contar uma história, mas também resultam em algo que espero que você queira guardar e apreciar. É quase o oposto do conceito de histórias em quadrinhos como uma mídia descartável. Tendo dito isso, também não vejo qualquer problema em HQs com formatos usuais – meu último livro é exatamente assim e ter recebido as dimensões específicas e um número determinado de páginas foi um ótimo exercício de narrativa.

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É uma pergunta clichê, mas como seu trabalho não foi publicado no Brasil e imagino que poucas pessoas tenham lido algo seu por aqui, eu queria saber: quais são suas principais influências? Não só em termos de quadrinhos, mas quais são os artistas que te inspiram como diretor e quadrinista?

Minhas influências de quadrinhos com certeza incluem os autores que você já mencionou. Também colocaria Adrian Tomine, Shaun Tan, Renee French e Raymon Briggs. Infelizmente meu conhecimento de quadrinhos brasileiros é extremamente limitada (por favor me recomendem alguns!), mas sou um grande fã do Fábio Moon e do Gabriel Bá, principalmente de Daytripper. Em termos de inspirações mais amplas, elas incluiriam Edward Gorey, Roald Dahl, David Lynch, Michael Haneke, Philip K. Dick, Ray Bradbury e vários outros…

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Conheci seu trabalho na última edição do Elcaf. Lá também vi como é forte e criativo o mundo dos quadrinhos independentes britânicos. Na verdade, minha questão é: há uma cena de quadrinhos independentes no Reino Unido? Se ela existe, você vê algum padrão nesse grupo de artistas e em suas publicações?

Eu diria que a cena de quadrinhos independentes do Reino Unido é bastante próspera no momento. Ainda sou muito novo nisso tudo, mas sinto que há uma imensa variedade de estilos e práticas, com pequenos grupos de autores de estilos semelhantes que incentivam uns aos outros. A qualidade dos quadrinhos independentes parece melhorar a cada festival e há uma variedade empolgante de pequenas editoras surgindo que talvez acabem dando uma chance para autores menos conhecidos. A Avery Hill Publishing é um ótimo exemplo disso.

O Chris Ware me disse em uma entrevista: “Acho que o potencial dos quadrinhos para capturar o fluxo e refluxo da consciência em toda sua complexidade visual e linguística foi muito pouco explorado, principalmente por eu achar que histórias em quadrinhos são por definição uma arte da memória”. O Lost Property é uma HQ sobre memória. Como surgiu essa história?

A história surgiu como um cenário de “e se?” quando eu discutia algumas ideias com um amigo: e se você reencontrasse todos os objetos que já pertenceram a você? Não desenvolvi isso na época, mas quando surgiu a oportunidade de trabalhar com a Nobrow, achei que era uma ideia boa para ser explorada. Levei um tempo para chegar na ideia central da história, sobre como esse evento maluco aconteceria. Mas havia algo fascinante na ideia de você encontrar todo seu passado, em uma forma física, dentro de um mesmo lugar. Imaginei como um mapa bagunçado da sua vida, que faria você refletir sobre a sua jornada.

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E como foi trabalhar com a Nobrow? Fico triste porque poucos trabalhos deles chegam aqui no Brasil…

Espero que os livros deles sejam traduzidos em um futuro próximo! Sempre fui um fã dos produtos deles e me senti muito privilegiado ao ser convidado para trabalhar em um livro da série 17X23. O processo foi novo para mim – estou acostumado a propor ideias para filmes, nunca para quadrinhos -, mas foi ótimo trabalhar com eles e admiro a consistência e a qualidade dos livros que eles publicam. Também foi muito bom conhecer alguns dos autores da 17X23 desde o lançamento de Lost Property, os outros livros dessa linha são brilhantes, então me sinto muito bem acompanhado.

Uma última pergunta: você leu o The Sculptor do Scott McCloud? Ele foi lançado quase simultaneamente com o Lost Property e os livros possuem muitas semelhanças. Você concorda?

Ainda preciso ler o The Sculptor, sou um grande fã do Scott McCloud então não vejo a hora. Essas semelhanças já foram mencionadas em algumas resenhas do Lost Propoerty, mas como não li, não sei o quanto em comum eles realmente tem. Me sinto apenas honrado por ser mencionado na mesma frase que ele.

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