Papo com Érico Assis, autor de Balões de Pensamento: “Gosto mais de como se conta a história do que da história em si”

Escrevi na 18ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre Balões de Pensamento – Textos para Pensar Quadrinhos, primeiro livro do jornalista/ tradutor/ pesquisador Érico Assis. A obra recém-publicada pela Balão Editorial reúne os primeiros três anos de produções do autor para sua coluna no Blog da Companhia das Letras, no ar desde 2010. Ressalto no meu texto alguns dos muitos méritos do livro e explico porque considero a produção de seu autor como o principal registro da história recente do mercado brasileiro de HQs. Você lê a Sarjeta #18 clicando aqui.

Aproveitei o lançamento de Balões de Lançamento para entrevistar Érico Assis sobre o livro. Ele me contou sobre suas rotinas de leituras e trabalhos em tempos de pandemia, falou sobre as mudanças de seus gostos em relação a HQs ao longo dos últimos anos, justificou sua preferência por obras longas e apresentou sua avaliação sobre a crítica de quadrinhos feita no Brasil, entre outras coisas. Papo bem massa, saca só:

“Como eu já fiz 176 colunas, tem material para uns três livros”

Tenho perguntado para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Eu trabalho somente em casa há uns cinco anos, e minha esposa também. Então a gente só se compadeceu de todo mundo se adaptando ao romófice. É isso mesmo: o expediente nunca acaba e a louça aumenta.

Por outro lado, nossa filha está há um ano em aulas online e nosso filho que já devia ter entrado no colégio não entrou. Esse é o nosso perrengue. O que é o nosso principal perrengue.

Também é um perrengue-privilégio: não somos de grupos de risco, não convivemos com ninguém em grupo de risco e, até onde sei, ninguém da família próxima teve problema sério com o vírus. Agradeço pela sorte, torço que isso acabe de uma vez. #VacinemOsProfessores.

Lá no início, nos primeiros dois, três meses de pandemia, houve uma apreensão muito forte no mercado editorial e isso teve um baque nos meus trabalhos. Atrasou o Balões, inclusive, pois a editora não queria lançar num período em que as pessoas estavam com medo de morrer ou de ficar sem dinheiro ou as duas coisas. Mas isso se inverteu em seguida, felizmente. A prova é que o Balões saiu. E eu traduzi mais em 2020 do que em 2019, o ano de “crise do mercado editorial”.

E agora sobre o livro: quando você começou a pensar no Balões de Pensamento? Quando a coluna entrou no ar, você tinha em mente a possibilidade de um dia, mesmo que num futuro distante, ela poderia render um livro?

Assim que entrou no ar, não. Mas depois de alguns anos, com dezenas de colunas no ar, pensei que sim e outras pessoas me sugeriram que eu podia reunir em livro. As colunas tinham sido pensadas como textos mais ou menos perenes sobre quadrinhos. Algumas são datadas, mas estão longe de serem hard news. Mais motivo para caber num livro. Como eu já fiz 176 colunas no Blog da Companhia, tem material para uns três livros. E ainda quero reunir outros textos, como resenhas, prefácios, artigos pro Omelete…

Como foi a sua experiência de reler os seus textos? Não sei como funciona para você, mas eu releio tantas vezes antes de entregar meus trabalhos para os editores que tenho certa dificuldade para reler quando eles são publicados.

Tenho dificuldade para reler, com certeza. Todos eles foram lidos e relidos várias vezes antes da publicação original. Lendo dez anos depois, dá vontade de reescrever. Mexi em algumas coisas na revisão para o livro, mas, mesmo que não goste do estilo de alguns, mantive o básico.

Aliás, como foi a seleção dos textos que entraram no livro? Você optou pelo recorte 2010-2013, apresentando os primeiros anos da coluna, mas você chegou a cogitar algum outro filtro?

Eu reli os 50 ou 60 textos iniciais da coluna e decidi que não ia reaproveitar uns dois ou três. Esse foi o filtro. Depois, em vez de seguir apenas a ordem cronológica, distribui os textos por categorias: Autores, Resenhas, Leitores, Traduzi e Mercado. Mas isso é só uma questão de organização, não sei se dá para chamar de filtro.

“Meus horários são definidos pelos filhos, então, nas horas que eu posso sentar e trabalhar, eu sento e trabalho”

Artes de Gabriel Dantas e Samanta Flôor para Balões de Pensamento, livro de Érico Assis

Gostei muito do formato do livro e vi mais gente elogiando esse jeitão pocket dele por aí. Você pode contar um pouco sobre a opção por esse formato e falar também sobre o projeto gráfico do livro?

Resumindo: sou casado com uma designer. A Marcela tem vários livros no currículo, como diagramadora, como ilustradora e como letreirista. Ela só me pediu um livro de referência e eu peguei um semi-pocket da Penguin – de Everything Bad is Good for You, do Steven Johnson – porque acho fofo. Tudo mais foi dela.

Eu levei em consideração que os textos já haviam sido publicados na internet, então a apresentação deles num formato físico tinha que ter alguma diferença. As ilustrações inéditas foram a primeira diferença, e a mais importante. O projeto gráfico tinha que ser legal, convidativo pra leitura na mão, ficar bonitinho na estante. Eu curto a página pequena com texto grande e a sensação de virar páginas rápido.

Como foi a sua dinâmica com os artistas que ilustraram o livro? Você passou alguma pauta específica para cada um?

A pauta era a seguinte: escolher cinco dos textos e, para cada um, criar uma ilustração que citasse um trecho do texto dentro de um balão. Podia ser um personagem falando, um objeto falando, qualquer coisa falando. Teve alguns textos disputados, mas foi fácil resolver a distribuição. Eles me mandaram esboços, eu aprovei, aí me entregaram as versões finais.

Tive uma grande sorte aí: as cinco primeiras pessoas que eu convidei toparam.

Você consegue mensurar quanto tempo do seu dia você passa em função de quadrinhos? Aliás, você pode contar um pouco sobre a sua rotina de leituras? Você tem uma rotina? Você tem horários definidos para as leituras a trabalho e as leituras à paisana?
 
Olha, só não é todo meu tempo de trabalho porque eu traduzo livros que não são de quadrinhos. Apesar de eu traduzir bem mais HQ do que prosa em números – ano passado traduzi seis livros de prosa e uns 60 quadrinhos –, o tempo que eu dedico a tradução de HQ e tradução de prosa é meio a meio. Prosa costuma demorar bem mais.

Meu trabalho que não é tradução, como as colunas pro Blog da Companhia e pro Omelete, o Notas dos Tradutores, as resenhas esporádicas, projetos como o Catálogo HQ Brasil… tudo tem a ver com quadrinho.

Quanto a leitura, tanto para trabalho (geralmente resenha) quanto para lazer, a rotina é basicamente só essa: leio nos sábados. Já teve época em que eu acordava bem cedo para ficar uma hora lendo, e lia vários pedacinhos: 20 páginas de um livro, 20 páginas de outro, 20 de outro… Era bom pra vencer livros grandes. Mas pandemia bagunçou tudo.

Você tem algum hábito quando senta para escrever? Digo, você tem algum contexto, ambiente ou horário no qual costuma escrever seus textos? Você tem algum hábito ou alguma prática quando começa a escrever?

Meus horários são definidos pelos filhos, então, nas horas que eu posso sentar e trabalhar, eu sento e trabalho. Não tem mandinga nenhuma, porque eu não tenho tempo pra mandinga. Costumo trabalhar em horário comercial porque fecha (ou fechava) com os horários de colégio da filha, escrevo e traduzo melhor de manhã porque o mundo faz mais silêncio, a tarde é cheia de distrações e tem sempre alguma catástrofe mundial ou uma pessoa errada no Twitter, noite é com os filhos e madrugada – a hora em que muitos tradutores que eu conheço gostam de trabalhar – eu durmo. Obs.: Não tomo café.

E o quanto esses hábitos de leitura mudaram de 2010, quando a coluna começou a ser publicada, até os dias de hoje?

Eu sinceramente não sei se leio mais ou menos do que há dez anos. Há dez anos eu não tinha filhos, mas tinha emprego fixo (professor). Há dez anos eu comprava todo lançamento estrangeiro que achava importante, hoje o dólar não deixa. Há dez anos não existia essa quantidade de editoras publicando catataus, hoje tem Veneta, Pipoca & Nanquim, Figura, Comix Zone, Nemo, Darkside etc. – e elas me mandam tudo.

Uma coisa que eu acho que mudou é que antes eu era muito seleto na minha pilha de leitura, fazia planos do que ler, em que ordem etc. Aprendi que eu tenho que pegar o que tiver à mão e ler de uma vez. Acho que a pilha desce mais rápido assim. E embora não seja pra ler HQ, ter um Kindle carregado e levar ele pra todo lado me ajuda a ler bastante prosa.

Gibis de super-herói foram minha formação e ainda leio alguns no digital. Talvez aí eu tenha cortado mais minhas leituras, ficado mais seletivo.

Além disso, não coleciono quase nada. Não compro revistas mensais, nem TPBs. Mas isso tem mais de dez anos.

“Entendo crítica como você sugerir uma forma de ler a HQ e justificar”

Arte de André Valente para Balões de Pensamento, livro de Érico Assis

Ainda em comparação com 2010, você vê muitas diferenças nos seus gostos e nas suas percepções sobre quadrinhos de lá para cá? Tem algo que hoje te interessa mais em uma obra ou um autor que você não dava tanta atenção há 10 anos?

Eu espero que tenha mudado, mas não consigo me ver de fora e avaliar se eu mudei. Tem autores que não existiam pra mim há dez anos. Minha preferida dos últimos tempos, a Eleanor Davis, é um caso.

Não sei se eu devia confessar isso em entrevista, mas tem muita HQ que eu vejo ganhando destaque e elogios hoje em dia, e eu não consigo gostar. Acho que essa é definição de velho.

E em relação à forma como você escreve, você acha que ela mudou muito?

Espero que sim, mas isso é coisa para algum crítico dizer. O que você acha?

[Se mudou, mudou para melhor, Érico]

Tenho curiosidade com a sua relação com as publicações com as quais você colabora. Quais são as principais diferenças, por exemplo, entre pensar um texto para a Folha e o Omelete? São muito distintos os seus sentimentos quando você publica um texto, outro exemplo, na Quatro Cinco Um e no blog da Companhia?

Quanto ao público da Quatro Cinco Um, da Folha e do Blog da Companhia, não diferencio. Entendo que é um leitor ou uma leitora que curte sua Elena Ferrante, mas às vezes se sente atrevidinho(a) e pega um livro com desenhos. Estou ali para colaborar com essa ousadia e dizer a essa pessoa que tá tudo bem, ela não precisa se achar infantil porque gostou da Jillian Tamaki. Pelo contrário.

O público do Omelete é outro. Se eu falar “com grandes poderes…”, não preciso concluir a frase. Mas eu me bato um pouco com a ideia de quem é o público do Omelete… Tem a leitora gamer de 13 anos que caiu na minha coluna por acaso e não vai se sentir bem-vinda. E tem os velhões pançudos de 40, como eu, que vão se sentir ofendidos se eu explicar que “…vêm grandes responsabilidades”.

Não sei se eu devia agradar esses dois lados do espectro. Nem sei se esse espectro existe. Também não sei se gamers de 13 anos ainda leem português.

“A pressa de conseguir pauta, gerar clique, gerar like institucionaliza a preguiça da apuração”

Artes de Wagner Willian e Ing Lee para Balões de Pensamento, livro de Érico Assis

O que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Eu sei que é a resposta mais vaga possível, mas eu gosto do que eu não sei explicar por que eu gosto. Além disso, sou o cara que gosta mais de como se conta a história do que da história em si. Sou péssimo pra falar de trama, de furos no roteiro. Lembro muito de cenas, de páginas, de quadros.

Dos últimos quadrinhos que me deixaram arrebatado – Aquele Verão, Oleg, A Infância de Alan, Hurt/Fuck, só pra citar alguns –, se eu explicar a trama, nenhum vai parecer interessante. Mas todas elas têm um jeito de contar a história ou alguns pontinhos que fazem o todo ser grande. É isso que eu procuro.

O que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos feitas no Brasil?

Num dos textos que eu escrevi pro Blog da Companhia, em 2014, sugeri que o quadrinho brasileiro devia apostar em obras com mais páginas: 200, 300, 400 páginas ou mais. Não é uma regra, mas obras dessa bitola costumam ter mais espaço de respiro, mais exploração gráfica, mais tranquilidade para contar a história.

Sei que é complicado o autor ou autora do Brasil ficar anos em cima de um trabalho desse tamanho, ainda mais sem os adiantamentos e outras financiamentos que existem em países com indústria de HQ. Comentei esses poréns na época, inclusive levei umas críticas. Mas aí vieram Dois Irmãos (230), Bulldogma (320 páginas), Angola Janga (430)…

Eu defendo que a HQ tende a ter ganhos com o tamanho. Ou com mais quadriculação, como os europeus costumam fazer: grids de quatro ou cinco faixas por páginas, em vez dos dois ou três dos americanos. A última Graphic MSP do Jeremias, por mais que não seja maior que a anterior em número de páginas, é mais quadriculada, tem mais “conteúdo” que a primeira – e aproveitou esse espaço pra montar uma estrutura melhor, contou mais história.

Acho que o que me interessa é isso: obras grandes.

Entre as suas muitas atividades relacionadas a quadrinhos estão jornalismo e crítica. Qual balanço você faz do jornalismo sobre quadrinhos e da crítica sobre quadrinhos praticados hoje no Brasil?

Tem poucos espaços onde você é pago para fazer jornalismo sobre quadrinhos e crítica de quadrinhos (eu e você ocupamos pelo menos metade. 😉 ) Ser pago não implica ser melhor, mas torna o trabalho mais profissional. O compromisso é diferente. Eu queria que houvesse mais espaços pra escrever sobre quadrinhos que pudessem cobrar esse compromisso (pago) do profissional.

Eu entendo crítica como você sugerir uma forma de ler o quadrinho e justificar. Fazer o leitor da crítica enxergar pelos teus olhos, mesmo que não concorde com a crítica. Isso eu vejo muito pouco. “Vale a leitura”, nota de um a cinco, estrelinhas etc. não me ajudam.

Tenho ranço quando comentam tipo de papel e acabamento gráfico do quadrinho, mesmo sabendo que isso importa (pra mim, inclusive) – acho que tira espaço de contar tua perspectiva sobre história, narrativa, encantamento, por que aquilo vai fazer diferença na tua vida ou não.

Voltando à questão de ser pago, é claro que existe o espaço dos canais de YouTube que encontram alternativas para se financiar. Mas, devido à velhice avançada e recalcada, não curto o formato e não acompanho nenhum com regularidade. Quando as pautas são essa discussão circular sobre os preços da Panini ou “quem vamos cancelar hoje”, tenho menos vontade de acompanhar. Mas sei que lá no fundo, em alguns minutos por vídeo, se produz algo de crítica interessante. Não tenho paciência de procurar.

Tem uma coisa que me incomoda pra caramba no jornalismo e na crítica de HQ: reclamar sem ler tudo. Falam da capa machista, do balão mal traduzido, do gibi com tema “tão errado” que o crítico nem vai ler. Qualquer coisa funciona dentro de um contexto e a pessoa que se dispõe a criticar tem que conhecer esse contexto antes de atacar uma capa, um balão ou um tema.

A polêmica da semana passada, por exemplo, sobre a “tradução racista” no Conan: não vi nenhum crítico ou jornalista dizer que leu a história inteira para apurar se tinha alguma justificativa para o Conan descaracterizado e racista da tradução. Se “analisou” e julgou todo o caso a partir de um tuíte, meia dúzia de imagens. Essa pressa de conseguir pauta, gerar clique, gerar like institucionaliza a preguiça da apuração.

(Favor incluir aqui desenho do Vovô Simpson gritando com as nuvens.)

Tá aqui a imagem do vovô Simpson gritando para as nuvens que o Érico pediu (nota do editor: no caso, o Érico tá certíssimo e a nuvem tá errada).

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Meus pais diziam que eu aprendi a ler “fim” porque “fim” estava escrito dentro de um martelinho do Thor na última página da história. Imagino que tenha sido por aí, com uns três ou quatro anos. Só fui ler os balões com uns seis.

Meus pais liam bastante, mas não quadrinhos. Por que me deram quadrinho desde muito cedo, eu nunca vou saber. 

Você tem um quadrinho preferido? Não necessariamente, aquele que você acha melhor, mas o quadrinho que você mais gosta.

Não sei se tem o quadrinho que eu mais gosto, mas tem vários com que eu tenho relação de afeto. Morte: o Preço da Vida, do Gaiman com o Chris Bachalo, me marcou muito quando eu tinha 15 anos (li antes de ler Sandman) e ainda bate quando eu releio. Desvendando os Quadrinhos, do Scott McCloud, definiu a universidade que eu fiz, minha carreira profissional, é uma inspiração gigante. Li muito, mas muito Homem-Aranha quando as fases clássicas dele, tanto dos anos 60 quanto dos 80, saíram aqui simultâneas e coincidiram com a minha infância, então tenho mais uma relação afetiva com o Peter Parker.

Todo ano, com sorte, encontro mais uma HQ que entra pras minhas preferidas da vida.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Fora dos quadrinhos, eu gosto muito de seriados. Os últimos que deixaram cenas grudadas na minha cabeça foram How to with John Wilson, Joe Pera Talks With You, Normal People e We Are Who We Are.

A capa de Balões de Pensamento, obra de Érico Assis publicada pela Balão Editorial
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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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