Papo com Luiz Gê, autor de Fronteira Híbrida e Avenida Paulista: “Meu trabalho sempre foi experimental” | Vitralizado

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Entrevistas / HQ

Papo com Luiz Gê, autor de Fronteira Híbrida e Avenida Paulista: “Meu trabalho sempre foi experimental”

Conversei com o quadrinista Luiz Gê para escrever para o jornal Folha de S.Paulo sobre Fronteira Híbrida, coletânea recém-publicada pela editora MMarte com trabalhos antigos e obras inéditas do autor do clássico Avenida Paulista. No meu texto falo sobre as origens e a edição do livro, passo pela relação de Gê com o músico Arrigo Barnabé e apresento algumas reflexões do artista sobre seus trabalhos. Você lê a minha matéria clicando aqui. Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Luiz Gê, saca só:

Trechos de HQ de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Qual sua memória mais antiga relacionada à presença de quadrinhos na sua vida?

Muito difícil me lembrar exatamente. Havia muita HQ naquela época. O dito GIBI. Haviam títulos e personagens que saiam regularmente, mas muito mais que isso. Os gibis estavam por todo lado, casas de primos, amigos, etc. No sítio onde passava férias com primos e primas era comum sempre ver alguém remexendo nas pilhas em uma estante, escolhendo o que ‘leria agora’. Mas não eram apenas gibis. O desenho estava por toda parte. Os anúncios eram praticamente todos desenhados. As revistas famosas (Fatos e Fotos, Cruzeiro, Manchete e outras) tinham muitos desenhos, além de cartunistas fixos. Foi lá que a geração de humoristas do Pasquim (além de outras mais velhas) se tornou famosa antes do Pasquim. As revistas eram a TV da época. Você as podia ver, empilhadas, até em fazendas no interior dos estados. Mas havia uma revista que me marcou, que era publicada em inglês e depois em espanhol (“para que usted entienda!”), a Mecânica Popular (Popular Mechanics). Com fotos e muitos tipos de desenhos, mostrava o que acontecia na tecnologia e ensinava a construir as coisas mais variadas. Construir, e não consumir. Meu pai era um desses que tinha mesa de carpinteiro e sempre estava construindo alguma coisa. Essa relação do desenho com a criação dos objetos, barcos, casas, etc. foi muito marcante. Dois casos em HQ foram impactantes e descobertos relativamente tarde, por mim (onze, doze anos?), o Tintim e o Príncipe Valente. Os dois em formato livro, tinham publicações e impressões muito mais caprichadas que o gibi normal. Mas o roteiro também era.

O que mais te interessa hoje em termos de linguagem das histórias em quadrinhos?

Retornar aos projetos de HQs e às minhas experiências e temáticas que não pude ainda fazer ou finalizar.

Quais foram as principais transformações em relação aos seus interesses e suas percepções sobre a linguagem dos quadrinhos ao longo dos anos?

Difícil dizer. No começo foi uma revista pioneira. Depois mostrar a possibilidade de diferentes formas de uso dos quadrinhos na imprensa alternativa e na grande imprensa, e, consequentemente para outras áreas. Colaborações contínuas para a grande imprensa. Direção de arte. Quadrinhos voltados para a nossa realidade, retratos da cidade de São Paulo. Publicações no exterior. Abri certas temáticas: fui o primeiro a desenhar realística e sistematicamente o cenário urbano, no caso, São Paulo, e, portanto, a realidade brasileira. Esses cenários sempre foram genéricos e com forte influência do quadrinho americano. Ou quando o faziam, focavam coisas folclóricas. Também desenhei o nosso passado com referências mais precisas. Também fiz HQs políticas de cunho internacional, que não vira antes. Criação, edição e publicação de uma revista para as bancas, ‘volta’ aos quadrinhos de página. Pesquisa e mestrado no exterior. Atividade pedagógica e de pesquisa na universidade. Criação de uma primeira ‘novela gráfica’ no Brasil. Quadrinhos e música, quadrinhos 3D, quadrinhos interativos para internet. Quadrinhos e direção visual de óperas. Volta para a grande imprensa. Pesquisas para novas temáticas.

“Vejo o desenho também como forma de pensamento”

Arte de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Você pode falar um pouco, por favor, sobre o desenvolvimento de Fronteira Híbrida? Como foi pensar o formato desse livro e selecionar seus trabalhos que estariam presentes nessa publicação?

Quando fui indicado como homenageado da Bienal, havíamos planejado exposição (muito linda e já praticamente pronta), palestras, lançamento de livros e de animação. A coisa foi adiada com o primeiro e, depois, com o segundo ano da pandemia. Pensamos em um livro. Tinha apresentado vários projetos. Eles escolheram esse assunto, diretamente ligado à temática daquela Bienal, Música e Quadrinhos. Não foi difícil conceber, embora tenha muita coisa, mas foi muito trabalhoso em muitos aspectos, mais do que pensava. Ainda que tenha tido ajuda, havia muito trabalho braçal que na verdade envolvia muitas decisões em seu processo, nas suas várias etapas, não dava para simplesmente delegar tudo.

Aliás, como você define Fronteira Híbrida? O que é esse livro para você?

Meu trabalho sempre foi experimental. Poderia dizer (hoje, nesse momento) de forma um tanto genérica, que a relação tempo/espaço (bidimensional) sempre foi importante. Mas existem algumas grandes áreas em que esse experimentalismo se manifestou. Uma dela na relação 2 e 3D, ou seja, no espaço, outra na interatividade, nas relações possíveis entre a obra e o leitor, e há uma terceira, que ocorre, muitas vezes permeada ou combinada com as outras (especialmente essas duas últimas) que foi a música, e que se deu principalmente por ter um interlocutor constante nessa área, o Arrigo Barnabé e vice-versa (poderia fazer algo como o Fronteira Híbrida para os outros dois temas mencionados). Então o livro cobre essas experiências relacionadas com a música, não só, mas a maioria com o Arrigo. São trabalhos que vão de HQs que têm trilha sonora à óperas e peças cênico-musicais. Tem bastante material, embora não só com ele, tem trabalhos individuais também. E, como quadrinhos e música, em princípio, tem essa fronteira aparentemente instransponível e a gente rompeu, de algumas formas, veio o título/conceito Fronteira Híbrida.

Você trabalha com várias técnicas e apresenta diversas propostas distintas em relação ao uso da linguagem dos quadrinhos nos seus trabalhos. Fico curioso: em meio a toda essa diversidade, existe um ponto de partida em comum? Existe alguma reflexão básica que você se propõe a fazer antes de dar início a cada obra? Existe algum questionamento fundamental que determina os rumos de cada HQ?

Vejo o desenho também como forma de pensamento. Não sou desenhista que segue linhas comerciais, artistas estabelecidos, muito embora haja muitas vantagens em fazê-lo, muitas. Cada um dos meus projetos tem uma reflexão, sua própria busca e isso afeta as decisões inclusive a forma como o desenho vai ser feito. Não estou dizendo que isso é o melhor e nem sempre dá para fazer. Mas, quando estou produzindo HQs no formato revista ou livro, isso é o mais comum de acontecer. O mesmo vale também para o que diz respeito à linguagem da HQ.

“As frustrações e decepções com a realidade brasileira atualmente são inextravasáveis”

Obra de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Fronteira Híbrida mostra como você sempre foi muito simpático ao uso de novas tecnologias para a produção de uma HQ. Quais as principais lições que você tirou das suas experiências com a incorporação de novas tecnologias em seus trabalhos?

Que há muito a se fazer. No Fronteira eu começo mostrando uma experiência desse tipo feita em 1972 (Oba Oba), que só pôde ser posta em prática na internet em 1997. Antes disso, tinha dado outro passo propondo nova forma de linguagem interativa em 1990 (Viagem ao centro do universo). Cheguei a desenvolver um projeto de pesquisa na universidade criando o material para essa realização. Isso também é mostrado no livro. Mas eu adoro o papel, pensei tudo isso em interação com a coisa impressa. Mas o nosso país é muito difícil. Coisas que deram muitíssimo certo (como a revista Circo, por exemplo, mas não só isso, claro) foram destruídas por um sistema político e principalmente econômico absolutamente instável. Qualquer coisa dependente só pode ser instável.

Qual é a maior influência do trabalho do Arrigo Barnabé na sua produção? Como a sua amizade e as suas parcerias com ele impactaram os seus interesses atuais em relação a quadrinhos e artes?

De muitas formas. Somos amigos desde 1970. Então, desde sempre houve trocas de ideias e propostas que embora sejam realizadas individualmente com toda a liberdade e independência, sempre acabam se encontrando. O livro é em boa parte a celebração dessa convergência. As influências mútuas devem ser muitas. Mas nenhum dos dois define ou determina o que o outro vai fazer. No prefácio, o Arrigo dá mais informações.

Fiquei pensado nos seus trabalhos misturando música com quadrinhos e pensei numa fala do quadrinista norte-americano Chris Ware sobre o tema. Ele disse: “Sempre que eu tento falar de música e quadrinhos, tento chegar na sensação inefável do que os quadrinhos produzem na minha mente, que eu penso como uma espécie de ‘música silenciosa’, que capta os ritmos do gestual humano que ‘ouvimos’, inconscientemente, quando vemos a pessoa se movimentar, algo similar ao que entendemos como música e, acho eu, retoma a experiência do mundo que pode ser até pré-linguística, quando nos comunicávamos por gestos e urros – música e dança, basicamente”. Enfim, eu fico curioso: você vê muitos paralelos entre as linguagens da música e dos quadrinhos? Se sim, quais seriam?

Bem, é exatamente isso que foi feito pelo Arrigo em Tubarões Voadores (a gente já vinha se falando sobre isso, criar alguma coisa nesse sentido). Ele viu ouvindo a ‘música’, a ‘poesia’ daquilo e criamos esse híbrido, HQ, música e HQ com trilha sonora, ou som com visual. Essa ‘música’ possível da HQ sempre esteve presente na minha mente e na de outros quadrinistas, com certeza. Não de todos é claro, depende.

“Se o Bozzo ganhar, acho que não vai sobrar nada desse país”

Página de HQ de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Sobre os seus trabalhos recentes com temáticas mais políticas: o quanto eles permitem que você extravase suas frustrações e decepções com a realidade brasileira?

As frustrações e decepções com a realidade brasileira atualmente são inextravasáveis.

As pesquisas recentes sugerem que estamos cada vez mais próximos do fim do governo Bolsonaro. Você já se permite algum otimismo com o provável término desse período de quatro anos sob o governo do atual presidente?

Eu tenho desenhado todo o período de 2016 a 2022, seria legal publicar. Tenho boa parte, título para ela, inclusive, atualizados. Acho que sinto como todo mundo, a fé é na eleição deste ano. Se o Bozzo ganhar, acho que não vai sobrar nada desse país. A destruição que ele provocou é inacreditável, jamais vista. É inacreditável como o país para por conta de um Aras, uma pessoa! Isso é instituição funcionando? Então não está funcionando, ou está só para esses poucos aí. A tal da ‘direita’ deveria ser chamada de ‘errada’. Como deixaram tanta destruição ocorrer? É a barbárie. Civilização passou longe! Isso deve ser o que eles querem, nos destruir.

Aliás, você se vê de alguma forma otimista em relação ao futuro do Brasil? 

As forças contra o desenvolvimento, a educação e a conscientização da maioria vem se impondo não é de hoje. Isso vem desde os anos 1970. Talvez desde 1945. Tivemos uma ótima educação pública que foi desmontada nos anos 1960 e 1970 e jamais reconstituída. Era limitada, mas poderia ter sido expandida. Para reconstruí-la há um passo imprescindível, pagar bem professor. Atrair de novo gente que está indo para outras áreas, de volta para essa instituição que foi arrasada. E construir um país verdadeiramente soberano. Com o fantoche, sem condições, saindo temos boas chances. 

A capa de Fronteira Híbrida, obra de Luiz Gê publicada pela editora MMarte (Divulgação)

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