Vitralizado

Entrevistas / HQ

Papo com Rafael Sica e Paulo Scott, autores de Meu Mundo Versus Marta: “As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis”

Escrevi para o jornal Folha de S. Paulo uma crítica de Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Chamo atenção no meu texto para vários dos méritos da obra, uma das minhas leituras preferidas de 2021 até aqui, mas destaco principalmente o espetáculo narrativo em preto e branco de Sica e os paralelos da trama com o Brasil distópico de Jair Bolsonaro. Você lê a minha crítica clicando aqui.

Entrevistei os autores da obra há algumas semanas. A nossa conversa foi focada principalmente na dinâmica dos dois durante o desenvolvimento do quadrinho, mas eles também contaram sobre o início dessa parceria, comentaram alguns dos temas tratados na HQ e analisaram essas semelhanças entre o cenário do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica do país. Leia a HQ, depois o meu texto e volte aqui em seguida para conferir essa conversa. Papo massa, saca só:

“O que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista”

Quadro de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Tenho perguntado para todo mundo que entrevisto ao longo dos últimos meses: Como estão as coisas por aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina de vocês?

Paulo Scott: Para quem escreve e trabalha em casa não há muita mudança de rotina. Penso, entretanto, que, havendo essa trágica justificativa para ficar trabalhando em casa em tempo integral, a pandemia, o confinamento exigido, facilitou o desenvolvimento de ideias e projetos que demandariam muito mais tempo e foco direcionado em condições de existência normal para acontecerem.

Rafael Sica: Quando começou a pandemia recém tínhamos lançado o livro Triste e foi impossível trabalhá-lo como gostaríamos. Minha produção não foi diretamente afetada pois trabalho em casa e de certa forma já é um tipo de isolamento. O livro Brasil, que desenhei e foi lançado durante a pandemia é um reflexo desse período e, nesse sentido da temática, afetou a produção.

O que vocês podem contar sobre o ponto de partida de Meu Mundo Versus Marta? Desde quando esse projeto está em desenvolvimento? Como teve início a parceria de vocês nesse livro?

Paulo Scott: Sou um fã confesso dos desenhistas e quadrinistas do meu tempo, da minha geração. Tenho trabalhos feitos em parceria com a Laerte, com o Fabio Zimbres – com ele criei o projeto Na TáBUA, que é só uma de nossas invenções –, Adão Iturrusgarai, Guazzelli entre outros e estou sempre atento aos novos. Entre os nomes geniais que apareceram no início deste século, não lembro de ter ficado tão impactado por outro como fiquei com o Rafael Sica, com o seu trabalho, sua singularidade, sua potência, sua inteligência.

A iniciativa foi minha. Procurei o Rafael, a quem fui apresentado pelo Fabio Zimbres, e disse que tinha escrito um roteiro de graphic novel para ele, um roteiro inspirado no trabalho dele, nas idiossincrasias dos desenhos e narrativas dele. Foi uma história que meio que surgiu pronta na minha cabeça, sem diálogos, dentro de um arco narrativo bem simples.

Ele foi muito generoso ao responder que gostaria de ler o que escrevi. E ainda mais generoso ao aceitar a proposta de parceria. Importante dizer que isso que chamo de roteiro nunca foi visto por mim como um roteiro tradicional, um roteiro escrito a ser cumprido por um quadrinista. Não. O que fiz foi apresentar ao Rafael Sica uma história escrita, uma ideia, minha para que, a partir dela, ele contasse a história dele.

Nesse sentido, eu diria que a graphic novel Meu Mundo Versus Marta é trabalho autoral do Rafael Sica feito a partir da leitura exclusiva dele de uma ideia minha, de uma história que eu escrevi.

Rafael Sica: Eu já tinha visto algumas coisas do Paulo por conta do Na TáBUA, projeto que ele faz junto do Fabio Zimbres. Já era um fã mas conhecia pouca coisa. O Paulinho Chimendes, artista plástico fundamental em Porto Alegre, foi quem me emprestou Ainda Orangotangos, livro do Scott. Primeiro livro que li dele. Depois fui conhecer pessoalmente o Scott numa festa literária em Porto Alegre. Não lembro quem nos apresentou, mas em poucos dias eu já recebia um texto no meu mail e a pergunta se eu gostaria de desenhar. Topei na hora. Isso foi lá por 2012. De lá pra cá, tive tempo de ler quase todos os livros do Scott e ir aos poucos pensando como desdobraria aquele texto de sete páginas em uma narrativa gráfica longa.
 
E como foi a dinâmica de trabalho de vocês? Vocês chegaram a fechar a trama inteira e um roteiro antes do Rafael começar a desenhar? Qual foi a influência do Rafael na trama? Como era a relação do Paulo com a arte à medida que o Rafael ia produzindo as páginas?

Paulo Scott: Sobretudo por se tratar de uma história de resultado final muito baseada na estética, na imagem, o desenho é o que dá a complexidade para uma história que, sem dúvida, é bastante simples, elementar. A trama pode ser resumida em duas linhas – embora o roteiro tenha tomado cinco ou seis laudas, pelo que me lembro –, mas o contar, em formato de graphic novel, envolve um grau de detalhamentos sem os quais o fabular da narrativa jamais aconteceria.

Como eu disse, apresentei ao Rafael a história escrita. E, quando ele começou a desenhar, fez as alterações que achou necessárias. À medida que ia produzindo as páginas, ele ia me mostrando, mas eu jamais tive qualquer ingerência sobre o que ele estava realizando, jamais dei qualquer sugestão, limitei-me a aplaudir e agradecer a oportunidade da experiência.

Rafael Sica: Tive toda a liberdade que você possa imaginar pra criar a narrativa. Já tive roteiros de quadrinhos em minhas mãos e o que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista.

“Tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Paulo, você já escreveu romances, contos, poesias e peças. Meu Mundo Versus Marta (MMXM) é sua primeira HQ, certo? Como foi essa experiência? Escrever uma HQ se aproximou mais de alguma outra experiência de escrita sua?

Paulo Scott: MMXM é o meu terceiro roteiro para graphic novel. Antes fiz dois, pelos quais recebi adiantamentos de direitos autorais e tudo, mas que acabaram não se realizando na época programada. Um deles, eu pretendo concretizar no ano que vem, porque os desenhos já estão prontos, é o Não Me Mande Flores, em parceria com outro gaúcho, o talentoso Eduardo Medeiros, do Sopa de Salsicha. Estou escrevendo um quarto roteiro – é um projeto meio paralelo à empreitada de escrita do romance Rondonópolis para o qual estou me dedicando no momento.

Para mim, tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar. A adequação às formas e aos tempos é uma questão importante, mas não é o principal. Mesmo na escrita de romances, se você for honesto com o processo e consigo mesmo, cada livro demanda uma nova trajetória, uma série de novas descobertas, formatos, lógicas, de novas inquietudes e perplexidades.

Aliás, Paulo, você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com HQs?

Paulo Scott: Sempre fui leitor de gibis, colecionava. Mas foi a chegada às minhas mãos de um exemplar de segunda mão da Heavy Metal com o Ranxerox na capa no início de 1984, eu tinha 17 anos, que mudo a minha vida. Foi quando começou minha busca apaixonada pelas revistas europeias, sobretudo, graphic novels, uma busca que reverberou – assim como aconteceu com o rap novaiorquino na mesma época – diretamente sobre minha poesia. Os quadrinistas de Porto Alegre foram fundamentais nesse processo também.

“É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Rafael, Meu Mundo Versus Marta é sua primeira experiência em parceria com um escritor, correto? Fico com a impressão que seus trabalhos são muito intimistas e pessoais, como foi essa experiência de trabalhar com outra pessoa?

Rafael Sica: É a primeira vez que desenho com texto de outra pessoa, também é meu primeiro quadrinho mais longo. Foram muitos desafios e acredito que esse tempo todo com o texto na mão, pensando a história, buscando caminhos. Por vezes eu até esquecia que outra pessoa tinha escrito, de tanta intimidade que criei com o argumento do Paulo.

Rafael, você pode me falar um pouco sobre sua dinâmica de trabalho durante o desenvolvimento dessa HQ? Você trabalhou dentro de alguma rotina enquanto desenhava esse quadrinho? Você pode me falar, por favor, quais materiais usou?

Rafael Sica: Comecei a desenhar lá em 2012, quando fiz dois capítulos. Depois, ficou um longo tempo parada. Quando voltei a desenhar, já em 2018, fiz uma média de duas páginas por dia, inclusive refiz os dois primeiros capítulos. Pra desenhar usei bico de pena e nanquim.

Mais uma para o Rafael: você está mais habituado a trabalhar com tiras e HQs curtas. Como foi a experiência de desenvolver esse trabalho mais longo?

Rafael Sica: Geralmente, depois que faço um desenho, deixo ele de lado e já não quero mais saber. Parto pra outra ideia e persigo ela. É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa. Foi uma relação bem íntima e dolorosa. Mas gosto do resultado. Próximas histórias longas só farei se for muito bem pago por esse tipo de trabalho, o que suspeito que não irá acontecer tão cedo. 

“Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Um dos elementos mais marcantes de Meu Mundo Versus Marta para mim é o design das páginas, como vocês administram a velocidade da trama com o uso de mais ou menos quadros por página ou quadros menores e maiores. Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre a construção dessa estética da HQ?

Rafael Sica: O texto do Paulo tinha esse ritmo, de acompanhar os personagens a cada minuto do dia. Então optei por deixar bem fragmentada, marcando um tempo que é quase um tempo de animação ou cinema mudo. O gestual foi muito trabalhado. Quando a personagem levanta da cama e vai até a cozinha e sai de casa, todo esse caminho é mostrado. É uma história muito íntima, você entra na vida daqueles dois seres e pra isso era preciso mostrar tudo nos mais intrincados detalhes.

O ambiente urbano tem um peso grande em trabalhos do Sica, penso principalmente em Fachadas e Ordinário. Obras distópicas como Meu Mundo Versus Marta tendem ser ambientadas em grandes centros urbanos. Vocês veem alguma justificativa para isso? Vocês sempre estiveram claros em relação a essa ambientação do quadrinho?

Paulo Scott: A aglomeração urbana é o lugar do absurdo racional, da loucura, dos excessos, onde o futuro, que é sempre aposta, se coloca como uma obsessão, um projetar que é disputa, a ilusão de que se pode projetar. Achei magnifico o cenário que o Rafael armou para a MMXM, deu um aspecto lúdico que dilui o lado aterrador da narrativa. Uma solução genial.

Rafael Sica: No texto do Paulo tinham algumas referências a lugares aqui de Pelotas, cidade onde vivo atualmente e sempre foi o cenário dos meus desenhos. Em Fachadas, Ordinário e etc é sempre o mesmo cenário.

Agora, temos essa ideia de ficção científica e obras distópicas ambientadas em grandes centros urbanos, mas esquecemos que numa cidade de interior a loucura também chega. Então, desde o começo do projeto, minha ideia era ambientar a história em uma cidade de interior imaginada. Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito.

Há muitas comparações entre o atual cenário político-social-pandêmico brasileiro com uma distopia. Essa realidade impactou de alguma forma o desenvolvimento do trabalho de vocês?

Paulo Scott: Não há grande impacto, no meu caso. A história do Brasil se desenvolve sobre as tragédias e violências mais injustificadas imagináveis, fomos o último país a abolir a escravatura de pessoas raptadas do continente africano e trazidas como produtos mercantis, desfeitas de sua identidade, de sua mínima dignidade, somos um país marcado pela perversidade militar, o país mais dominado e desrespeitado pelos bancos no mundo, o país de uma das elites mais covardes e insensíveis do planeta, basta saber ler o que se passa, o que passou. As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis, me parece, são uma consequência natural.

Penso, no entanto, que MMXM trata de um terror que é mundial, expressado no século XX e perpetuado nas ambições de muitos. A presença do personagem Marta remete a uma intervenção heterônoma com a qual a humanidade ainda não sabe muito bem como lidar. O medo é a paz, mas uma paz que só aumenta o terror. Marta é o juízo final sempre retardado, sempre contornado, o que não impede que a humanidade prossiga com seus abusos, com suas maldades, com seus totalitarismos.  

Rafael Sica: Especificamente, não. Foi produzida anteriormente a toda essa situação atual desastrosa em que nos encontramos.

“Tendo a achar que a leitura é o que dá o caminho da obra”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Pesou muito para mim na leitura do quadrinho o clima de desconfiança e conspiração da história. Foi intenção de vocês fomentar essa impressão de desconforto e tensão constantes?

Paulo Scott: Penso que esta é uma pergunta para o Rafael responder.

Tendo a achar que a leitura (no caso a sua) é o que dá o caminho da obra. Não gosto de falar em dimensão mais profunda dos meus poemas, por exemplo. A magia está na leitura. Acho que sua pergunta já coloca um interessante caminho possível.

Rafael Sica: Como falei, é uma história muito íntima, você entra fundo na intimidade das personagens e isso gera essa sensação de insegurança a angústia. É tão íntimo que parece com a nossa vida. Tão íntimo que vira público.

Mando essas perguntas cerca de um mês antes do lançamento do quadrinho. Ele ainda não foi impresso, mas o arquivo final já foi entregue para a editora. Qual balanço vocês fazem dessa experiência de produção de Meu Mundo Versus Marta?

Paulo Scott: Uma alegria indescritível ver, dez anos depois, a leitura de uma ideia minha realizada por um artista tão incomum, um artista que eu tanto admiro, impressa no papel, impressa para ficar – o trabalho do Rafael é daqueles que ganham outra dimensão quando impressos no velho e bom papel. Isso é inegável. Não é a mesma coisa ver uma tela de uma grande pintora, de um grande pintor, num monitor eletrônico. Com a MMXM, do Rafael Sica, tenho certeza de que é a mesma coisa.

Penso que exercitamos a paciência e a determinação de realizar, tenho orgulho da amizade que se formou e se fortaleceu em torno de um projeto que combinou dois trabalhos distintos, que foi diálogo entre dois caras que se admiram e se respeitam e, sobretudo, que aprendem um com o outro. Da minha parte, o que posso dizer é que foi uma escola.

Rafael Sica: Não acredito que enviaram um PDF pra você. [Nota do editor: no caso, o artista expressa seu incômodo em relação ao envio da obra, pela editora, em formato de PDF antes do lançamento de sua versão impressa.]

Vocês podem recomendar algo que tenham lido/assistido/ouvido nos últimos meses?

Paulo Scott: Poesia. Há muitos bons livros de poesia lançados no último ano.

Rafael Sica: Frequente e alimente bibliotecas comunitárias. Aqui no bairro tem uma que me salvou durante a pandemia. Você vai lá e pega um livro, outra vez vai lá e deixa um livro, tudo no auto-serviço. Tudo na confiança, além de seguro em tempos de vírus circulando.

A capa de Meu Mundo Versus Marta, HQ de Paulo Scott e Rafael Sica publicada pela editora Companhia das Letras (Divulgação)
HQ / Matérias

Rafael Sica, Paulo Scott e o espetáculo visual de Meu Mundo Versus Marta

Escrevi para a Folha de S.Paulo sobre Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Expliquei no texto porque considero a obra, desde já, um dos grandes títulos das HQs brasileiras em 2021. Ainda chamei atenção para o espetáculo estético apresentado por Sica, a proposta da dupla em oferecer uma experiência narrativa estritamento visual e os paralelos do cenário distópico do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica brasileira. Obra que vale ser lida, relida e bastante analisada e discutida. Você lê o meu texto clicando aqui.

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #103: 04.2021

Fico com a impressão que o ano do Vitralizado só começa para valer depois da divulgação do resultado do Prêmio Grampo. Talvez, junto com a já tradicional arte de aniversário do blog, seja um dos grandes marcos anuais das minhas atividades por aqui. E eu, Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni, divulgamos os vencedores desse sexto Grampo no início de abril. Resultado bem massa, diferente do meu top 3 pessoal, mas coerente com o filtro editorial do blog. E nas últimas semanas ainda fiz algumas entrevistas, participei de algumas conversas que curti muito e escrevi sobre projetos que recomendo a sua atenção. Enfim, vamos lá, segue o sumário do blog nos 30 dias que ficaram para trás (no abre, arte de Jaime Hernandez para Love & Rockets tirada lá do Bristol Board):

*Eu, Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni divulgamos o resultado da edição de 2021 do Prêmio Grampo de Grandes HQs. O Grampo de Ouro ficou com Sabrina (Veneta), de Nick Drnaso; o Grampo de Prata com A Solidão de um Quadrinho Sem Fim (Nemo), de Andrian Tomine; e o Grampo de Bronze com Mau Caminho (Veneta), de Simon Hanselmann. Você confere o resultado final, com os 20 primeiros colocados e todos os títulos citados pelos jurados, clicando aqui. E aqui você confere os 20 rankings individuais dos nossos jurados;

*Depois de divulgar o resultado do Grampo, reuni em um único post todo o material que produzi sobre os três primeiros colocados na edição de 2021 da premiação;

*E você já assistiu à live sobre o Grampo de 2021 que gravei na companhia de Maria Clara Carneiro, Lielson Zeni e Douglas Utescher? Papo bem massa, viu?;

*Conversei com a quadrinista Helô D’Ângelo sobre Isolamento, webcomic produzida por ela desde o início de 2020 e compartilhada nas redes sociais da autora, sobre a rotina dos moradores de um prédio durante o período de isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus. Esse papo foi o foco da 19ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Depois compartilhei por aqui a íntegra da minha entrevista com a autora;

*E nessa Sarjeta mais recente ainda teve um papo com a quadrinista Jéssica Groke, autora de Me Leve Quando Sair, Babilônia, Piracema (coleção da Tabu) e co-organizadora da coletânea 11:11;

*Fui o responsável pela mediação do episódio especial do Lasercast celebrando o aniversário de 20 anos do blog Raio Laser, um dos principais espaços voltados para a crítica dos quadrinhos na internet brasileira. Papo bem massa na companhia de Ciro I. Marcondes, Pedro Brandt, Raimundo Lima Neto, Bruno Porto, Marcos Maciel de Almeida e Márcio Jr. Já ouviu?;

*E bati um papo beeeem massa com o cartunista Batista sobre O que Conto Quando Conto uma Piada, coletânea de 192 páginas reunindo alguns dos melhores trabalhos de um dos principais nomes do humor gráfico brasileiro contemporâneo. Papo bom demais, viu?

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Entrevistas / HQ

Papo com Helô D’Angelo, autora de Isolamento: “Gosto de tecer finais para histórias que ouvimos pela metade”

Conversei com a quadrinista Helô D’Angelo sobre Isolamento, série que acompanha a rotina dos moradores de um prédio desde o início da pandemia do novo coroanvírus. A obra é publicada no Instagram e no Twitter da autora desde os primeiros meses de 2020 e está atualmente em campanha de financiamento coletivo para lançamento de sua versão impressa. Transformei essa entrevista com a artista no tema da edição de abril da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê meu texto clicando aqui.

Reproduzo agora a íntegra do meu papo com Helô D’Angelo. Ela me falou sobre as inspirações por trás da HQ, contou sobre seus hábitos de observação, expôs as técnicas usadas por ela na produção da série e refletiu sobre o impacto da realidade sócio-econômica-pandêmica brasileira em seus trabalhos. Recomendo o seguinte: leia Isolamento, depois invista na minha coluna no site do Itaú Cultural e, em seguida, retorne aqui para ler a entrevista. Conversa bem boa, saca só:

“As fofocas que ouvimos por aí são inspiradoras e material para criarmos histórias mais verossímeis”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Pergunta super pertinente! Por aqui, as coisas estão como num grande Dia da Marmota: mesma rotina, mesmas aflições, mesmas angústias dia após dia. No começo da pandemia, eu estava com bastante energia acumulada – muita raiva, impotência, ansiedade. Então, produzia sem parar, trabalhei demais… e isso me rendeu um burnout com pitadas de noites insones. Então, no final do ano passado, reduzi minha carga de trabalho, inseri na rotina umas caminhadas na praça e tenho tentado não ler tanto as notícias. Agora estou totalmente focada em Isolamento, que inclusive é um projeto que tem me dado bastante amparo sentimental nesses tempos obscuros.

Quero saber sobre o ponto de partida de Isolamento. Houve algum momento em particular que bateu a ideia de transformar a pandemia e o isolamento social em trama de um quadrinho?

Bom, eu me mudei para o apartamento onde moro agora poucas semanas antes do início do isolamento brasileiro. O apartamento fica no topo de uma elevação, um pequeno morro, e é no primeiro andar, de modo que a minha janela se tornou, na prática, o camarote de um anfiteatro. Ouço e observo praticamente TUDO que as pessoas dizem e fazem pelas janelas. Particularmente uma vizinha nossa, que morava numa casa bem abaixo da nossa janela, era bem irritante: ela falava, berrava e cantava de madrugada, dava festas, ridicularizava nossos pedidos de silêncio, era um inferno. Outros vizinhos não faziam barulho, mas reclamavam da gente (denunciaram nossas plantas na janela à síndica… coisas assim). No começo, eu ficava muito irritada com a situação, porque sou dessas que curtem um silêncio, mas quando vi que não tinha jeito (e que a pandemia ia longe), decidi fazer uma tirinha da situação, meio que pra tirar o peso da coisa. Criei, então, esse prédio imaginário, com 12 apartamentos, e personagens que eram amálgamas de todas as pessoas reais que eu ouvia, de forma adaptada. A tirinha seria só isso mesmo, uma tirinha, se não tivesse feito tanto sucesso. Experimentei fazer uma segunda tira – sobre os panelaços – e aí, mais inspirada, comecei a seriar a HQ. Hoje, já temos duas temporadas do predinho.

Você já disse que as histórias de isolamento são parcialmente inspiradas nas suas observações dos seus vizinhos. Uma vez eu entrevistei o Adrian Tomine e ele ressaltou a importância da observação para a criação dos personagens e desenvolvimento das histórias dele. Você tem algum hábito ou rotina em particular de observação do mundo ao seu redor?

Sim, eu concordo demais com Tomine. Eu sempre digo que, para ser um bom quadrinista, a pessoa precisa ter apenas uma característica: ser uma boa fofoqueira. Porque as fofocas que ouvimos por aí são inspiradoras e material para criarmos histórias mais verossímeis. E eu sempre tive ouvidos atentos: gosto muito de ouvir os bafafás na rua, no ônibus, e especialmente de vizinhos. Fico imaginando o que aconteceu ali e frustrada por saber que nunca vou descobrir de fato. Então, nesse sentido, acho que para além da inspiração eu gosto de tecer finais para essas histórias que ouvimos pela metade. Outro hábito que tenho é o de desenhar estranhos: estou sempre com meu caderninho, pra lá e pra cá, tentando conhecer aquela pessoa pelo traço e a observação. Acho que muitas dessas pessoas e seus desenhos ficam gravados na memória, num baú de referências, e reaparecem quando preciso delas.

“Sem minha experiência jornalística eu jamais teria chegado a Isolamento porque não saberia como ouvir e ver de verdade”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

E você fala da sua observação dos seus vizinhos como inspiração, mas cada uma daquelas varandas ali também me soa como uma conta de rede social. Os seus vizinhos de rede também são inspiração para o desenrolar de Isolamento?

Que boa pergunta! Com certeza, muito da inspiração para a HQ vem de outras fontes que não os vizinhos em si. E como passamos muito tempo pendurados nessas “janelas” das redes sociais, acredito que muito das histórias vindas das redes se derrama para Isolamento. Principalmente as histórias mais gerais, como o sentimento das pessoas naquele momento específico – um período de muitos panelaços, ou um período de recorde de mortes, por exemplo -, e algumas específicas, como a de uma blogueira que, ao ser cancelada, começa um caminho de autocuidado e terapia. Pra citar Drummond, acho que são vários sentimentos do mundo que eu desenho na HQ, e como o mundo está restrito às janelas (reais ou virtuais), acabo usando o material que chega para mim.

Ainda sobre seus hábitos de observação: o quanto você acha que a sua formação em jornalismo contribui para os seus registros e suas assimilação do mundo à sua volta e para o desenvolvimento de Isolamento?

Olha, quando eu estava na faculdade de jornalismo, achava que estava perdendo tempo da minha vida com algo que eu não queria fazer. Mas a verdade é que aprender a entrevistar e a escutar (uma escuta real, que às vezes acho que a gente só alcança na análise ou numa boa entrevista) moldou os meus quadrinhos. Acho que, quando a gente faz uma boa entrevista, é como se um véu se abrisse naquele momento; um véu que separa você da outra pessoa. De repente, você pode ver a pessoa com mais clareza. pode acessar pontos que antes estavam ocultos ou protegidos. E é uma satisfação imensa quando a gente chega lá, e algo como um pacto se cria entre jornalista e fonte. Eu gosto de tirar o véu dos meus personagens para quem lê, e acho que os leitores atentos podem descobrir coisas muito interessantes sobre esses personagens, se prestarem atenção e estiverem dispostos a ouvir de verdade. E isso pode, assim como uma boa entrevista, ensinar ao leitor coisas sobre si mesmo. Então, acho que sem minha experiência jornalística eu jamais teria chegado a Isolamento porque não saberia como ouvir e ver de verdade.

E eu imagino que parar para observar o mundo, pensar uma história deve ser uma experiência bastante terapêutica. Ao mesmo tempo, imagino que possa não ser tão agradável assim criar em torno da pandemia e retratar pessoas com posições ideológicas extremas à sua… Enfim, como tá sendo a sua experiência de trabalhar na série?

Eu acho que é uma experiência bem terapêutica, sim, no sentido de que eu tenho um espaço para encarar de uma forma segura as pessoas que me incomodam. Um dos meus personagens favoritos, ironicamente, é um senhor idoso, eleitor de Bolsonaro, seu Oswaldo. Gosto dele porque é um poço de profundidade, com um monte de interpretações possíveis: é um bolsonarista, mas também é um idoso solitário, e também um pai triste por ter rompido com a filha, e ao mesmo tempo um homem com suas sensibilidades, que curte tricotar e ver novela, mas que foi podado emocionalmente por tanto tempo que já não se lembra como acessar emoções. É uma sensação boa poder desenhar essas faces de seu Oswaldo, me faz entender que as pessoas todas são assim, multifacetadas. Isso me faz sentir um pouco mais de calma sobre a situação geral do mundo. Por mais que eu ainda sinta bastante raiva de pessoas como ele, rs. E isso se repete com muitos moradores do predinho. A coisa se torna uma espécie de meditação sobre aquilo que não posso mudar e a preciosidade que existe, ainda assim, no mundo.

“Estou criando conforme a realidade avança, e algumas coisas eu mudo ao longo do caminho”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Aliás, fico curioso, por mais que você possa ter planos para cada um dos seus personagens, eles me parecem meio à mercê da realidade… Como é para você criar enquanto o pano de fundo da série tá em curso?

Na primeira temporada, eu desenhei 24 episódios direto, adiantados. E era isso. Ia postando aos poucos e a realidade não estava se movendo com tanta rapidez, então deu tudo certo. Quando cheguei à segunda temporada, comecei a desenhar furiosamente e meu namorado, Luis, disse “Xi… agora, você vai ter que prever o futuro”. Eu ri, mas de fato me deparei com o problema da realidade estar mudando a cada semana. Eu não podia, então, adiantar tantas semanas da HQ porque, de uma semana para a outra, saía uma vacina. Ou começava um BBB e as dinâmicas relacionadas ao programa, começavam panelaços, enfim, coisas que eu não podia ignorar. Então, fiz um roteiro-base bem simples para cada janelinha e adiantei o que era possível. O resto estou criando conforme a realidade avança, e algumas coisas eu mudo ao longo do caminho: desenhei a vovó, que mora com o neto, sendo vacinada; contaminei o Marcelo, morador da cobertura que não para de dar festas na pandemia; desenhei o esperado parto de uma das personagens… Pra mim, é uma forma nova de fazer HQ: em geral, tenho um roteiro pronto e faço poucas mudanças ao longo das postagens. Tem sido estranhamente libertador.

Imagino que você tenha preferências por um ou outro personagem em particular, prefira desenvolver mais esse ou aquele e se sinta mais distante de alguns… Acho que quero perguntar é: é difícil não se livrar dos bolsonaristas do prédio?

Hahaha, acho que já respondi um pouquinho na pergunta sobre a HQ ser terapêutica, mas a resposta é não. Embora eu sinta um ódio gigante quando penso na situação do país e nas pessoas que elegeram Bolsonaro, e mais ainda nas que seguem apoiando o governo, eu realmente gosto dos meus personagens. Me fazem lembrar, por exemplo, da minha relação com meu pai – um homem muito simples, muito amedrontado pela mudança dos tempos, pela alteração de um mundo que ele foi criado para achar que era seu reino. Ele não sabe mais como funcionam as relações e às vezes ergue um muro de fúria e machismo em torno de si mesmo. Passei muitos meses sem conversar com ele, logo após as eleições de 2018. Agora, voltamos a nos falar, com um pouco mais de abertura e compreensão. Eu me sinto um pouco conversando com meu pai quando desenho esses personagens; me vejo tentando compreender que tipos de extremos levam uma pessoa a apoiar um genocida no meio da maior crise sanitária e humanitária das últimas décadas. Acho que é mesmo um lugar de muito medo, o dessas pessoas. E eu gosto de tentar desvendar isso e de, talvez, nutrir esperanças por uma mudança de pensamento, como tem rolado com meu pai. Mas, lógico, tem momentos em que eu gostaria muito de jogar esses personagens pela janela…

O quanto você já tem elaborado da série? Até onde você já tem definido em relação aos destinos de cada personagem?

Teoricamente, a HQ está roteirizada inteira, até o fim. Mas eu posso vir a fazer algumas mudanças, como contei antes, por causa das novidades da vida real: o início da vacinação de uma determinada faixa etária, aumento do número de mortos, coisas assim. Outros detalhes eu também preciso alterar porque percebo que alguma coisa não ficou clara, ou que precisa ser mais desenvolvida – às vezes eu só percebo isso ao postar o episódio e reler ao mesmo tempo que os leitores. São coisas como um flerte entre personagens que evoluiu rápido ou lento demais, a gravidez de uma personagem que precisa acabar e não previ isso, uma personagem que raspou o cabelo e agora ele está crescendo de novo. Mas a linha geral das histórias, o começo, meio e fim, já estão definidos.

“Minha previsão do projeto é que ele termine no episódio 40 da segunda temporada”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Você já tem um final em vista para a série? Caso não tenha, até onde você acha que ela pode ir?

Hoje, minha previsão do projeto é que ele termine no episódio 40 da segunda temporada, sem contar várias HQs extra, ilustrações e conteúdos assim. Mas… como a pandemia não parece estar nem perto de acabar, pode ser que eu continue por mais algum tempo. O mais provável é que eu foque em alguma das janelas e desenvolva histórias mais longas de alguns dos personagens do prédio. Fortes candidatos são Catarina e seu cachorro falante, por exemplo. Outra ideia é narrar coisas que aconteceram fora do prédio, com personagens que não aparecem ali. Ou, talvez um novo prédio… Por enquanto, são só ideias!

Acho que são propostas muito diferentes, mas o Aqui, do Richard McGuire também se propõe a narrar sob um único ponto de vista, com saltos temporais e informações vagas sobre a vida de cada personagem. Essa obra te influenciou de alguma forma durante a produção de Isolamento? Teve alguma outra obra (seja HQ, filme, livro, música, série ou o que for), que impactou de alguma forma o seu trabalho em Isolamento?

Eu li o Aqui bem no começo da pandemia e, sim, ele me influenciou bastante nesse sentido, de uma visão poética de um mesmo ponto de vista. Tive outras referências também, como Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo, de Chris Ware, uma HQ que me marcou muito pelo cuidado com os mais minúsculos detalhes, algo que eu gostaria de incorporar nesta HQ (claro que não tenho a pretensão de ir até a nota de rodapé da nota de rodapé, mas adorei os cenários detalhados pequeninos). Os filmes Janela indiscreta, do Hitchcock, e Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet, foram dois que assisti no começo do isolamento e também me inspiraram bastante – o primeiro, obviamente, pelo formato, e o segundo pela diversidade de pessoas convivendo num mesmo espaço e produzindo alguma doçura no meio de canibalismo e alguma praga ambiental pós-apocalíptica. E um álbum que me deixou bastante inspirada enquanto fazia a HQ foi Fetch the Bolt Cutters, da Fiona Apple: ela lançou durante a pandemia e, ao fundo, ouvimos vários sons de sua casa, incluindo seus cachorros.

Você pode, por favor, falar um pouco sobre as suas técnicas em Isolamento? Dora e a Gata foi todo com tinta, né? E agora? Você está trabalhando com papel ou no digital? Quais foram os seus critérios para a escolha dos materiais que está usando nesse projeto?

Dora e a gata foi totalmente feito em aquarela, e Isolamento é 100% digital, feito no Photoshop. Essa mudança se deu um pouco por sorte: eu recebi, de uma marca chinesa chamada Huion, um display para desenho digital que me permitiu finalmente desenhar direto na tela (Huion Kamvas 12 pro). Uma das minhas birras com desenho digital é que a maioria dos tablets é como se fosse um mouse, você desenha nele mas olha para a tela do computador, o que me atrapalha muito. Então poder desenhar olhando para a tela foi uma grande melhora e uma porta de entrada para o desenho digital. E isso mudou minha relação com o tempo de trabalho: agilizou tudo. Cortou a necessidade de escanear e tratar meus desenhos, o que leva horas, e permitiu que eu criasse, por exemplo, o layout da HQ Isolamento, e me focasse apenas nos personagens, sem precisar voltar a desenhar todas as janelas a cada nova página, algo que eu precisaria fazer se trabalhasse em aquarela. Também me deixou mais livre para experimentar, porque, afinal, aquarela é uma mídia caríssima, e o digital te permite erros infinitos sem custos adicionais. Então, essa mudança de mídia foi mais por comodidade, economia e praticidade do que estética. Mas tem sido bem divertido também. Menos pressão, acho!

“Produzir esta HQ, prestando atenção ao mundo que me cerca, me colocou em contato com esperanças de várias formas”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

E me fala um pouco sobre a sua rotina de produção, por favor? Você tem algum hábito em particular em relação a horários, ambientes e contextos preferidos para a produção de Isolamento?

Tenho organizado minha rotina de uma forma cada vez mais certinha pra estruturar um pouco esses dias da marmota. Então, começo o dia com uma caminhada numa praça aqui perto, onde sento e tomo um solzinho por uns minutos. Organizo a cabeça pros trabalhos do dia. Aí, volto, tomo banho, me alongo, trabalho um pouquinho em esboços e coisas assim para trampos mais urgentes, almoço, e daí sento para desenhar Isolamento, geralmente com trilhas sonoras de musicais. Quando acontece alguma coisa específica – recorde de mortos, vacina aprovada pela Anvisa -, eu inverto, porque a urgência é maior, e desenho logo a página de Isolamento. Nas páginas em si, a coisa é bem mecânica: uso um mesmo arquivo do Photoshop com as partes do layout (portas, janelas, grades das varandas) separadas em camadas, e já tenho uma paleta definida. Eu faço o traço, depois a cor e a sombra, e por último adiciono os balões, exporto o arquivo e é isso – leva aí umas 3h para finalizar cada episódio. Às vezes, paro, tomo um café olhando pela janela, à espera de alguma fofoca nova que eu possa usar. Trabalho até por volta das 20h, depois faço uma yoga, jogo um pouco algum game, leio ou vejo uma série e tento dormir. E é basicamente isso. Agora, durante o Catarse, tenho feito lives semanais finalizando as páginas, mostrando algumas das partes do processo e trocando ideia com os seguidores, tem sido bem bacana.

Gêneros literários acabam sendo meio bestas, sendo estabelecidos principalmente para ajudar na escolha das prateleiras de livrarias, mas fico curioso: você tem um gênero definido para Isolamento? Pergunto isso porque fico com a impressão de que cada varanda parece estar contando uma história de um gênero distinto.

Nossa, essa é uma leitura bem bacana – cada janela é um gênero. Posso usar na sinopse? rsrs

Mas, falando sério, eu não pensei muito em gênero. Gosto de misturar gêneros: num dia uma janela está triste, no outro, está alegre; há algum romance rolando entre varandas que, semanas depois, passam a brigar; o prédio inteiro um dia está comemorando a noite de São João e, no outro, entediado… Eu acho que a vida é um pouco isso, essa mistura de gêneros. Mas provavelmente uma livraria me colocaria em “ficção realista” ou algo assim (ignoremos o cachorro falante na última varanda abaixo, rs).

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Você é bastante ativa nas redes sociais e tá publicando Isolamento via Twitter e Instagram. Quando conversamos sobre a produção de Dora e a Gata você falou que não se deixava influenciar pelo retorno dos seus leitores enquanto desenvolvia a história. Você segue assim com Isolamento? O retorno que você tem dos seus leitores já impactou de alguma forma o desenvolvimento desse trabalho atual?

Eu não gosto de ceder às pressões das pessoas porque detesto a sensação de que sou um braço desenhando o que outros me pedem. Acho bacana quando as pessoas gostam, ou quando eu já tinha planejado algo e as pessoas, por coincidência, pedem aquilo, mas gostaria de fazer coisas um pouco menos esperadas, menos confortáveis. Nem acho que consiga na maior parte das vezes, mas gosto de tentar. Com Dora, eu tentava resistir a essa pressão e muitas vezes era julgada por isso, e o resultado, às vezes, eram personagens um pouco mais rasos e engessados, como o vilão da história, Caio, o namorado abusivo sem nenhum lado “bom”; presos entre o que eu queria fazer e as expectativas que eu não queria seguir. Em Isolamento, recebi muitos pedidos e observei muitas frustrações. Em especial porque, como o conceito da HQ é “você está observando o prédio à frente”, muitas informações ficam de fora: se um personagem se muda do prédio, nunca mais saberemos o que houve com ele, por exemplo. E as pessoas ficam bravas com isso! Pra contar uma história engraçada: uma das janelas na primeira temporada tinha um casal, e um dos namorados, que era médico, pegou COVID. Eventualmente, ele para de aparecer; o outro namorado fica triste e, então, vemos uma placa de “aluga-se” na varanda. Fui bastante xingada por ter “matado” o personagem, até vieram me dizer que eu estava “alimentando estereótipos de relacionamentos homossexuais tristes”, mas eu respondia que nós não sabemos o que aconteceu com eles de verdade. Só podemos supor! E eu tenho gostado dessa “justificativa” para poder quebrar expectativas dos leitores: são pessoas “reais”, eu não tenho controle sobre elas, lide com suas expectativas. O resultado são personagens um pouco mais ricos, como o velho bolsonarista que também quer se reconectar com a filha, a blogueira cancelada que começa a se autoconhecer, a menina que conversa com seu cachorro (ou consigo mesma?), um casal de pessoas com visões políticas opostas, mas que de algum jeito ainda se amam…

Quando te entrevistei pela primeira vez, em julho de 2019, você disse que se considerava otimista apesar de Bolsonaro e tudo mais que já estava por aí… Quase dois anos depois, Bolsonaro + pandemia + tudo muito pior: você mantém o seu otimismo em relação ao nosso futuro?

Eu estava otimista, né? Hahaha! Bom, não vou mentir, a minha esperança está bem pequenina nos últimos meses. De Dora para cá, vi um lado das pessoas que eu jamais imaginava que fosse tão forte: um lado egoísta, de “eu primeiro”, de se aglomerar enquanto morrem 3 mil, 4 mil pessoas por dia. Mas, ao mesmo tempo, produzir esta HQ, prestando atenção ao mundo que me cerca, me colocou em contato com esperanças de várias formas. Uma festa de São João isolada, com uma “quadrilha vertical”, aconteceu de verdade em um prédio próximo ao meu. Vejo amigos criando esquemas de cozinhas comunitárias para pessoas que passam fome. Observo colegas e pessoas que admiro organizadas politicamente, lutando por direitos que vão desde o auxílio emergencial até as vacinas. E, claro, o fato da minha campanha de Catarse estar sendo bem sucedida me mostra que as pessoas têm fé em mim e nas pessoas que desenho. Tudo isso me dá, se não otimismo, algum ânimo para encarar o que vem por aí.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu estou lendo e jogando duas narrativas muito interessantes. A leitura é uma trilogia divertidíssima chamada The Locked Tomb, de Tamsyn Muir, sobre necromantes espaciais, e tem sido ótima para me tirar deste mundo maluco em que estamos. É tipo uma mistura entre Blade Runner e algo como Game of Thrones, mas mais gótico e bem pastelão, como se a autora não ligasse muito para a minha opinião. E o jogo, que eu vejo muito como narrativa também, é Disco Elysium, em que você é um policial alcoólatra que acorda com amnésia e precisa solucionar um assassinato. Ao mesmo tempo, você vai (re)descobrindo o mundo ao seu redor, em ruínas após uma revolução, mas bonito em sua decadência. O mundo fala com você através das coisas – você troca ideia com sua gravata, com sua empatia, com as pessoas. Eu também tenho ouvido muito o musical Cats, a versão de 1983. Por algum motivo eu adoro essa peça estranhíssima – talvez seja porque ela é tão insana que faz a realidade parecer mais tolerável -, e muitas das páginas de Isolamento foram finalizadas ao som de Memory.

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)
HQ / Matérias

Sarjeta #19: Helô D’Angelo fala sobre a série Isolamento

Está no ar a 19ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Entrevistei a quadrinista Helô D’Angelo sobre Isolamento, obra que ela está publicando nas contas dela no Twitter e no Instagram sobre a rotina de moradores de um prédio em meio à pandemia do novo coronavírus. Escrevi sobre o projeto iniciado por ela no início de 2020, as inspirações por trás da HQ e a campanha de financiamento coletivo em curso para a publicação de uma versão impressa do quadrinho (prevista para setembro).

Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com a quadrinista Jéssica Groke, autora de Me Leve Quando Sair, Babilônia, Piracema (coleção da Tabu) e co-organizadora da coletânea 11:11 – também atualmente em campanha de financiamento coletivo no Catarse.

Você lê a 19ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #19: Isolamento: Helô D’Angelo apresenta microcosmo melancólico e bem-humorado do Brasil durante a pandemia.

Entrevistas / HQ

Papo com Batista, autor de O que Conto Quando Conto uma Piada: “O bom cartum é análogo à boa poesia”

O cartunista Batista queria que sua primeira coletânea de tiras e charges formasse um discurso. A intenção dele era que O que Conto Quando Conto uma Piada fosse um “livro de cartuns para quem não lê cartuns”. Coube ao quadrinista Diego Gerlach ajudá-lo na seleção dos trabalhos que entraram no livro e ao também quadrinista Stêvz conceber o projeto gráfico da obra.

“Ele montou o livro de uma forma que me parece um caderno de artista, o que gosto, porque acho que vira um pequeno tratado, e não uma sequência de piadas”, me diz o autor quando pergunto sobre o filtro editoral do livro que está às vésperas de seu lançamento e sobre o desenvolvimento da obra – primeiro título da editora Atrapalho, criada pelo próprio autor.

Já as tiras que ocupam as 192 páginas da publicação estão alguns dos melhores exemplares do “estilo Batista”, com piadas que vão do infame ao chocante.

Um dos criadores e editores da revista A Zica e colaborador de projetos como Wunder Toy Comics 1: Tiger Fist Action, PARAFUSO 1 e Novo Amanhecer, Batista já havia publicado títulos próprios, mas em tiragens menores e jeitão de zine – como Cutucando a Onça Com Vara Longa e Do Alto da Minha Sabedoria. O que Conto Quando Conto uma Piada tende a ser a melhor via de acesso para os trabalhos do autor, necessários em tempos de conservadorismo crescente.

Bati um papo com Batista sobre esse sua primeira coletânea, que apresenta prefácios de Diego Gerlach e Cynthia Bonacossa. Ele me falou sobre suas preferências em relação a humor, expôs algumas de suas inspirações e refletiu sobre o impacto da realidade sócio-econômica-pandêmica do país em seus trabalhos. Papo massa, saca:

“O trauma da pandemia é tão profundo que estou idiotizado”

Charge de Batista publicada em O que Conto Quando Conto uma Piada (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Eu estou muito bem obrigado. Alcancei a alienação suprema, e a pandemia não me incomoda mais. Eu tinha salário, banda, planos para o futuro… Em um ano tudo isso foi para a berlinda, e segurei bem a onda até o fim de dezembro, quando comecei a chorar todos os dias ao sair e voltar para casa. Passei janeiro e fevereiro em casa, meio na cama, sem perspectiva, sem trabalhar, sem esperança. Em março parece que completei meu luto e voltei a trabalhar, e praticamente ignoro o mal-estar da pandemia. Acho que o trauma é tão profundo que estou idiotizado.

Cara, você tem seus conjuntos e produz seus quadrinhos. Como você se define profissionalmente? Músico-quadrinista? Quadrinista-músico? Aliás, você vê muitos paralelos entre as suas duas áreas de atuação?

Eu não me defino profissionalmente. Eu sou o que precisar ser dependendo da necessidade. Sou empresário, editor, livreiro, roteirista, músico e cartunista. Acho que o que une tudo o que faço é a poesia. Não escrevo poemas faz anos, mas sinto que continuo produzindo através dessas atividades. Nada disso é separado. Tudo envolve pessoas e expressão. Escutar e dizer. Se machucar e machucar os outros. Ser feliz e fazer os outros felizes. Tudo envolve grana. 

“Eu lia Mad quando criança e curtia o escracho, a paródia”

Páginas de O que Conto Quando Conto uma Piada, livro do quadrinista Batista (Divulgação)

Quando começa seu interesse por quadrinhos? E quando você começa a querer fazer quadrinhos?

Eu lia Mad quando criança e curtia o escracho, a paródia. Mas o que me desperta para quadrinhos é uma série em que Pedro e Otto (os namorados da Aline) vão para o exército e rolam mil piadas gays com eles. Foi quando vi algo poderoso ser dito através de quadrinhos. Depois eu li o Preto no Branco que mudou minha vida. E quando conheci os meninos da Quase, fazer quadrinho deixou de ser algo distante. A partir daí convivi também com edições da Tarja Preta e da F., e então passei a criar tiras e cartuns de forma involuntária, de repente pipocavam ideias na minha cabeça. Então passei a querer fazer quadrinhos.

O que você mais gosta em uma piada? O que te faz rir? Que tipo de humor você gosta?

Para mim o bom cartum é análogo à boa poesia. Gosto da transcendência, da fuga para o belo, para o riso libertador, para a suspensão da tragédia. Gosto de rir do que não é engraçado, por que a engenhosidade de tirar graça da tragédia, da luta que é viver, apazigua algo muito forte em mim. Gosto do que me faz rir, não tenho um tipo de humor.

“Entendi que eu desenhava bem pra burro, só que do meu jeito”

Charge de Batista publicada em O que Conto Quando Conto uma Piada (Divulgação)

A Cynthia Bonacossa chama atenção no prefácio do seu livro para a sua capacidade de síntese. E acho que capacidade de síntese é um dos principais atributos de uma boa charge. É difícil para você chegar em uma sinteticidade que te satisfaça?

Não, geralmente a ideia vem sintética e me satisfaz. De um tempo pra cá tem acontecido dela só passar por mim, eu nem me sinto dono, só veículo. Mas claro, muitas precisam ser buriladas, olhadas por mais lados, e adoro o trabalho de acertar as coisas para fazer uma boa piada. 

Ainda sobre essa sua capacidade de síntese, eu acho que ela se faz presente tanto nas suas piadas quanto no seu traço. Como é a sua dinâmica entre texto e desenho? Você pensa as duas coisas ao mesmo tempo? Uma costuma vir antes da outra?

Tudo que faço parte do texto. Daí vou resolver como desenhar para o texto ter um bom suporte. Minhas primeiras experiências com esse humor que faço foi criando os textos e tendo quem desenhasse. Mas descobri que ter um desenhista não é uma realidade, e tive que aprender a desenhar na marra. Lutei anos com o desenho, até que descobri num livro da Linda Barry e num papo com a Cynthia que minha relação com o desenho era equivocada. Eu tirei da cabeça que não sabia desenhar e entendi que eu desenhava bem pra burro, só que do meu jeito. Percebo hoje que meu desenho amadureceu e é expressivo. Mas no contexto do que faço, na maior parte das vezes o lance é o texto, o desenho tem função meramente ilustrativa. 

“O mais difícil no momento é ter como principal meio de publicação as redes sociais”

E o que você acha mais difícil na produção de humor em quadrinhos? Tem algum aspecto da produção de uma tira ou um cartum que costuma ser mais desafiador para você?

Pra mim o mais difícil no momento é ter como principal meio de publicação as redes sociais, que são doentias. Receita de bolo, golpe de estado, trezentos mil mortos e piada sobre boquete são lidas na mesma toada. Daí fica difícil ter o trabalho lido de forma mais crítica. Estou trabalhando com assinaturas no apoia.se, e a relação com quem lê é outra, mais rica. O barato do livro é colocar o trabalho nessa forma mais calma e – creio – mais contundente que em seu meio original de publicação.

É tentador perguntar de onde surgem as suas ideias, mas imagino que elas venham de todos os lugares. Das suas leituras, dos seus convívios, da sua rotina… Enfim, a minha curiosidade maior é: você testa as suas piadas antes de transformar em desenho? Você tem algum filtro ou critério pessoal para saber se uma ideia tende a funcionar ou não?

Não testo minhas ideias, mas acho que funcionam porque eu rio ou então acho bonito. Confio na minha reflexão sobre os assuntos que abordo. Tem umas coisas que você já prevê que funciona, como falar da agenda social do momento. Funciona. Já apontar certo ridículo em algo que todos defendem, xiii, pode não funcionar… 

“Queria que essa coleção de trabalhos formasse um discurso”

Charge de Batista publicada em O que Conto Quando Conto uma Piada (Divulgação)

Você já teve outros trabalhos impressos, zines e tiras e cartuns em coletâneas, mas O que Conto Quando Conto uma Piada é o seu primeiro livro para valer, né? Como foi a produção dessa publicação? Quais foram os critério para as tiras que entraram?

Esse livro começa com a produção executiva do Luiz Navarro, parceiro da Zica e produtor de cinema, que viabilizou o recurso via Lei Aldi Blanc. A partir daí eu sabia que eu não queria fazer nada relativo à seleção de trabalhos e projeto gráfico. Então reuni mais 600 cartuns e quadrinhos e enviei para o Diego Gerlach, que fez as seleções do material. A escolha de trabalhar com o Gerla acontece por eu considerar ele um crítico do meu trabalho, então eu gostaria do olhar dele nessa seleção.

Escolhidos os trabalhos, o projeto gráfico ficou por conta do Stêvz, que sempre me impressionou com as edições da Bongolê Bongorô, Beleléu e Chupa Manga Zine. Eu disse para ele que não queria um display de cartuns, uma página branca com um desenho e só. Queria que essa coleção de trabalhos formasse um discurso. Um livro de cartuns pra quem não lê cartuns. Assim ele montou o livro de uma forma que me parece um caderno de artista, o que gosto porque acho que o livro vira um pequeno tratado, e não uma sequência de piadas.

E como foi para você a experiência de rever e reler todos esses trabalhos impressos no livro? O quanto você acha que o seu trabalho mudou ao longo dos seus anos como quadrinista?

A minha primeira impressão em rever tudo foi um assombro com a quantidade. A minha segunda impressão foi um mal-estar em ver a primeira versão montada, achei pesado, bad vibe. Precisei que Gerla e Stêvz dissessem que era impressão minha. Com o trabalho organizado no livro, tenho uma visão mais clara do que faço e do que quero fazer. Ver o trabalho realizado me deixou satisfeito, percebi o quando sou mais fluente no desenho e no pensamento. E também me anima ver que cada vez mais consigo encontrar a graça das coisas, que é o que sempre me interessou nesses anos.  

“Me desanima desenhar política, prefiro comportamento”

Charge de Batista publicada em O que Conto Quando Conto uma Piada (Divulgação)

Você também tem investido em publicações mais longas nos últimos anos (como a parceria com Cynthia B no Mau #24 e o gibi Máquina de Lavar, publicado pelo selo Vibe Tronxa Comix) e em parcerias em que fica responsável apenas pelo texto (como a série Pedro & Luiz, com o Rafael Coutinho). É muito diferente o modo-Batista-das-tiras-e-cartuns dessas suas empreitadas trabalhando com outros autores e pensando em obras mais longas? São experiências de leitura distintas, mas são experiências de produção e inspiração muito diferentes para você?

O modus operandi é diferente, mas a inspiração vem do mesmo lugar. A diferença principal é que posso estender o que quero falar. Num cartum ou história curta eu solto a bomba de uma vez. Numa história maior, com outra pessoa desenhando e me dando liberdade para me alongar, falo com mais calma dos meus assuntos. O grande atrativo de trabalhar com alguém é escrever pensando no desenho de outra pessoa. Isso me faz melhorar a forma como escrevo. Trabalhei por exemplo com Gabriel Góes, PM OZ, Adriano Rampazzo, Cynthia Bonacossa e no momento trabalho com Joana Afonso, e em todas essas ocasiões escrevo com mais alegria, porque estou trabalhando com uma pessoa que é admiro.   

Também não quero entrar numa discussão sobre OS LIMITES DO HUMOR, mas tem algum tema que você não gosta, que você acha que não rende para você ou que te desanimar produzir a partir dele?

Não penso nos limites do humor, penso na potência do humor, e na sua engenharia fantástica. As coisas da vida são grandes, são difíceis de lidar, e conseguir fotografar elas com uma couve do dente é meu barato. Me desanima desenhar política, prefiro comportamento. Mas faço de tudo. 

“Tinha me proposto a não falar de pandemia, hoje consigo fazer um pequeno volume do que desenhei sobre o tema”

E cara, como o estado das coisas como estão, a merda toda que estamos vivendo, tem influenciado e impactado o seu trabalho? O quanto que essa nossa realidade interfere na sua criação, mesmo que seja te impulsionando a não produzir sobre um tema quente?

Essa nova realidade interferiu mais do que eu supus no início. Eu tinha me proposto a não falar de pandemia, hoje consigo fazer um pequeno volume do que desenhei sobre o tema. Eu morri por dentro durante alguns meses, antes disso eu batalhei com esperança, eu tive medo de morrer, eu me indigno com o governo. Então se o cartum é minha válvula de escape para o que acho indizível, tudo que fiz está chafurdado na pandemia.  

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Minhas quatro últimas grandes experiências que recomendo são: jogar The Last of Us Parte II; redescobrir a discografia dos Paralamas e ouvir diariamente; ler o novo gibi do Pablo Carranza, o PODRÃO ANIQUILAÇÃO, e ver a terceira revolução no trabalho dele, que sou fã; e reassistir o programa Melhor do Que Falecer, no YouTube, do Ricardo Araújo Pereira, que acho um barato total, classudo.

A capa de O que Conto Quando Conto uma Piada, livro do quadrinista Batista (Divulgação)