Vitralizado

HQ

Sobre a remuneração de profissionais para a mediação de eventos de histórias em quadrinhos

O mercado brasileiro de histórias em quadrinhos jamais será profissionalizado enquanto profissionais contratados para a mediação de mesas, bate-papos e painéis não forem devidamente remunerados. Por mais óbvio e lógico que seja esse raciocínio, são cada vez mais comuns os convites que recebo para trabalhar de graça em eventos públicos ou privados, com patrocinadores e, ocasionalmente, com cobrança de ingressos caros e fins lucrativos.

Não me importo em mediar de graça eventos envolvendo artistas e publicações independentes. Faço mediações do tipo constantemente e continuarei a fazer sempre que estiver com a agenda livre, o local seja de fácil acesso e as obras a serem debatidas sejam do meu interesse. No entanto, considero ofensivos convites do tipo partindo de eventos com suporte – seja público ou privado – que não envolvam nenhum tipo de remuneração. 

Recebi dois convites do tipo recentemente partindo de organizadores de convenções de cultura pop de grande porte que me deram como justificativas: 1) “não dispomos de recurso de cachê” e 2) “gastamos tudo para conseguir trazer os convidados”. Desculpas amadoras e inaceitáveis. São eventos que cobram ingressos caros, ostentam seus convidados nacionais e internacionais e cobram de seus expositores.

Não dispõe de recurso de cachê? Pois deveria dispor. Gastou tudo para trazer seus convidados? Pois deveria ter administrado melhor. Repito: desculpas amadoras e inaceitáveis.

Nos sete anos do Vitralizado já imprimi uma coleção composta por 21 postais assinados por ilustradores, designers e quadrinistas, e todos foram remunerados. Não faço mais do que a obrigação de alguém que encomendou um serviço a outra pessoa, mas lembro que o blog é uma empreitada independente e sem fins lucrativos que, ainda assim, jamais deixou de pagar a um colaborador. Não faz sentido que um evento de grande porte com artistas internacionais e cobrança de ingressos não aja da mesma forma. 

Na maior parte das vezes, convites para mediações não remuneradas partem de empresas que se aproveitam de uma cena criativa para promover suas marcas às custas de um trabalho profissional, seja ele artístico ou jornalístico – no meu caso. Não se trata de “paixão pelos quadrinhos”, justificativa canalha e ingênua. É exploração mesmo.

Exploração inclusive que fomenta de forma deliberada esse amadorismo conveniente aos interesses dessas empresas. A infantilização crescente nos debates relacionados às histórias em quadrinhos no Brasil (sobre a qual falei na coluna que publiquei semana passada no site do Itaú Cultural) passa pelo uso de mão de obra não gabaritada para conduzir discussões e pelo escanteio de profissionais com formação, estudo e currículo para tratar desses temas em mesas, debates e bate-papos. Sem massa crítica, resta apenas massa de manobra, colecionismo, ostentação e consumismo.

Aguardo os próximos convites.

(na imagem que abre o texto, arte do Basil Wolverton tirada lá do sensacional The Bristol Board)

HQ

Chris Ware e Chip Kidd conversam sobre HQs, design e Rusty Brown. Ouça!

Outro dia recomendei por aqui a entrevista da Lynda Berry para a jornalista Debbie Millman no podcast Design Matters. Aí que o episódio dessa semana do mesmo programa é uma conversa envolvendo a apresentadora, o quadrinista Chris Ware e o designer Chipp Kidd. O papo é sobre HQs, design e Rusty Brown – novo trabalho do autor de Jimmy Corrigan, com lançamento prometido para 2020 no Brasil.

Recomendo o episódio sem ainda ter conseguido ouví-lo até o fim, mas não tem erro em já passar a dica procês. É o maior quadrinista do Ocidente e o responsável pelo acabamento de suas publicações. O Chris Ware é gênio e o Chipp Kidd meio gênio, então é quase uma hora de conversa com 1,5 gênio. Enfim, ouça logo ou faça como eu e guarde o link aí pra escutar logo mais. Aqui ó.

Ah, lembrando que já recomendei outro podcast ótimo que já contou com a presença do Chris Ware recentemente, o Virtual Memories Show do jornalista Gil Roth. Papo dos bons também.

(na arte que abre o post, página de Rusty Brown divulgada pela revista New Yorker)

Entrevistas / HQ

Papo com Naoki Urasawa, autor de Pluto, Monster e 20th Century Boys: “Acabo sendo desenvolvido pela minha própria obra”

Entrevistei o quadrinista japonês Naoki Urasawa sobre a versão brasileira da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, em cartaz na Japan House de São Paulo até o dia 5 de janeiro de 2020. Escrevi aqui pro blog uma matéria na qual falo sobre a mostra e também sobre a vida e a carreira do autor de obras como Pluto, 20th Century Boys e Monster. Você lê esse texto clicando aqui.

Na minha entrevista com o autor ele comenta sobre a curadoria da exposição na Japan House, fala sobre técnicas e influências, exalta o trabalho de Osamu Tezuka e trata um pouco de sua paixão por música – citando inclusive uma canção brasileira.

Recomendo uma ida à exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa e também a leitura dos trabalhos de Urasawa, dos meus quadrinistas favoritos no momento. Agora deixo vocês com a versão completa da minha entrevista com o autor. Papo bão, saca só:

(Na imagem que abre o post, ilustração do quadrinista Naoki Urasawa exposta na mostra Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa. Crédito: Divulgação)

“O mangá é uma paixão para mim”

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

Qual a memória mais antiga da presença de mangás na sua vida?

O Astro Boy (o volume que continha o episódio O Maior Robô da Terra), Jungle Taitei (volume depois da metade da história). Na época que eu tinha quatro ou cinco anos, me deram esses dois livros e eu fiquei lendo repetidas vezes.

O senhor pode falar um pouco sobre a origem da exposição Isto é Mangá? Como ela teve início? Qual o seu envolvimento com ela?

O projeto foi realizado por ter sido selecionado como exposição itinerante nas três sedes da Japan House (São Paulo, Los Angeles e Londres), iniciativas do Ministério das Relações Exteriores do Japão.

Quanto à exposição, eu produzi todos os assuntos envolvidos nela, desde o conceito da exposição até a criação do espaço expositivo. O mangá é uma paixão para mim, e por isso pensei na melhor forma de se expor a essência do mangá, que para mim é pela experiência de se ler um capítulo inteiro.

“Quando trabalho com uma obra, sempre me pergunto se ela possui universalidade”

Arte original do mangá Yawara!, assinada pelo quadrinista Naoki Urasawa e exposta na mostra Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa

O que o senhor vê de mais interessante na linguagem dos mangás? O que mais te interessa fazer e ler em termos de mangás?

Tem muita coisa interessante no mangá, então é impossível dizer apenas com uma palavra. Histórias maravilhosas, falas que mexem o coração e o mais importante, a originalidade dos desenhos de cada um dos mangakás. 

Acho que o que faz fisgar a coração dos leitores são as emoções vívidas dos personagens que são expressadas, e que por sua vez, expressam a paixão dos mangakás.

Os mangás chegaram com força ao mercado editorial brasileiro nos anos 90. Até então, havia um predomínio dos comics norte-americanos e de obras europeias. Qual você vê como o elemento mais distinto dos mangás em relação às outras formas de quadrinhos ao redor do mundo?

Acredito que a grande diferença entre o mangá e os quadrinhos como B.D e comics americanos seja a quantidade de quadros. Eu acho que o mangá usa vários quadros e páginas em uma cena em que o B.D ou comic americano fariam com apenas um desenho.

Penso que isso transmite com mais profundidade, e de forma mais detalhada, o impacto e a alteração das emoções.

“Tento trabalhar com materiais relativamente comuns e fáceis de achar”

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

Aqui no Brasil já foram lançados três dos seus mangás: Pluto, Monster e 20th Century Boys. Você costuma ter algum ponto de partida em comum para o desenvolvimento do seus trabalhos? O que te inspira?

Meu ponto de partida é a ideia geral da obra, que surge repentinamente, de forma abstrata.

A partir daí, eu pego a ideia geral, que pode ser algo como ‘uma pessoa flutuando no espaço’, e vou amadurecendo ela por um período, entendendo se ela cabe em diferentes realidades e se o tema é universal, inserindo personagens que ganham vida e personalidade própria dentro da minha cabeça, deixando com que eles ajam livremente. E quando esses elementos se transformam em uma certeza, começa o trabalho.

E sobre as suas técnicas: quais materiais você gosta de usar? Você tem algum método preferido de produção? Alguma rotina de trabalho que gosta de seguir?

Eu desenho o name (esboço do esboço, é algo como a planta inicial do mangá) em papel sulfite. 

Não uso o caderno porque preciso rasgar a página quando acho que que errei. Se for papel sulfite, posso jogá-lo logo no lixo.

Fora isso, tento trabalhar com materiais relativamente comuns e fáceis de achar. Usar algo muito raro pode acabar gerando dependência e o medo de que um dia possa ficar indisponível.

“Durante o lançamento do mangá, eu sempre trabalho presumindo o último capítulo da obra”

Quadros do mangá Pluto, HQ do mangaká Naoki Urasawa publicada no Brasil pela editora Panini Comics

Aliás, você pode falar um pouco sobre o seu ambiente de trabalho?

Ultimamente tenho trabalhado com name em cafeterias. Na minha casa tenho muitas coisas do meu hobby (discos, livros, DVD, etc.) e acabo me desconcentrando. Na cafeteria não levo nenhum livro que gosto e proíbo o uso de SNS (social network service). Me concentro apenas no name.

Eu desenho no ateliê e antes trabalhava no mesmo quarto onde trabalhavam os assistentes. Atualmente, peço para os assistentes trabalharem em casa. Quanto ao andamento, confiro e oriento por meio de imagens enviadas por Line.

20th Century Boys é uma série longa, que me marcou muito pelos cliffhangers presentes ao final de cada edição. Como é desenvolver e planejar um projeto longo como esse? O quanto a história já estava finalizada quando você começou a desenvolvê-la?

Durante o lançamento do mangá, eu sempre trabalho presumindo o último capítulo da obra já naquele momento. Em hipótese alguma desenho sem pensar no final.

Quando começo a trabalhar em uma obra, penso, por exemplo: essa série vai ter uns 20 volumes, a duração da série deve ser de uns 5 anos. Penso o volume da obra e nesse momento, na minha cabeça, já tenho a imagem da última cena. Porém, há casos em que depois de passar 5 anos desenhando, a história acabou ficando bastante diferente ao que era previsto. Isso acontece porque um drama gera outro drama, os personagens são desenvolvidos ao longo do tempo e principalmente eu, que sou o autor, acabo sendo desenvolvido pela minha própria obra.

“Acredito que seja muito difícil que o mundo vá em uma boa direção”

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado e exposto em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu trabalho é lido e interpretado em uma realidade tão distinta da sua?

Quando trabalho com uma obra, sempre me pergunto se ela possui universalidade. E a universalidade pode ter vários caráteres, como temporal e regional. Por isso, o fato das minhas obras serem lidas em vários países é como uma prova de que o que eu exijo de mim estava certo, e fico muito feliz com isso. 

Pluto e 20th Century Boys são obras distópicas, ambientadas em uma realidade futuristas nas quais a humanidade passou por grandes guerras e traumas. O mundo vive hoje momentos políticos muito conturbados. A atual realidade político-social do mundo te assusta? Você acha que existe a possibilidade de estarmos caminhando para cenários semelhantes às suas histórias distópicas?

Infelizmente, acredito que seja muito difícil que o mundo vá em uma boa direção. Acho que o mangá pode ter tanto a função de alertar a sociedade quanto um oferecer um lazer para as pessoas que vivem o duro cotidiano. Além disso é uma cultura de fácil entendimento como a música rock, por isso, penso também que seria muito bom se o mangá se tornar uma ponte que liga as pessoas do mundo inteiro.

“O Osamu Tezuka deixou muitas obras fantásticas, mas para mim, a mais importante é Hi no Tori”

O símbolo do personagem Amigo, vilão do mangá 20th Century Boys, obra do quadrinista Naoki Urasawa publicada no Brasil pela Panini Comics

Você tem um interesse grande por música. O que você está ouvindo hoje? Você tem algum conhecimento de música brasileira?

Eu sempre ouço músicas de vários tipos.

Eu sou amante de disco de vinil e fico muito feliz que ultimamente a cultura de vinil tenha voltado. Outro dia, quando estive na loja de discos usados, comprei o Asa Branca, do Quinteto Violado. Lendo a apresentação do disco, descobri o que a palavra ASA significa em português, e a minha mais recente obra ASA DORA é sobre uma menina chamada ASA que é piloto de avião. Fiquei muito emocionado por ter encontrado esse disco, é como um destino.

Você tem alguma obra – seja livro, filme ou mangá – recente que tenha consumido e poderia recomendar?

Tenho muitos livros e filmes que gostaria de recomendar, por isso, é difícil citar só um. Se for filme, eu recomendo o Fargo dos irmãos Coen. A série Fargo que foi inspirada pelo filme é maravilhosa demais e também recomendo para todo mundo.

Apesar do trabalho de Osamu Tezuka ser bastante conhecido no Brasil, algumas publicações mais longas e adultas dele estão saindo em português pela primeira vez, como Ayako. O que você vê de mais especial no trabalho do Osamu Tezuka? Qual obra dele você considera mais importante e indispensável?

Aos 13 anos de idade, descobri a obra Hi no Tori, de Osamu Tezuka e fiquei chocado com a grandiosidade, a estruturação livre e a profundidade do drama humano. O Osamu Tezuka deixou muitas obras fantásticas, mas para mim, a mais importante é Hi no Tori.

O quadrinista Naoki Urasawa em registro feito na versão inglesa da exposição Isto é Mangá, com um dos originais também presente na mostra brasileira. Crédito: Jeremie-Souteyrat
HQ / Matérias

Especial Vitralizado: Naoki Urasawa fala sobre mangás, emoções, música e a exposição Isto é Mangá

O quadrinista japonês Naoki Urasawa está ocupado. Aos 59 anos e atualmente o maior nome da indústria japonesa de histórias em quadrinhos, lá chamadas de mangás, ele já vendeu mais de 128 milhões de exemplares apenas em seu país natal e segue produzindo em ritmo frenético. No momento, seu principal foco de atenção está no pôster que foi convidado a produzir para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020 pelo comitê organizador do evento.

O prestígio atual de Naoki Urasawa como autor de quadrinhos no Japão só não é equiparável ao de seu ídolo-mor, Osamu Tezuka (1928-1989), criador do clássico Astro Boy e conhecido por muitos como o Deus dos Mangás. Por isso a agenda atribulada do artista e seu impedimento de vir à versão brasileira da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, mas ele garante: as artes, os cenários e tudo relacionado à mostra são de sua autoria.

“Eu produzi todos os assuntos envolvidos nela, desde o conceito da exposição até a criação do espaço expositivo”, diz Urasawa em entrevista ao Vitralizado sobre a mostra, em cartaz na Japan House de São Paulo até o dia 5 de janeiro de 2020 após passar por Los Angeles e Londres.

A exposição sobre a vida e a obra de Urasawa, que conta com mais de 600 ilustrações originais assinadas por ele, chega ao Brasil simultaneamente ao anúncio do retorno às bancas de dois dos três únicos trabalhos do autor publicados no Brasil: o policial Monster e a ficção científica Pluto. O primeiro, publicado originalmente no Japão entre 1994 e 2001, retorna em edição de luxo, narrando a história de um cirurgião que investiga os crimes cometidos por um ex-paciente. O segundo, lançado entre 2003 e 2008, em apenas oito volumes, é um releitura de O Maior Robô da Terra, arco de histórias de Astro Boy, publicado entre 1952 e 1968.

(Na imagem que abre a matéria, arte original do mangá 20th Century Boys, assinada pelo quadrinista Naoki Urasawa e exposta na mostra Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa. Crédito: Divulgação)

Finais definidos

Foto da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

A visita a Isto é Mangá – A arte de Naoki Urasawa é uma experiência imersiva na carreira do autor. A mostra apresenta desenhos, rascunho e originais de capítulos inteiros de Pluto, Monster, 20th Century Boys – sua terceira obra publicada no Brasil – e também de outras publicações ainda inéditas em português. Estão por lá fascículos completos de obras como Yawara! (1985-1993), seu primeiro trabalho solo, Master Keaton ReMaster (1988-1944), Billy Bat (2008-2016) e Mujirushi (2017-2018). O contato com esses originais é revelador sobre as técnicas do autor.

“Eu desenho o esboço do esboço em papel sulfite. Não uso o caderno porque preciso rasgar a página quando acho que que errei. Se for papel sulfite, posso jogá-lo logo no lixo”, conta o artista. “Fora isso, tento trabalhar com materiais relativamente comuns e fáceis de achar. Usar algo muito raro pode acabar gerando dependência e o medo de que um dia possa ficar indisponível”.

Urasawa também diz ter um padrão em relação ao desenvolvimento de seus trabalhos, tendo sempre definido o final da obra antes de começá-la a desenhar.

“Há casos em que depois de passar cinco anos desenhando, a história acabou ficando bastante diferente do que era previsto. Isso acontece porque um drama gera outro drama, os personagens são desenvolvidos ao longo do tempo e principalmente eu, que sou o autor, acabo sendo desenvolvido pela minha própria obra”, diz.

Número de requadros

O quadrinista Naoki Urasawa em registro feito na versão inglesa da exposição Isto é Mangá, com um dos originais também presentes na mostra brasileira. Crédito: Jeremie-Souteyrat

Para os não habituados à leitura de mangás, o autor pede atenção especial à forma como ele faz uso dos quadros em suas páginas. Na avaliação dele, as HQs japonesas tendem a apresentar um número muito maior de quadros do que as norte-americanas ou europeias e isso acaba tendo efeito direto nas tramas. 

“Acredito que a grande diferença entre o mangá e os quadrinhos europeus e os comics americanos seja a quantidade de quadros. Eu acho que o mangá usa vários quadros e páginas em uma cena que uma banda desenhada ou um comic fariam com apenas um desenho”, analisa. “Penso que isso transmite com mais profundidade, e de forma mais detalhada, o impacto e a alteração das emoções”.

Mas Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa não se limita às reflexões mais recentes de Urasawa acerca da linguagem dos quadrinhos. A exposição apresenta inclusive as primeiras experiências do autor com HQs, com reproduções de cadernos inteiros preenchidos por ele durante a infância e adolescência, suas primeiras experiências com quadrinhos. O autor diz que esses experimentos iniciais foram fruto de seu contato com duas das obras mais famosas de Tezuka quando tinha apenas cinco anos, Astro Boy e Kimba, O Leão Branco.

Já adulto, por Monster, ele venceu o Grande Prêmio Mangá do 3º Prêmio Cultural Osamu Tezuka, entregue pela Tezuka Productions Co. Ltd., corporação responsável por administrar o legado e o licenciamento de qualquer conteúdo relacionado às obras de Tezuka. Em 2002, os agentes de Urasawa procuraram os representantes da empresa propondo a releitura do arco de Astro Boy sobre um assassino serial de robôs. Pluto saiu em 2003, ano no qual o protagonista da série foi criado no mangá de Tezuka.

Pelo projeto, Urasawa levou o Prêmio Intergerações do Festival de Histórias em Quadrinhos de Angoulême, na França, o mais tradicional evento de quadrinhos da Europa. Posteriormente, ele ainda recebeu dois  Eisners Awards, prêmio máximo da indústria norte-americana de HQs, em 2011 e 2013 na categoria Melhor Edição de Material Asiático nos EUA, pela edições locais de 20th Century Boys. 

Asa Branca

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

Sobre aquilo que vê de mais interessante na linguagem dos mangás, Urasawa afirma: “Histórias maravilhosas, falas que mexem o coração e o mais importante, a originalidade dos desenhos de cada um dos mangakás [quadrinistas]. Acho que o que faz fisgar o coração dos leitores são as emoções vívidas dos personagens que são expressadas, e que por sua vez, expressam a paixão dos mangakás”. 

Urasawa ainda vê uma relação entre os quadrinhos e outra de suas paixões, a música. Em suas raras aparições públicas, há registros dele cantando composições próprias e de outros artistas. O protagonista de 20th Century Boys é inclusive um músico fracassado que busca salvar o planeta dos planos apocalípticos de um vilão por meio de sua música.

“É uma cultura de fácil entendimento como o rock, por isso, penso também que seria muito bom se o mangá se tornar uma ponte que liga as pessoas do mundo inteiro”, diz o autor.

Interessado por canções das mais diversas origens, o quadrinista diz ter comprado recentemente um disco do conjunto recifense Quinteto Violado. Urasawa conta ter ficado especialmente impressionado com a versão do grupo para a clássica Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. 

Lendo a apresentação do disco, descobri o que a palavra ‘asa’ significa em português, e a minha mais recente obra ‘Asa Dora’ é sobre uma menina chamada Asa que é piloto de avião. Fiquei muito emocionado por ter encontrado esse disco, é como um destino”, afirma. 

A versão do grupo recifense Quinteto Violado para a clássica Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa
-Até 5 de janeiro de 2020, na Japan House (Avenida Paulista, 52, São Paulo);
-Entrada gratuita;
-Terça-feira a sábado, das 10h às 20h;
-Domingos e Feriados, das 10h às 18h.

Arte original do mangá Monster, assinada pelo quadrinista Naoki Urasawa e exposta na mostra Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa
Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #85 – 10.2019

E chega ao fim o mês de aniversário do Vitralizado. Os 7 anos do blog foram celebrados com estilo: teve postal novo, estreia de coluna, sete entrevistas, alguns anúncios inesperados e um monte de conteúdo exclusivo que você só encontra por aqui.

Aliás, se você tá chegando agora, vale uma explicação: na minha cabeça o Vitralizado é uma revista mensal e sempre dou início às atividades de cada mês com o sumário listando o que rolou de mais interessante no mês anterior. Então saca só que beleza que foi esse outubro de 2019:

(a arte que abre o post é assinada pelo quadrinista norte-americano Daniel Clowes e foi tirada lá do sempre sensacional The Bristol Board)

*Você leu o editorial de 7 anos do Vitralizado? No mesmo post eu compartilhei a arte do postal comemorativo de aniversário do blog, assinada pela ilustradora e designer Giovanna Cianelli. Depois publiquei por aqui um papo com ela sobre a produção desse trabalho e um pouco mais sobre suas técnicas e influências;

*Está no ar a primeira edição da Sarjeta, coluna sobre histórias em quadrinhos que assinarei mensalmente no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê o meu texto clicando no link a seguir: Sarjeta #1 – A vanguarda dos quadrinhos nacionais está fora do radar do grande público;

*Notícia boa: o álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, do quadrinista Jão (e com a minha participação como editor), será financiado pelo edital do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Leia mais clicando aqui;

*Publiquei aqui no blog uma entrevista da jornalista Carolina de Assis com a quadrinista inglesa Una, autora do álbum Desconstruindo Una. Papo obrigatório;

*Escrevi para o jornal Estado de Minas sobre Reconexão, mais novo trabalho do quadrinista Lelis. Você lê a íntegra da minha entrevista com o autor por aqui;

*Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem é um dos grandes lançamentos de 2019, reunindo as primeiras histórias em quadrinhos de Diego Gerlach. Bati um papo com o autor sobre a concepção e o conteúdo dessa coletânea publicada pelo selo Pé-de-Cabra;

*Em outubro também teve aniversário da Itiban Comic Shop, de Curitiba. Noticiei o cartaz comemorativo dos 30 anos da loja, assinado por Marcello Quintanilha, e publiquei uma entrevista com sócia-proprietária da Itiban, a empresária Mitie Taketani;

*Bati um papo com o quadrinista Kainã Lacerda sobre a exposição reunindo 32 originais dele na 9ª Arte Galeria, em São Paulo;

*Conversei com Luiz Navarro, um dos editores da revista Zica, sobre a primeira edição da Feira Canastra, em Belo Horizonte;

*Um convite: estarei a hoje (1/11), a partir das 19h, na loja Monstra, aqui em São Paulo, para mediar um bate-papo com as quadrinistas Amanda Miranda e Paula Puiupo. Vamos?

*Quatro rapidinhas: compartilhei a entrevista do Chris Ware pro podcast  The Virtual Memories Show e a entrevista da Lynda Berry pro podcast Design Matters; reuni aqui os cartazes de Charles Burns, Catherine Meurisse e Rumiko Takahashi pro Festival de Angoulême de 2020; e publiquei o making-of de um trabalho do Tom Gauld pra New Yorker.

>> Veja o que rolou no Vitralizado #84 – 09.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #83 – 08.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #82 – 07.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #81 – 06.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #80 – 05.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #79 – 04.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #78 – 03.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #77 – 02.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #76 – 01.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #75 – 12.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #74 – 11.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #73 – 10.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #72 – 09.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #71 – 08.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #70 – 07.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #69 – 06.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #68 – 05.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #67 – 04.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #66 – 03.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #65 – 02.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #64 – 01.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #63 – 12.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #62 – 11.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #61 – 10.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #60 – 09.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #53 – 02.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #52 – 01.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #51 – 12.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #50 – 11.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #49 – 10.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016.

Entrevistas / HQ

Papo com Lelis, autor de Reconexão: “No meu dia a dia vejo como o uso excessivo da tecnologia e a vivência do mundo virtual têm afetado as pessoas. Indistintamente da idade que têm”

Entrevistei o quadrinista Lelis sobre o álbum Reconexão, HQ de 48 páginas recém-publicada pela Abacatte Editorial. Esse papo virou matéria no caderno Pensar do jornal Estado Minas, publicada na sexta-feira da semana passada (25/10) e disponível para leitura clicando aqui.

Reconexão tem como foco a presença crescente de tecnologias digitais na rotina das pessoas. O quadrinho tem início com a mãe do jovem Luiz pedindo para que o filho largue o celular e vá jogar bola com os amigos que o aguardam no campinho de terra em frente à sua casa. O garoto esquece dos colegas, investe no joguinho em seu aparelho e é transportado para uma realidade paralela habitada por robôs que patrulham o local contra a presença das crianças perdidas que acabam por lá. O menino precisa descobrir como fugir dessa cilada virtual.

Recomendo a leitura da minha matéria sobre a obra e depois a entrevista a seguir. Nela Lelis fala sobre o ponto de partida de Reconexão, trata de suas técnicas e materiais de trabalho, comenta sobre a relação dele com tecnologias digitais e adianta um pouco de seu próximo trabalho com o roteirista francês Antoine Ozanam – seu parceiro em Goela Negra. Saca só:

Quadro de Reconexão, álbum do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Houve algum ponto de partida específico, algum momento de inspiração em particular, para o início da construção desse quadrinho? 

A história desse álbum é bem curiosa. Um dia marquei um encontro com uma editora aqui de Minas para apresentar um projeto de livro de imagens. O livro trata de questões universais: luto, perdas, ganhos. Enfim, coisas da vida. Montei o PDF com algumas imagens finalizadas e outras em esboço. Sentamos para falar sobre ele enquanto ela via as imagens. No segundo momento, ela me disse que gostaria de fazer o Lobato em quadrinhos e tal. Aí eu fiquei pensando enquanto ela falava. Pensei muito no Lobato, de como vivíamos quando crianças, porque o Lobato me remete a isso. Saí da editora sem uma resposta sobre meu livro de imagens nem tão pouco confirmando que iria adaptar as histórias do Sítio para os quadrinhos. Cheguei em casa e numa sentada escrevi Reconexão. Acho que ouvindo a editora e pensando na minha infância e o tanto de coisas que fazíamos ao ar livre, comparadas às coisas que as crianças e o adolescentes fazem hoje, acho tudo isso me inspirou a escrever o livro.   

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Reconexão?

Uma técnica super simples e das mais baratas. Desenho com grafite 2B sobre um papel reciclado, tipo sulfite, aquele de cor creme, e que é super barato. Depois digitalizo a imagem e faço a colorização no photoshop. Só que a paleta de cores e o jeito de pintar em aquarela são tão fortes em mim que até os franceses às vezes se confundem pensando ser um aquarela realmente.

“Acho que nunca entrei naqueles debates sem fim sobre coisas que nunca resolveremos em uma rede social”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Quando você pensa um quadrinho como Reconexão, você costuma ter um público específico em mente? Você produz levando em conta se uma obra é para crianças ou adultos? 

Acho que o Reconexão pensei num primeiro momento em fazer para os jovens. Mas, claro, há um mea culta ali. Por isso é para todas as idades. No meu dia a dia vejo como o uso excessivo da tecnologia e a vivência no mundo virtual têm afetado as pessoas. Indistintamente da idade que tem. 

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com tecnologias. Como são os seus hábitos de uso de celular, tablets e afins?

Realmente demorei um pouco a ter um celular tipo smartphone. Mas, depois de algum tempo, e por questões profissionais e também por se mais um instrumento de comunicação com a família, aderi. Tenho um bom computador lap top, que ligo em um monitor maior para fazer os quadrinhos, digitalizar as aquarelas e também para filmar e editar pequenos filmes. Essas máquinas, para artistas gráficos precisam ser boas. Mas paro por aí. Não sou de ficar horas em uma rede social por exemplo. Acho que nunca entrei naqueles debates sem fim sobre coisas que nunca resolveremos em uma rede social. No smartphone sim, sempre olho o wattsapp mas evito compartilhar o que me chega. Participo de 2 grupos e mesmo assim no modo silencioso. Vejo muitas notícias nos portais. Mas o que eu gosto mesmo é de filmes e de futebol. Acho que das tecnologias, essa é que me prende mais. Mas vejo quase que exclusivamente pela TV.

“Para projetos de quadrinhos muito pessoais, quando eu sou o roteirista também e que posso gerenciar meus prazos, prefiro usar aquarela”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Aliás, na maior parte das vezes você faz uso de técnicas de ilustração e pintura manuais. Como é a sua relação com técnicas digitais de ilustração?

Ultimamente tenho usado a técnica de colorização digital para os quadrinhos. Principalmente para o mercado francês. Acho que, das artes, é uma expressão das mais complexas que existem. Imagine só, construir todo um cenário que tem que se repetir por todas essas páginas, dar vida a um sem número de personagens que precisam estar coerentes fisicamente durante toda a sequência do livro, me ater aos prazos curtíssimos da produção do livro e ainda cuidar de minha carreira como ilustrador e escritor de livros infantis. Por isso tudo, tenho optado pelo digital. Sem contar que o material que uso é de primeira linha: papel, pigmentos e pincéis profissionais. Ainda não pagam o suficiente para isso. Agora, para projetos de quadrinhos muito pessoais, quando eu sou o roteirista também e que posso gerenciar meus prazos, aí prefiro usar aquarela mesmo. 

Ver alguma presença de tecnologia em Reconexão me fez notar como tecnologias e modernidades estão pouco presentes ou completamente ausentes de seus trabalhos prévios. Como você chegou na estética desse universo paralelo tecnológico retratado no quadrinho?

Pois é. Foi um desafio. A primeira coisa que me ocorreu é que eu teria que criar um cenário formado por placas de computador, fusíveis (acho que nem usam isso mais), conectores, essas pecinhas todas. Então eu fui pesquisar. Salvei um monte de fotos de placas, de componentes e também pesquisei alguns nomes dessas peças para ficar no contexto. O resto foi só imaginação mesmo. Fui montando tudo, buscando coerência. Por exemplo: sempre ouvimos falar sobre lixo tecnológico. Então imaginei que esse lixo deveria estar depositado no fundo do mar que é um dos lugares mais puros da terra e também um dos mais sensíveis aos agentes poluentes. 

“Esperança está na raiz do que eu acredito”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

O final de Reconexão me soou ligeiramente sombrio, de certa forma coerente com a realidade pouco esperançosa em que estamos vivendo. Como você vê o mundo hoje?

Ramon, sou um Cristão Protestante. Esperança está na raiz do que eu acredito. Obvio que os embates do dia a dia nos fazem amolecer às vezes. Há tantas desigualdades, tantas injustiças que por vezes até essa esperança titubeia. Mas a questão é, e é assim que acredito, que somos falhos. Temos a natureza caída e precisamos sempre lutar contra essa queda. Às vezes esperamos atitudes altruístas das outras pessoas mas se examinarmos a nós mesmos, não somos assim naturalmente. Precisamos nos esforçar muito para agirmos assim. Então, se eu sei que naturalmente eu não sou assim, fica mais fácil fazer diferente, algo inusitado, contra a minha natureza. É uma espécie de vitória. 

Você é otimista?

Sim, claro. Tem um negócio que é o muito certo. Sempre, principalmente aqui no Brasil, precisamos de um super-herói que vai nos salvar dos nossos males. E depositamos todas as nossas fichas nesse ídolo. Mas, se cada um de nós começasse a cuidar da sua rua, do seu bairro, do seu vizinho, da sua cidade, talvez, com o tempo, nem precisássemos mais da figura do político como está instituída. Todos nós seríamos um, no melhor sentido da palavra. 

Você tem esperanças por melhorias?

Só individuais, que repercutirão no coletivo. Nada desse negócio de cima pra baixo.  

“Estou cercado de miséria, de amor, de ódio, de desavenças, de perdão, de riqueza, de arrogância, de medo, de coragem, de saúde, de doença. Tudo isso é mote para histórias”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Como as suas impressões em relação à nossa realidade impactam os seus trabalhos?

Estou cercado de miséria, de amor, de ódio, de desavenças, de perdão, de riqueza, de arrogância, de medo, de coragem, de saúde, de doença. Tudo isso é mote para histórias. Em 2001 escrevi um livro chamado Saino a Percurá. Uma das histórias se chama Mudernidades. Nela, o vaqueiro Jovino de Tião Ferrêra acha uma TV e fica tão fascinado com ela que se esconde de todo mundo dentro de um poço. Para ele, aquela realidade era tão mais interessante que sua vida real que acaba morrendo lá mesmo, no poço, grudado na TV. Acho que essa é a mesma história de Reconexão. Só a tecnologia dos dias de hoje ficou mais avançada e mais viciante.

Como leitor e autor, o que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Eu gosto do Cris Ware mas ele me deixa tonto. 

Há algum plano de lançamento de Popeye no Brasil? 

Que eu saiba não.

O que você pode adiantar sobre o seu próximo projeto com o Antoine Ozanam?

Ah, é uma história pessoal do Antoine. Ele ainda vai me enviar a sinopse completa, só fiz as primeiras 10 pranchas. Só sei que é profundamente francesa, com relatos bem pessoais se rementendo a um lugar e personagens bem específicos. Ou seja, terei que me tornar um francês para fazer esse novo álbum. Nem se for um francês caipira.

A capa de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial