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HQ / Matérias

Papo com Érico Assis, autor de Balões de Pensamento: “Gosto mais de como se conta a história do que da história em si”

Escrevi na 18ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre Balões de Pensamento – Textos para Pensar Quadrinhos, primeiro livro do jornalista/ tradutor/ pesquisador Érico Assis. A obra recém-publicada pela Balão Editorial reúne os primeiros três anos de produções do autor para sua coluna no Blog da Companhia das Letras, no ar desde 2010. Ressalto no meu texto alguns dos muitos méritos do livro e explico porque considero a produção de seu autor como o principal registro da história recente do mercado brasileiro de HQs. Você lê a Sarjeta #18 clicando aqui.

Aproveitei o lançamento de Balões de Lançamento para entrevistar Érico Assis sobre o livro. Ele me contou sobre suas rotinas de leituras e trabalhos em tempos de pandemia, falou sobre as mudanças de seus gostos em relação a HQs ao longo dos últimos anos, justificou sua preferência por obras longas e apresentou sua avaliação sobre a crítica de quadrinhos feita no Brasil, entre outras coisas. Papo bem massa, saca só:

“Como eu já fiz 176 colunas, tem material para uns três livros”

Tenho perguntado para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Eu trabalho somente em casa há uns cinco anos, e minha esposa também. Então a gente só se compadeceu de todo mundo se adaptando ao romófice. É isso mesmo: o expediente nunca acaba e a louça aumenta.

Por outro lado, nossa filha está há um ano em aulas online e nosso filho que já devia ter entrado no colégio não entrou. Esse é o nosso perrengue. O que é o nosso principal perrengue.

Também é um perrengue-privilégio: não somos de grupos de risco, não convivemos com ninguém em grupo de risco e, até onde sei, ninguém da família próxima teve problema sério com o vírus. Agradeço pela sorte, torço que isso acabe de uma vez. #VacinemOsProfessores.

Lá no início, nos primeiros dois, três meses de pandemia, houve uma apreensão muito forte no mercado editorial e isso teve um baque nos meus trabalhos. Atrasou o Balões, inclusive, pois a editora não queria lançar num período em que as pessoas estavam com medo de morrer ou de ficar sem dinheiro ou as duas coisas. Mas isso se inverteu em seguida, felizmente. A prova é que o Balões saiu. E eu traduzi mais em 2020 do que em 2019, o ano de “crise do mercado editorial”.

E agora sobre o livro: quando você começou a pensar no Balões de Pensamento? Quando a coluna entrou no ar, você tinha em mente a possibilidade de um dia, mesmo que num futuro distante, ela poderia render um livro?

Assim que entrou no ar, não. Mas depois de alguns anos, com dezenas de colunas no ar, pensei que sim e outras pessoas me sugeriram que eu podia reunir em livro. As colunas tinham sido pensadas como textos mais ou menos perenes sobre quadrinhos. Algumas são datadas, mas estão longe de serem hard news. Mais motivo para caber num livro. Como eu já fiz 176 colunas no Blog da Companhia, tem material para uns três livros. E ainda quero reunir outros textos, como resenhas, prefácios, artigos pro Omelete…

Como foi a sua experiência de reler os seus textos? Não sei como funciona para você, mas eu releio tantas vezes antes de entregar meus trabalhos para os editores que tenho certa dificuldade para reler quando eles são publicados.

Tenho dificuldade para reler, com certeza. Todos eles foram lidos e relidos várias vezes antes da publicação original. Lendo dez anos depois, dá vontade de reescrever. Mexi em algumas coisas na revisão para o livro, mas, mesmo que não goste do estilo de alguns, mantive o básico.

Aliás, como foi a seleção dos textos que entraram no livro? Você optou pelo recorte 2010-2013, apresentando os primeiros anos da coluna, mas você chegou a cogitar algum outro filtro?

Eu reli os 50 ou 60 textos iniciais da coluna e decidi que não ia reaproveitar uns dois ou três. Esse foi o filtro. Depois, em vez de seguir apenas a ordem cronológica, distribui os textos por categorias: Autores, Resenhas, Leitores, Traduzi e Mercado. Mas isso é só uma questão de organização, não sei se dá para chamar de filtro.

“Meus horários são definidos pelos filhos, então, nas horas que eu posso sentar e trabalhar, eu sento e trabalho”

Artes de Gabriel Dantas e Samanta Flôor para Balões de Pensamento, livro de Érico Assis

Gostei muito do formato do livro e vi mais gente elogiando esse jeitão pocket dele por aí. Você pode contar um pouco sobre a opção por esse formato e falar também sobre o projeto gráfico do livro?

Resumindo: sou casado com uma designer. A Marcela tem vários livros no currículo, como diagramadora, como ilustradora e como letreirista. Ela só me pediu um livro de referência e eu peguei um semi-pocket da Penguin – de Everything Bad is Good for You, do Steven Johnson – porque acho fofo. Tudo mais foi dela.

Eu levei em consideração que os textos já haviam sido publicados na internet, então a apresentação deles num formato físico tinha que ter alguma diferença. As ilustrações inéditas foram a primeira diferença, e a mais importante. O projeto gráfico tinha que ser legal, convidativo pra leitura na mão, ficar bonitinho na estante. Eu curto a página pequena com texto grande e a sensação de virar páginas rápido.

Como foi a sua dinâmica com os artistas que ilustraram o livro? Você passou alguma pauta específica para cada um?

A pauta era a seguinte: escolher cinco dos textos e, para cada um, criar uma ilustração que citasse um trecho do texto dentro de um balão. Podia ser um personagem falando, um objeto falando, qualquer coisa falando. Teve alguns textos disputados, mas foi fácil resolver a distribuição. Eles me mandaram esboços, eu aprovei, aí me entregaram as versões finais.

Tive uma grande sorte aí: as cinco primeiras pessoas que eu convidei toparam.

Você consegue mensurar quanto tempo do seu dia você passa em função de quadrinhos? Aliás, você pode contar um pouco sobre a sua rotina de leituras? Você tem uma rotina? Você tem horários definidos para as leituras a trabalho e as leituras à paisana?
 
Olha, só não é todo meu tempo de trabalho porque eu traduzo livros que não são de quadrinhos. Apesar de eu traduzir bem mais HQ do que prosa em números – ano passado traduzi seis livros de prosa e uns 60 quadrinhos –, o tempo que eu dedico a tradução de HQ e tradução de prosa é meio a meio. Prosa costuma demorar bem mais.

Meu trabalho que não é tradução, como as colunas pro Blog da Companhia e pro Omelete, o Notas dos Tradutores, as resenhas esporádicas, projetos como o Catálogo HQ Brasil… tudo tem a ver com quadrinho.

Quanto a leitura, tanto para trabalho (geralmente resenha) quanto para lazer, a rotina é basicamente só essa: leio nos sábados. Já teve época em que eu acordava bem cedo para ficar uma hora lendo, e lia vários pedacinhos: 20 páginas de um livro, 20 páginas de outro, 20 de outro… Era bom pra vencer livros grandes. Mas pandemia bagunçou tudo.

Você tem algum hábito quando senta para escrever? Digo, você tem algum contexto, ambiente ou horário no qual costuma escrever seus textos? Você tem algum hábito ou alguma prática quando começa a escrever?

Meus horários são definidos pelos filhos, então, nas horas que eu posso sentar e trabalhar, eu sento e trabalho. Não tem mandinga nenhuma, porque eu não tenho tempo pra mandinga. Costumo trabalhar em horário comercial porque fecha (ou fechava) com os horários de colégio da filha, escrevo e traduzo melhor de manhã porque o mundo faz mais silêncio, a tarde é cheia de distrações e tem sempre alguma catástrofe mundial ou uma pessoa errada no Twitter, noite é com os filhos e madrugada – a hora em que muitos tradutores que eu conheço gostam de trabalhar – eu durmo. Obs.: Não tomo café.

E o quanto esses hábitos de leitura mudaram de 2010, quando a coluna começou a ser publicada, até os dias de hoje?

Eu sinceramente não sei se leio mais ou menos do que há dez anos. Há dez anos eu não tinha filhos, mas tinha emprego fixo (professor). Há dez anos eu comprava todo lançamento estrangeiro que achava importante, hoje o dólar não deixa. Há dez anos não existia essa quantidade de editoras publicando catataus, hoje tem Veneta, Pipoca & Nanquim, Figura, Comix Zone, Nemo, Darkside etc. – e elas me mandam tudo.

Uma coisa que eu acho que mudou é que antes eu era muito seleto na minha pilha de leitura, fazia planos do que ler, em que ordem etc. Aprendi que eu tenho que pegar o que tiver à mão e ler de uma vez. Acho que a pilha desce mais rápido assim. E embora não seja pra ler HQ, ter um Kindle carregado e levar ele pra todo lado me ajuda a ler bastante prosa.

Gibis de super-herói foram minha formação e ainda leio alguns no digital. Talvez aí eu tenha cortado mais minhas leituras, ficado mais seletivo.

Além disso, não coleciono quase nada. Não compro revistas mensais, nem TPBs. Mas isso tem mais de dez anos.

“Entendo crítica como você sugerir uma forma de ler a HQ e justificar”

Arte de André Valente para Balões de Pensamento, livro de Érico Assis

Ainda em comparação com 2010, você vê muitas diferenças nos seus gostos e nas suas percepções sobre quadrinhos de lá para cá? Tem algo que hoje te interessa mais em uma obra ou um autor que você não dava tanta atenção há 10 anos?

Eu espero que tenha mudado, mas não consigo me ver de fora e avaliar se eu mudei. Tem autores que não existiam pra mim há dez anos. Minha preferida dos últimos tempos, a Eleanor Davis, é um caso.

Não sei se eu devia confessar isso em entrevista, mas tem muita HQ que eu vejo ganhando destaque e elogios hoje em dia, e eu não consigo gostar. Acho que essa é definição de velho.

E em relação à forma como você escreve, você acha que ela mudou muito?

Espero que sim, mas isso é coisa para algum crítico dizer. O que você acha?

[Se mudou, mudou para melhor, Érico]

Tenho curiosidade com a sua relação com as publicações com as quais você colabora. Quais são as principais diferenças, por exemplo, entre pensar um texto para a Folha e o Omelete? São muito distintos os seus sentimentos quando você publica um texto, outro exemplo, na Quatro Cinco Um e no blog da Companhia?

Quanto ao público da Quatro Cinco Um, da Folha e do Blog da Companhia, não diferencio. Entendo que é um leitor ou uma leitora que curte sua Elena Ferrante, mas às vezes se sente atrevidinho(a) e pega um livro com desenhos. Estou ali para colaborar com essa ousadia e dizer a essa pessoa que tá tudo bem, ela não precisa se achar infantil porque gostou da Jillian Tamaki. Pelo contrário.

O público do Omelete é outro. Se eu falar “com grandes poderes…”, não preciso concluir a frase. Mas eu me bato um pouco com a ideia de quem é o público do Omelete… Tem a leitora gamer de 13 anos que caiu na minha coluna por acaso e não vai se sentir bem-vinda. E tem os velhões pançudos de 40, como eu, que vão se sentir ofendidos se eu explicar que “…vêm grandes responsabilidades”.

Não sei se eu devia agradar esses dois lados do espectro. Nem sei se esse espectro existe. Também não sei se gamers de 13 anos ainda leem português.

“A pressa de conseguir pauta, gerar clique, gerar like institucionaliza a preguiça da apuração”

Artes de Wagner Willian e Ing Lee para Balões de Pensamento, livro de Érico Assis

O que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Eu sei que é a resposta mais vaga possível, mas eu gosto do que eu não sei explicar por que eu gosto. Além disso, sou o cara que gosta mais de como se conta a história do que da história em si. Sou péssimo pra falar de trama, de furos no roteiro. Lembro muito de cenas, de páginas, de quadros.

Dos últimos quadrinhos que me deixaram arrebatado – Aquele Verão, Oleg, A Infância de Alan, Hurt/Fuck, só pra citar alguns –, se eu explicar a trama, nenhum vai parecer interessante. Mas todas elas têm um jeito de contar a história ou alguns pontinhos que fazem o todo ser grande. É isso que eu procuro.

O que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos feitas no Brasil?

Num dos textos que eu escrevi pro Blog da Companhia, em 2014, sugeri que o quadrinho brasileiro devia apostar em obras com mais páginas: 200, 300, 400 páginas ou mais. Não é uma regra, mas obras dessa bitola costumam ter mais espaço de respiro, mais exploração gráfica, mais tranquilidade para contar a história.

Sei que é complicado o autor ou autora do Brasil ficar anos em cima de um trabalho desse tamanho, ainda mais sem os adiantamentos e outras financiamentos que existem em países com indústria de HQ. Comentei esses poréns na época, inclusive levei umas críticas. Mas aí vieram Dois Irmãos (230), Bulldogma (320 páginas), Angola Janga (430)…

Eu defendo que a HQ tende a ter ganhos com o tamanho. Ou com mais quadriculação, como os europeus costumam fazer: grids de quatro ou cinco faixas por páginas, em vez dos dois ou três dos americanos. A última Graphic MSP do Jeremias, por mais que não seja maior que a anterior em número de páginas, é mais quadriculada, tem mais “conteúdo” que a primeira – e aproveitou esse espaço pra montar uma estrutura melhor, contou mais história.

Acho que o que me interessa é isso: obras grandes.

Entre as suas muitas atividades relacionadas a quadrinhos estão jornalismo e crítica. Qual balanço você faz do jornalismo sobre quadrinhos e da crítica sobre quadrinhos praticados hoje no Brasil?

Tem poucos espaços onde você é pago para fazer jornalismo sobre quadrinhos e crítica de quadrinhos (eu e você ocupamos pelo menos metade. 😉 ) Ser pago não implica ser melhor, mas torna o trabalho mais profissional. O compromisso é diferente. Eu queria que houvesse mais espaços pra escrever sobre quadrinhos que pudessem cobrar esse compromisso (pago) do profissional.

Eu entendo crítica como você sugerir uma forma de ler o quadrinho e justificar. Fazer o leitor da crítica enxergar pelos teus olhos, mesmo que não concorde com a crítica. Isso eu vejo muito pouco. “Vale a leitura”, nota de um a cinco, estrelinhas etc. não me ajudam.

Tenho ranço quando comentam tipo de papel e acabamento gráfico do quadrinho, mesmo sabendo que isso importa (pra mim, inclusive) – acho que tira espaço de contar tua perspectiva sobre história, narrativa, encantamento, por que aquilo vai fazer diferença na tua vida ou não.

Voltando à questão de ser pago, é claro que existe o espaço dos canais de YouTube que encontram alternativas para se financiar. Mas, devido à velhice avançada e recalcada, não curto o formato e não acompanho nenhum com regularidade. Quando as pautas são essa discussão circular sobre os preços da Panini ou “quem vamos cancelar hoje”, tenho menos vontade de acompanhar. Mas sei que lá no fundo, em alguns minutos por vídeo, se produz algo de crítica interessante. Não tenho paciência de procurar.

Tem uma coisa que me incomoda pra caramba no jornalismo e na crítica de HQ: reclamar sem ler tudo. Falam da capa machista, do balão mal traduzido, do gibi com tema “tão errado” que o crítico nem vai ler. Qualquer coisa funciona dentro de um contexto e a pessoa que se dispõe a criticar tem que conhecer esse contexto antes de atacar uma capa, um balão ou um tema.

A polêmica da semana passada, por exemplo, sobre a “tradução racista” no Conan: não vi nenhum crítico ou jornalista dizer que leu a história inteira para apurar se tinha alguma justificativa para o Conan descaracterizado e racista da tradução. Se “analisou” e julgou todo o caso a partir de um tuíte, meia dúzia de imagens. Essa pressa de conseguir pauta, gerar clique, gerar like institucionaliza a preguiça da apuração.

(Favor incluir aqui desenho do Vovô Simpson gritando com as nuvens.)

Tá aqui a imagem do vovô Simpson gritando para as nuvens que o Érico pediu (nota do editor: no caso, o Érico tá certíssimo e a nuvem tá errada).

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Meus pais diziam que eu aprendi a ler “fim” porque “fim” estava escrito dentro de um martelinho do Thor na última página da história. Imagino que tenha sido por aí, com uns três ou quatro anos. Só fui ler os balões com uns seis.

Meus pais liam bastante, mas não quadrinhos. Por que me deram quadrinho desde muito cedo, eu nunca vou saber. 

Você tem um quadrinho preferido? Não necessariamente, aquele que você acha melhor, mas o quadrinho que você mais gosta.

Não sei se tem o quadrinho que eu mais gosto, mas tem vários com que eu tenho relação de afeto. Morte: o Preço da Vida, do Gaiman com o Chris Bachalo, me marcou muito quando eu tinha 15 anos (li antes de ler Sandman) e ainda bate quando eu releio. Desvendando os Quadrinhos, do Scott McCloud, definiu a universidade que eu fiz, minha carreira profissional, é uma inspiração gigante. Li muito, mas muito Homem-Aranha quando as fases clássicas dele, tanto dos anos 60 quanto dos 80, saíram aqui simultâneas e coincidiram com a minha infância, então tenho mais uma relação afetiva com o Peter Parker.

Todo ano, com sorte, encontro mais uma HQ que entra pras minhas preferidas da vida.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Fora dos quadrinhos, eu gosto muito de seriados. Os últimos que deixaram cenas grudadas na minha cabeça foram How to with John Wilson, Joe Pera Talks With You, Normal People e We Are Who We Are.

A capa de Balões de Pensamento, obra de Érico Assis publicada pela Balão Editorial
HQ / Matérias

Sarjeta #18: Balões de Pensamento, o primeiro livro de Érico Assis

Está no ar a 18ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Escrevi sobre Balões de Pensamento – Textos para Pensar Quadrinhos, primeiro livro do jornalista/ tradutor/ pesquisador Érico Assis, recém-publicado pela editora Balão Editorial. Ressalto no meu texto alguns dos muitos méritos da obra e explico porque considero a produção de seu autor como o principal registro da história recente do mercado brasileiro de HQs. Nas artes que abrem o post, ilustrações dos quadrinistas Wagner Willian e Ing Lee presentes na obra.

Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com a quadrinista Helena Cunha, autora do álbum independente Boa Sorte.

Você lê a 18ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #18: Érico Assis reflete sobre o presente, o passado e o futuro das HQs em seu primeiro livro.

HQ

– Prêmio Grampo 2021 de Grandes HQs – Dia 3/4, às 14h30, Vitralizado + Balbúrdia (+live no canal da Ugra Press!)

O Prêmio Grampo 2021 de Grandes HQs já tem data, hora e local para acontecer. Os vencedores da sexta edição do principal prêmio da crítica especializada em quadrinhos do Brasil serão anunciados no dia 3 de abril, sábado, às 14h30, em posts compartilhados nos blogs Vitralizado e Balbúrdia e no tumblr do prêmio. Além das obras vencedoras dos Grampos de Ouro, Prata e Bronze, no mesmo dia também serão apresentados os rankings individuais dos 20 jurados da edição de 2021 do prêmio. Na imagem acima você confere a identidade visual do Prêmio Grampo em 2021, criada pelo designer Jairo Rodrigues.

E uma novidade: além dos posts anunciando os vencedores do Grampo 2021, os três organizadores do prêmio (Lielson Zeni, Maria Clara Carneiro e Ramon Vitral) também participarão de uma live no dia 3 de abril, a partir das 15h, no canal da loja e editora Ugra Press no YouTube, com mediação do editor Douglas Utescher. A pauta da conversa será o resultado do Grampo 2021, um balanço do mercado nacional de quadrinhos em 2020 e as perspectivas para 2021.

O Prêmio Grampo surgiu em 2016 inspirado na saudosa votação de melhores do ano do blog Gibizada, do jornalista Télio Navega, no jornal O Globo. Assim como ele fazia, eu e os editores do Balbúrdia, Lielson Zeni e Maria Clara Carneiro, convidamos várias pessoas envolvidas de diferentes formas na cena brasileira de quadrinhos a produzirem rankings com aqueles que elas consideram os 10 melhores títulos publicados no país no ano anterior.

A ideia é que esse júri passe por mudanças pontuais a cada ano. Agendamos para o dia 31 de março (quarta-feira), às 12h, a revelação dos nomes dos jurados da edição de 2021 do Grampo (com quatro novidades!) em posts simultâneos no Balbúrdia e no Vitralizado.

Então é isso, tá feito o convite: dia 31 de março anunciaremos os jurados e dia 3 de abril será revelado o resultado final e os rankings individuais. Depois rola a live no canal da Ugra Press com a presença de Lielson Zeni, Maria Clara Carneiro e Ramon Vitral, com mediação de Douglas Utescher. Enquanto isso, diz aí: quais são as suas apostas para o Grampo 2021?

Lielson Zeni, Maria Clara Carneiro e Ramon Vitral

Entrevistas / HQ

Papo com Tom Scioli, autor de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos: “Todo o estilo narrativo das HQs de super-heróis ainda segue o modelo de Kirby”

Escrevi sobre Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos na 17ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Fiz o meu texto após entrevistar o quadrinista norte-americano Tom Scioli, autor da obra recém-publicada em português pela editora Conrad com tradução de Érico Assis. Você lê a minha matéria clicando aqui.

O álbum de Scioli me chamou atenção não apenas pela arte e pelo texto do autor, mas também por seu empenho em se contrapor à versão oficialista da história da indústria norte-americana de HQs, na qual Kirby se tornou um coadjuvante de Stan Lee e outros de seus contemporâneos. Trata-se, definitivamente, de um dos grandes lançamentos desse início de 2021.

Compartilho a seguir a íntegra da minha conversa com Tom Scioli. Ele me falou sobre as origens de seu livro, lembrou de suas memórias mais antigas ligadas a Kirby e listou os principais legados e as mais importantes contribuições para as HQs mundiais do autor apelidado de Rei dos Quadrinhos. Papo bem massa. Saca só:

“Você nunca vai confundir o trabalho dele com o de outra pessoa”

Quadros de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, de Tom Scioli (Divulgação)

Queria começar sabendo como estão as coisas por aí. Como você está encarando a pandemia do novo coronavírus? Ela afetou de alguma forma a sua rotina profissional?

Eu estou bem. Como vai você? Estou tomando todas as precauções recomendadas. Estou feliz que haja uma vacina. Isso teve um efeito contínuo na minha produtividade. Como muitas pessoas, isso está me fazendo questionar todos os aspectos da minha vida e descobrir um sentido mais claro do que é importante e do que não é.

E como você acha que essa realidade que estamos vivendo vai impactar o seu ambiente profissional? Você tem conversado sobre iso com outros autores e editores?

Muito desse trabalho é feito isoladamente, para começar. Eu sei que as vendas sofreram um golpe imenso. As conversas que tive com outras pessoas na indústria foram sobre como manter o foco e manter o moral elevado durante tudo isso.

Você pode me contar um pouco sobre a origem de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos? Você lembra de quando teve a ideia para esse livro?

Era algo que sempre quis ler, mas não existia, então tive que fazer. O Jack Kirby fez uma pequena história em quadrinhos autobiográfica chamada Street Code sobre uma briga de gangues que travou quando criança. Eu queria ler uma série inteira como essa, mas cobrindo toda a sua vida. Se existem centenas de edições do Capitão América e do Quarteto Fantástico, por que não centenas de edições da vida da pessoa que as criou?

“Senti o peso e a responsabilidade todos os dias em que trabalhei nisso”

Quadros de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, de Tom Scioli (Divulgação)

Você lembra do seu primeiro contato com um trabalho do Jack Kirby? Tem algum quadrinho dele que você considera o melhor que ele produziu?

Meu primeiro contato com o trabalho dele foi o desenho animado Thundarr, o Bárbaro. O primeiro quadrinho de Kirby que li foi provavelmente Thor Treasury com o enredo do Mangog. Acho seus trabalhos mais bem desenvolvidos e meus favoritos pessoalmente, são Novos Deuses, Povo da Eternidade e Senhor Milagre, coletivamente conhecidos como O Quarto Mundo. Eles também eram os favoritos de Kirby. Você poderia ter argumentos fortes para vários outros quadrinhos dele, mas essa é minha escolha. Se eu tivesse que limitar a um único gibi, diria Novos Deuses #7.

Se você tivesse escolher um elemento ou uma característica em particular do trabalho e do estilo do Jack Kirby que você considera seu atributo mais singular, o que seria?

Para mim, seriam as tecnologias do Kirby. A maneira como ele desenha tecnologia. É difícil identificar o que o torna distinto, mas você sabe quando vê e ninguém desenha como ele. Tem também a Kirby Squiggle [ondinhas de Kirby], o jeito rápido que ele tinha fazer reflexo, energia, sombreado, musculatura. Há também os Kirby Dots, mas que já foram imitados e assimilados infinitamente, mas ainda estão associados a Kirby.

Queria saber mais sobre seus métodos de trabalho. Você adotou alguma rotina específica e usou alguma técnica em particular durante o desenvolvimento desse livro?

Meu processo evoluiu com o tempo e ao longo da produção desse livro. A essência é a mesma, mas algumas particularidades mudaram. Eu escrevo uma sinopse com marcadores. Esboço as páginas em um formato aproximado e as reviso várias vezes. Depois de definir o layout, imprimo e traço o desenho final a lápis. Eu reviso tudo a cada passo do caminho. Aí coloro digitalmente.

“A fama de Stan Lee e a fama de Walt Disney foram conceitos cuidadosamente cultivados”

Quadros de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, de Tom Scioli (Divulgação)

Você precisou desenvolver toda uma estética para um livro não apenas sobre a vida de um dos quadrinistas mais importantes de todos os tempos, como também de um dos mais influentes e singulares em termos estéticos. Você se sentiu pressionado durante a produção desse livro?

Senti o peso e a responsabilidade todos os dias em que trabalhei nisso.

Fico curioso em relação aos seus sentimentos ao ver Jack Kirby: A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos sendo publicado no Brasil. Você fica curioso em relação à forma como esse livro será lido em um contexto tão diferente do seu?

Estamos vivendo cada vez mais em uma cultura global. Kirby é uma figura venerada dentro de um contexto cultural muito específico dos quadrinhos de super-heróis norte-americanos e todas as suas peculiaridades, mas presumo que a história de Kirby se espalhou por aí e que há alguma familiaridade. Se alguém não ouviu falar de Kirby, pelo menos ouviu falar do Hulk, dos Vingadores e dos X-Men. Estou curioso para ver a reação.

Os personagens e os títulos da Marvel e da DC são marcas milionárias, pertencentes a empresas gigantescas e que precisam dar lucro aos seus donos. Acredito que isso tenha impacto direto em autores que nem sempre conseguem expressar suas vozes e contar histórias originais quando trabalhando para essas empresas. Como você acha que o Jack Kirby conseguiu conciliar essa construção de uma voz própria, distinta e autoral em um ambiente tão restritivo criativamente?

Ele não conseguia não ser original. Mesmo nos momentos em que deliberadamente reteve suas melhores ideias, quando sentiu que não estava sendo tratado com justiça por seus empregadores, ele ainda continuou criando conceitos originais convincentes. As piores ideias de Kirby são melhores do que as melhores da maioria das pessoas. Ele era verdadeiramente original. Você nunca vai confundir o trabalho dele com o de outra pessoa.

“Todos os criadores que conheço pensam em Kirby quando estão fechando negócios e contratos”

Página de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, de Tom Scioli (Divulgação)

O quanto você acha que a indústria de quadrinhos dos Estados Unidos mudou desde o início da carreira do Jack Kirby? Qual você considera o maior legado dele para essa indústria?

O foco do negócio mudou. Há muito mais ênfase na narrativa mais ampla, ao invés das edições individuais dos quadrinhos. O Kirby iniciou essa tendência, mas está se tornando cada vez mais evidente. Há um percurso de respeito a direitos autorais estabelecido que não existia quando o Kirby estava trabalhando. Gil Kane e Wally Wood enfrentaram retaliações em suas tentativas de sair do sistema industrial de quadrinhos. Todo o estilo narrativo dos quadrinhos de super-heróis, por mais que tenha mudado de maneira superficial, ainda segue o modelo Kirby. A ênfase na figura humana em movimento, a ficção científica e os temas míticos, o foco na ação e na colisão, a novela sem fim, tudo isso tem o trabalho de Kirby como base.

O Jack Kirby foi muito influenciado pelas tiras de jornal que ele lia na infância. O espaço dessas tiras em jornais são cada vez menos, assim como as tiragens e as vendas dessas publicações? O que você acha que o meio dos quadrinhos perde com a diminuição desse espaço?

Acho que os webcomics preencheram muito bem a lacuna deixada pelas tiras de jornal. As tiras de jornal já estavam em declínio na época em que as lia. Calvin e Haroldo foram o último suspiro e estou grato por tê-lo testemunhado.

Qual é a importância que você vê na história do Jack Kirby para as mudanças relacionadas aos direitos autorais na indústria dos quadrinhos de super-heróis?

Todos os criadores que conheço pensam em Jack quando estão fechando negócios e contratos. Ele foi muito influente como exemplo do que pode dar errado, junto com [Jerry] Siegel e [Joe] Shuster [criadores do Super-Homem]. Ele falava muito sobre seus direitos como criador e de sua situação nos últimos dias de sua vida, e os pioneiros dos direitos dos criadores de quadrinhos, como [Kevin] Eastman e [Peter] Laird [criadores das Tartarugas Ninjas], eram fãs e conhecidos de Jack e o citam como inspiração.

“As barreiras entre os quadrinhos e as animações e os games se tornaram porosas”

Quadros de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, de Tom Scioli (Divulgação)

Você vê um futuro possível no qual o Jack Kirby será plenamente reconhecido por suas criações? Ou pelo menos tão reconhecido como o Stan Lee?

Ele tem reconhecimento oficial da Disney/Marvel como coautor dessas histórias e personagens, o que não aconteceu por muito tempo. Esse é um desenvolvimento positivo e relativamente recente. A família Kirby obtém algum tipo de recompensa financeira pelas criações dele. Acho que os filmes de Os Eternos e dos Novos Deuses serão um grande avanço no sentido de cimentar seu legado na cultura popular, já que é a primeira vez que uma criação solo de Kirby receberá esse tipo de tratamento. Não sei se será possível obter o tipo de reconhecimento que Stan tem. A fama do Stan e a fama do Walt Disney foram conceitos cuidadosamente cultivados. Eles não simplesmente aconteceram. Eles foram o resultado de muito esforço e do peso de uma estrutura corporativa global que sustentou essa narrativa durante sua vida.

Uma curiosidade: o que são quadrinhos para você? Você tem alguma definição em particular para a linguagem? Ou tem alguma definição em particular que você acha mais interessante?

Minha definição de quadrinhos é bastante ampla e inclusiva. Se for uma história visual, criada por um único criador ou uma pequena equipe, é uma história em quadrinhos. Pode ser no papel, pode ser digital, pode ser animado, pode ser interativo. Pode ser uma única imagem estática. A forma de arte evoluiu até o ponto em que as barreiras entre os quadrinhos e as animações e os games se tornaram porosas. Recebo muito bem tudo isso.

Outra curiosidade: você poderia recomendar algo em particular que tenha visto, lido ou ouvido recentemente?

Estou tentando pensar em algo fora do radar. Todas as coisas que vêm à mente são muito grandes. Eu gostei de Tenet e The Mandalorian. Estou gostando de WandaVision.

A capa de Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, obra de Tom Scioli publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)
Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #101: 02.2021

Queria ter fôlego e tempo suficientes para que todo mês o Vitralizado tivesse conteúdo como o que publiquei em fevereiro de 2021. Só papo massa com autores que admiro. Passaram por aqui seis autores nos 28 dias que ficaram para trás, falando sobre obras que me chamaram a atenção por diferentes motivos. Saca só o sumário com o que rolou de melhor no blog nesse segundo mês do ano:

*Na 17ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, escrevi sobre Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, obra de Tom Scioli recém-publicada pela editora Conrad. Aliás, prometo para breve a íntegra da minha entrevista com Scioli. E falando em Kirby, a arte que abre o post é da adaptação dele para 2001, peguei lá no Jack Kirby double-page spreads;

*Na mesma Sarjeta, uma entrevista com o quadrinista Xavier Ramos, autor de Urinoir (Ugra Press) e da série O Busão;

*Conversei com o quadrinista escocês Tom Gauld sobre Guarda Lunar, publicado por aqui pela editora Todavia – e desde já um dos destaques desse início de 2021. Esse papo virou matéria para a Folha de S. Paulo e depois publiquei por aqui a versão completa da nossa conversa;

*Também conversei com Gabriela Güllich e Isabor Quintiere, autoras de Jogo de Sombras, ótima HQ independente de terror. Mais um ponto alto desse começo de ano;

*Outra conversa massa foi com a estreante Riotsistah, autora de Máquina Assassina, primeira obra do gênero blaxpoitation da editora Escória Comix;

*E tive uma conversa longa com Fábio Vermelho, um dos meus quadrinistas preferidos nos últimos anos. Focamos esse nosso novo papo em 400 Morcegos (Escória Comix) e Eu Fui um Garoto Gorila, às vésperas de seu lançamento pela editora Veneta;

*E só um registro para não passar batido: meu time foi octacampeão brasileiro em fevereiro de 2021. Não foi naipe 2019, mas um título mesmo assim. Oito vezes, primeiro e único.

Octa, cara… Loucura, viu?

>> Veja o que rolou no Vitralizado #100 – 01.2021;
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HQ / Matérias

Sarjeta #17: Tom Scioli, Jack Kirby e a biografia do Rei dos Quadrinhos

Está no ar a 17ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Escrevi sobre Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, obra do quadrinista norte-americano Tom Scioli recém-publicada no Brasil pela editora Conrad, com tradução de Érico Assis. O meu texto apresenta trechos da entrevista que fiz com Scioli, tratando principalmente do legado de Kirby para a indústria de quadrinhos dos Estados Unidos.

Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com o quadrinista Xavier Ramos, autor de Urinoir (Ugra Press) e de O Busão.

Você lê a 17ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #17: Tom Scioli fala sobre a biografia de Jack Kirby e o legado do Rei dos Quadrinhos.