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Entrevistas / HQ

Papo com Joe Ollmann, autor de Pai de Mentira: “É melhor não olhar muito atentamente para a vida de seus heróis”

Pai de Mentira é uma das minhas leituras preferidas de 2022 até o momento. A obra recém-publicada em português pela editora Comix Zone, com tradução de Érico Assis, é a primeira do quadrinista Joe Ollmann lançada no Brasil. Entrevistei o autor e transformei esse papo em matéria para o site Revista O Grito! Contei por lá sobre as origens do livro, a trama da obra e a produção da HQ. Você lê o meu texto clicando aqui. Compartilho agora a íntegra da minha conversa com o autor. Saca só:

“Tiras de jornal sempre estiveram presentes na minha vida”

Quadros de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Pai de Mentira é uma história em quadrinhos sobre a relação entre um pai e seu filho e também sobre quadrinhos. Você poderia me contar um pouco sobre sua relação com seu pai e sobre a presença dos quadrinhos em sua vida? Qual é a sua lembrança mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

É engraçado, ninguém tinha perguntado sobre mim e meu pai. Nós nos dávamos muito bem. Eu sinto falta daquele cara todos os dias. Então, não há paralelo entre Jimmi Wyatt e o meu pai. Acho que um livro sobre um bom relacionamento entre pai e filho seria chato. Quando meu pai estava doente, eu ia visitá-lo e ele foi um leitor de jornais a vida toda, incluindo os quadrinhos, e como ele tinha opiniões! Ele me fez voltar a ler tiras de jornais, e ele estava sempre certo sobre quais eram os bons.

Minha memória mais antiga dos quadrinhos é de quando eu tinha cerca de nove anos, meu pai e eu estávamos no carro esperando minha mãe e ele me mandou para a loja com um dólar. Comprei dois quadrinhos, um Homem-Aranha e um Capitão América do [Jack] Kirby, o que me deixou maluco. Mas aqueles quadrinhos eram como um relâmpago, eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas queria saber tudo. A partir daquele momento, fiquei obcecado, gastei cada centavo que consegui ganhar, emprestar ou roubar em quadrinhos. Eu memorizava quem escrevia, desenhava e letreirava cada edição, as minhas irmãs me interrogavam sobre elas. Eu desperdicei o resto da minha vida em quadrinhos.

Também fico curioso sobre sua relação com tiras de jornais. Você teve alguma rotina específica de leitura de tiras de jornais durante sua infância? Quais foram as suas favoritas? Você ainda as lê?

Tiras de jornal sempre estiveram presentes na minha vida. Minhas favoritas eram Peanuts e Family Circus. Mais tarde, senti vergonha por gostar de Family Circus, mas Peanuts ficou comigo, funciona em tantos níveis que cresce com você, é apenas uma tira engraçada quando você é criança, e quando você é mais velho parece uma tipo de humor mais sofisticado, você entende melhor a compreensão de [Charles M.] Schulz sobre a natureza humana e eu suspeito que quando eu for ainda mais velho e mais sábio vai me parecer um koan zen [narrativa budista com o propósito de levar à iluminação espiritual]. É uma tira muito perfeita. Meu sonho sempre foi ter a série inteira de Peanuts em volumes idênticos e então a Fantagraphics publicou Peanuts Completo. Acho que posso morrer agora. Eu ainda leio tiras de jornal todos os dias. Eles são muitas vezes horríveis, mas ficarei muito triste se desaparecerem.

Como você diz em Pai de Mentira, a mídia impressa está em crise, cada vez menos gente lê jornais e o espaço destinado a tiras é cada vez menor. Como você analisa esse cenário? Tiras de jornais estão fadadas à extinção? A internet é a saída para esse tipo de formato?

Eu acho que é uma forma de arte antiquada, então é subvalorizada. Ironicamente, eles estão tornando os jornais fisicamente menores, o que torna, tanto os jornais quanto os quadrinhos, mais difíceis de ler para o público-alvo, que são os idosos. Quero dizer, os jornais estão lutando para sobreviver. Suspeito que, à medida que os baby boomers se extinguem, provavelmente também chegarão ao fim todos os meios de comunicação impressos. Eu sou mais velho, então não gosto de ler na tela do computador, mas há todo um outro mundo de quadrinhos diários sendo feitos na web, então os quadrinhos diários sobreviverão, apenas de outra forma. É interessante quando a web pega uma obra antiga e faz algo completamente novo com ela, como Olivia James fez com Nancy. Ela está desbravando novos caminhos e mantendo-se fiel ao espírito do original. Isso é raro, na maioria das vezes “atualizam” quadrinhos antigos adicionando elementos modernos, mas os criadores são velhos demais para entender as nuances da sociedade moderna. Seria mais digno permanecer em um passado clichê e antiquado.

“Também é uma carta de amor aos quadrinhos”

Página de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Gostaria de saber um pouco sobre o ponto de partida do Pai de Mentira. Você teve algum momento ou incentivo em particular para começar a desenvolver esta série?

Fui co-curador de uma grande exposição de galeria de arte de quadrinhos canadenses em 2019. Começamos a trabalhar nessa mostra quase dois anos antes da abertura, então por muito tempo eu estive completamente imerso em quadrinhos e pesquisas sobre quadrinhos. Eu visitei muitos estúdios de cartunistas, olhando seus originais e falando sobre quadrinhos e eu realmente percebi o quão sortudo eu sou por fazer parte deste mundo. Então eu acho que isso me fez pensar em fazer um livro sobre quadrinhos. Por mais que o livro seja sobre um pai e um filho, também é uma carta de amor aos quadrinhos em geral.

Você poderia me contar sobre sua rotina de criação de Pai de Mentira? Você teve alguma rotina específica ao criá-la?

Minha rotina é sempre a mesma. Foco com tudo na escrita. Eu escrevo e planejo e edito e reescrevo e imagino o que os visuais serão por meses antes de começar a realmente fazer os primeiros rascunhos. Eu sou um cara de texto e planejamento. Penso no que [Alfred] Hitchcock disse sobre seus filmes, sobre a diversão estar na escrita e no storyboard, sendo a filmagem um exercício mais técnico. Eu sinto isso, mas ainda gosto muito desse processo de desenho. Uma vez que começo a desenhar, trabalho todos os dias, de oito a 12 horas por dia. Embora eu tenha ficado um pouco preguiçoso durante os lockdowns da COVID e parasse muito cedo para ler quadrinhos e ouvir discos, o que provavelmente foi mais saudável. Essa merda toda de trabalhar até a morte por quadrinhos é loucura. Fique chapado e ouça discos!

Você poderia me falar um pouco sobre as técnicas e materiais que você usou em Pai de Mentira?

Desenho inteiramente à moda antiga, tinta no papel. Eu uso principalmente bico de pena Hunt 107. Anos atrás tomei uma decisão consciente de que era velho demais para aprender novas tecnologias, então abracei completamente uma abordagem manual para meus livros. Geralmente desenho tudo em meus livros, logotipos, etc., tudo exceto o código de barras. Com este livro sendo o meu primeiro em cores – e como mencionei na introdução, sou daltônico – então usei um sistema simples usando tintas de cores primárias e teoria básica das cores e pintei os livros dessa maneira. Alguém me disse, ‘eu gosto de como você fez as sombras do rosto ficarem verdes’, e eu fiquei tipo, ‘ah, eu fiz isso?’.

Pai de Mentira é tanto sobre história dos quadrinhos quanto a linguagem das HQs. O que mais te interessava em quadrinhos quando você começou a criar Pai de Mentira? Qual é o seu principal interesse em quadrinhos atualmente?

Como sempre, meu principal interesse está em histórias sobre pessoas. Eu gosto de coisas que estão enraizadas na realidade e se são meio tristes, ah cara, isso me deixa feliz. Há exceções para mim, às vezes leio coisas de gênero e gosto, mas sou atraído principalmente por coisas de gênero que estão arraigadas nos personagens. Finalmente comecei a ler Junji Ito durante a pandemia e estou obcecado. Eu amo essas coisas, mas, novamente, são personagens fortes em meio a todo aquele horror. 

“É melhor não olhar muito atentamente para a vida de seus heróis”

Página de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Fico curioso sobre suas pesquisas e estudos para criar Pai de Mentira. Você menciona especificamente a biografia de Charles M. Schulz do David Michaelis. Quais dos livros que você leu e usou como referência foram mais importantes para você?

Eu tinha lido o livro de Michaelis assim que ele saiu e o usei algumas vezes como referência enquanto escrevia, mas a maioria das coisas de quadrinhos em Pai de Mentira é apenas meu próprio conhecimento adquirido de uma vida desperdiçada obcecada por quadrinhos e cartunistas. A exceção foi o material de Dennis, O Pimentinha, como mencionei na introdução. Quando decidi incorporar isso na história, li muito, principalmente na internet e artigos de revistas antigas. Li muitos livros sobre o Schulz ao longo dos anos, mas não li profundamente sobre muitos outros cartunistas. Muitas dessas coisas vieram de fofocas de cartunistas que ouvi ao longo dos anos. Descobri que aprendo muito com aquelas longas entrevistas que o Comics Journal faz com quadrinistas. É uma chance real de entrar no processo de pensamento de um artista.

E de todas essas leituras e estudos (e também da experiência de escrever um livro inteiro sobre o tema), você vê algum padrão ou comportamento comum entre autores de quadrinhos em suas vidas pessoais? Quero dizer, eu ouço e leio muito sobre como pode ser solitário trabalhar como autor de quadrinhos e as condições profissionais nem sempre são as melhores… Não parece ser o melhor ambiente para a saúde mental, certo?

Não sei, a maioria dos quadrinistas que conheço não são diferentes dos contadores que conheço. Quando você diz às pessoas que você é um quadrinistas, às vezes há uma expectativa como, ‘ah caramba, esses caras vão ser um motim de risadas!’. Mas muitas vezes nem tanto. É definitivamente uma profissão solitária, não há feedback do público. É por isso que escrevo tantas cartas para quadrinistas, só para dizer que eles fazem um ótimo trabalho. Às vezes, um tapinha nas costas de um camarada é a única recompensa nessa coisa toda. Eu acho que as pessoas mais saudáveis ​​nos quadrinhos são aquelas que reduziram suas expectativas e apenas fazem quadrinhos porque amam fazer quadrinhos, porque financeiramente, pode ser muito sombrio na maior parte do tempo. Os quadrinistas muitas vezes ficam deprimidos com a falta de recepção de seu trabalho e se tornam amargurados. Eu apenas tento fazer meu trabalho e não penso na recepção. Só pode ser ruim para o trabalho se você começar a calcular o que vai chamar mais atenção e o que será melhor para o mercado. Quando você começa a antecipar a recepção do público, o trabalho vai perder.

Pai de Mentira mostra o passado pessoal deste autor famoso extremamente ausente como pai. Jimmi Wyatt é esse personagem repulsivo, mas seus fãs não o veem da mesma maneira. Ler e estudar sobre as origens dos autores de quadrinhos de alguma forma mudou a forma como você os percebe e percebe as obras deles?

Eu definitivamente sou uma daquelas pessoas que têm dificuldade em separar o artista da obra. Às vezes, é melhor não olhar muito profundamente para a vida de seus heróis, eles provavelmente o decepcionarão. Eu não acho que valha a pena tolerar o comportamento de nenhum “gênio”, em nenhuma arte, sabe? Fico chateado de verdade quando penso em Stanley Kubrick levando a pobre Shelley Duvall a quase um colapso mental no set de O Iluminado. Tudo isso para fazer um filme de terror medíocre com alguns cenários realmente memoráveis? Vale a pena? Provavelmente não. Quero dizer, pergunte à Shelley Duvall.

“Não posso acreditar na minha sorte com os quadrinhos”

Página de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Pai de Mentira foi bem recebido pela crítica, mas que tipo de retorno você teve de seus leitores? Existe alguma resposta particular à história de Caleb que de alguma forma chamou sua atenção?

Bem, os quadrinistas gostaram muito do livro, o que foi gratificante. Mas tiveram muitas entrevistas e cartas de pessoas discutindo o alcoolismo do Caleb e se relacionando de verdade com isso. Eu mesmo tive alguma experiência com bebida e sobriedade também, então acho que foi um pouco de escrever o que você sabe em um cenário ficcional. Mas fiquei grato que as pessoas acharam que isso foi bem tratado.

O que você pensa quando seu trabalho é publicado em um país como o Brasil? Você tem alguma curiosidade sobre como um livro que você fez será lido e interpretado em um ambiente tão diferente do seu?

Eu fui uma criança criada em uma fazenda. Toda vez que um dos meus livros é publicado em outro país e outro idioma, ou quando sou levado para algum evento de quadrinhos para falar sobre meus quadrinhos, sou como um caipira que acabou de cair de um trator. Não posso acreditar na minha sorte com os quadrinhos. Então, estou sempre animado em ser publicado em um novo país e em outro idioma. O mais interessante para mim na tradução é a arte de transferir piadas para algo que faça sentido em outra língua e cultura, dentro de outro contexto moral, com outra formação cultural. Fico sempre admirado com a arte de um bom tradutor. O Érico [Assis], que fez a tradução, me escreveu com perguntas e o nível de cuidado e detalhes que ele colocou foi surpreendente. Eu não leio português, mas tenho certeza que será uma ótima tradução!

Você poderia recomendar algo que você tenha lido/assistido/ouvido recentemente?

Acabei de reler toda a série Crickets, do Sammy Harkham, e precisei escrever uma carta para ele tarde da noite, fiquei muito impactado com tudo. Ele está fazendo coisas incríveis nessa série. Stone Fruit, de Lee Lai; Nod Away, de Josh Cotter; The Shiatsung Project, de Brigitte Archembault; e Keeping Two, de Jordan Crane, são coisas incríveis que li ultimamente. Tudo o que ouço hoje em dia é R&B dos anos 1970. Roberta Flack, Donnie Hathaway, Marvin Gaye, Isley Brothers, meu Deus, tão bom.

Você está trabalhando em algum novo projeto em particular no momento?

Contra todo o bom senso, estou trabalhando em uma coletânea de quadrinhos curtos. É sempre impopular, mas é o que eu tenho vontade de fazer, então estou seguindo meu próprio conselho e não pensando no mercado, risos. Mas estou me mantendo animado para descer as escadas e ir trabalhar nisso diariamente. 

A capa de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)


HQ / Matérias

Galvão Bertazzi fala sobre incêndios, catástrofes e Vida Besta: Fim do Mundo

Desde 1998 o quadrinista Galvão Bertazzi retrata na série Vida Besta a banalidade da vida cotidiana e a falta de um sentido maior para a existência. Nos últimos anos ele incorporou à sua produção o caos e niilismo do governo Jair Bolsonaro e de uma pandemia que já matou mais de 680 mil brasileiros. O álbum Vida Besta: Vida do Mundo reúne as tiras produzidas pelo autor de 2018 para cá, seu periodo mais apocalíptico.

Conversei com o autor sobre a coletânea publicada pela editora Mino e transformei esse papo em texto para a Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui.

HQ / Matérias

Powerpaola fala sobre Todas as bicicletas que eu tive: “Bicicletas permitem me deslocar em total liberdade, me tornar dona de mim”

A quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola vê paralelos entre andar de bicicleta e criar uma história em quadrinhos. Ela diz que as HQs a permitem inventar seu próprio universo, se relacionar com o mundo, estar imersa em suas práticas e se apropriar da própria vida. Da mesma forma, pedalando ela vai aonde quer, conhece o mundo e se conhece dentro dele.

Recém-lançado pela editora Lote 42, com tradução de Nicolás Llano Linares, Todas as bicicletas que eu tive une as duas paixões de Powerpaola. Ela narra em quadrinhos, como diz o título, a relação dela com todas as bicicletas que passaram por sua vida.

“As bicicletas sempre foram minhas grandes companheiras e principalmente nestes últimos anos da minha vida, por isso era algo que insistia em ser desenhado e escrito”, conta a autora sobre as origens de seu mais novo título.

O projeto começou a tomar forma quando Powerpaola contou para a colega de profissão argentina Maitena sobre seus planos para uma HQ sobre suas bicicletas. Como resposta, foi informada de um conto da escritora argentina Cecilia Pavón chamado Todas as Bolsas que eu Tive. Estimulada pela coincidência, ela participou de uma oficina de poesia de Pavón ao longo de 2020.

Todas as bicicletas que eu tive foi produzido aos trancos e barrancos. Ela diz se entendiar com roteiros e lembra que quadrinhos não são sua principal fonte de renda – apesar de fazê-los “para sobreviver emocionalmente”. Então, em meio a vários outros projetos e alguns problemas de saúde, acabou se tornando sua obra mais trabalhosa.

“Não tive rotina, fora encontrar a maneira de fazer o livro e terminá-lo”, lembra a autora. “Estive em várias oficinas de escrita e no final consegui terminá-lo numa residência em Tigre [cidade argentina]. Fui desenhar e escrever sozinha durante uma semana no meio do Delta [encontro dos rios Tigre e Luján] sem internet, somente assim consegui chegar ao fim”.

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)

O resultado final é um livro de 112 páginas que costura as memórias de Powerpaola sobre suas bicicletas, suas moradias e seus relacionamentos. Nômade, ela lembra de pessoas com quem conviveu e se relacionou e de bicicletas usadas por ela em passagens por países como Equador, Argentina, El Salvador, Colômbia e França. Uma ausência de endereço fixo, aliás, muito impactada por sua vida em duas rodas.

“Com certeza foram elas [bicicletas] que me permitiram conhecer profundamente as cidades em que vivi. Termino fazendo um desenho com elas nesse labirinto que é a própria vida”.

Powerpaola conta no livro, por exemplo, a origem de sua primeira bicicleta, que ganhou da mãe em um Natal, quando tinha 11 anos. O presente foi usado para impressionar um grupo de garotos que frequentava um parque de Quito.

Ela lembra da experiência: “Saí para o parque La Carolina com a minha bicicleta e senti que podia trocar de direção e ir ainda mais longe, me perder um pouco pela cidade, fazer o percurso que fazia no ônibus do colégio. Foi maravilhoso experimentar isso. Nunca na minha vida eu tinha ido tão longe sozinha. Comprei umas bolachas deliciosas com chips de chocolate na volta e levei para a minha mãe para que não me desse uma bronca por não ter seguido o combinado inicial, que era ir até o parque”.

São narradas histórias de bicicletas que ela herdou ou ganhou e outras que a acompanharam em inícios, ápices e términos de diferentes relacionamentos. Ela apresenta tramas que refletem o próprio significado das bicicletas em sua vida: “São os dispositivos que permitem me deslocar em total liberdade, me tornar dona de mim, ir aonde eu quero ir, ir quando eu quero ir, o mais parecido com a felicidade e a independência”.

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)

E a autora retratou essas memórias e sentimentos em torno de bicicletas em preto e branco, com usos pontuais de amarelo e vermelho.

“Sempre me proponho usar técnicas diferentes e novas em cada livro, técnicas que tenham relação com a história e a narrativa”, explica a artista. “Fiz este livro todo com tintas preta, amarela e vermelha, algo completamente novo para mim. Queria que fosse como se a bicicleta tivesse pisado uma poça cheia de lama e tivesse desenhado tudo com os pneus”.

Ela diz que até gostaria de fazer uma HQ toda colorida, mas que não consegue imaginar quanto tempo levaria finalizando um projeto do tipo. Sua preferência por publicações mais baratas também pesam (“Quero que um adolescente possa comprar”). Ela ainda atribui o visual da obra à sua influência das HQs underground norte-americanas dos anos 1990.

A obra de Powerpaola dialoga, por exemplo, com os trabalhos da canadense Julie Doucet – publicada pela primeira vez na América do Sul em 2022, pela editora Veneta, com Meu Diário de Nova York – um título também extremamente pessoal e em primeira pessoa, assim como os trabalhos prévios da autora publicados em português, Vírus Tropical (Nemo) e QP (Lote 42). Todas as bicicletas, no entanto, tem ares mais poéticos.

É uma abordagem que também ecoa os atuais interesses da autora como leitora de HQs: “Gosto muito das pessoas que experimentam com a linguagem do comic em todo sentido. Gosto das boas histórias e um desenho que também esteja me contando algo mais, que tenha uma linguagem própria e não se pareça aos demais”.

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)
HQ / Matérias

Joe Ollman fala sobre “gênios”, família, tiras de jornal e Pai de Mentira

Conversei com o quadrinista canadense Joe Ollman sobre Pai de Mentira, obra recém-lançada em português pela editora Comix Zone (com tradução de Érico Assis). Uma ficção, o álbum conta a história de um suposto “gênio” do mundo dos quadrinhos Jimmi Wyatt, criador da tira Chapa & Chapinha, amado por várias gerações de leitores, mas ausente e abusivo entre seus familiares. A obra é narrada pelo ponto de vista do filho de Jimmi, Caleb Wyatt, artista frustrado e assombrado pela fama do pai.

Transformei esse papo com Ollman em matéria para o site Revista O Grito!, com algumas falas do autor sobre “gênios”, família, tiras de jornal e Pai de Mentira. Você lê o texto clicando aqui.

HQ / Matérias

Angeli, Laerte e Glauco reunidos na Glauco Cartoon

Escrevi para a Folha de S.Paulo sobre as atividades da Glauco Cartoon, mistura de loja e galeria em São Paulo que vende roupas e vários outros produtos com artes dos quadrinistas Angeli, Laerte e Glauco (1957-2010). Incluí no meu texto para o Guia da Folha algumas falas das entrevistas que fiz com Beatriz Galvão Veniss, dona da loja e viúva de Glauco, e Carolina Guaycuru, esposa de Angeli, sobre essa nova parceria entre os Três Amigos. A Glauco Cartoon fica no número 299 da Rua Purpurina, na Vila Madalena. Você lê o mesmo texto sobre o espaço clicando aqui.

(Na imagem do abre, foto do interior da Glauco Cartoon, com impressão de Angeli à venda no local. Crédito: Divulgação)

HQ / Séries

Neil Gaiman, Sandman, as HQs e a série

Escrevi para a edição de agosto de 2022 da revista Monet, da Editora Globo, uma matéria sobre Sandman, criação do escritor e quadrinista Neil Gaiman. O foco do texto está na estreia da adaptação dos quadrinhos da DC Comics para o Netflix, com lançamento marcado para 5 de agosto. Lembrei das origens de Sandman nos quadrinhos, falei sobre o impacto de Gaiman na indústria norte-americana de HQs e de tentativas prévias de adaptação da obra para audiovisual. Meu texto é exclusivo da versão impressa da publicação.

A capa da primeira edição da coleção de 30 anos de Sandman, publicada pela editora Panini Comics (Divulgação)