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Entrevistas / HQ

Papo com Jason, autor de A Gangue da Margem Esquerda: “Estamos caminhando para uma catástrofe que mudará tudo. O futuro é muito incerto”

A Gangue da Margem Esquerda é o terceiro álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil. O primeiro trabalho do autor lançado por aqui foi Sshhhh!, coletânea de histórias curtas e mudas que vão do humor ao macabro. Depois saiu Eu Matei Adolf Hitler, sobre um assassino profissional contratado por um cientista para viajar no tempo, matar o líder nazista e impedir o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial.

Entrevistei o artista pela primeira vez em 2017, na época do lançamento de Sshhh! por aqui, e, depois, no ano passado, quando Eu Matei Adolf Hitler chegou às livrarias nacionais. Bati agora um novo papo com Jason, dessa vez sobre A Gangue da Margem Esquerda, obra vencedora do Prêmio Eisner de Melhor Título Estrangeiro no ano de 2007. Transformei essa conversa em matéria que você lê por aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista mais recente com o autor norueguês. Ele falou sobre a concepção da trama sobre um roubo envolvendo Ezra Pound, James Joyce, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway na Paris dos anos 1920; também tratou de suas técnicas e métodos de trabalho e expôs um pouco de seus temores sobre o impacto da pandemia do novo coronavírus no mercado de HQs. Saca só:

“Parte de ser quadrinista é que você já é praticante de distanciamento social”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Antes de tudo, como você está? Como você está encarando a pandemia do coronavírus? O contexto de isolamento social afetou de alguma forma sua rotina diária?

Parte de ser quadrinista é que você já é praticante de distanciamento social. Você trabalha sozinho em casa a maior parte do tempo, fazendo uma corrida ou respirando ar fresco de vez em quando. Portanto, não há grandes mudanças. Eu tento trabalhar um pouco todos os dias. Mas, como sempre, o YouTube é o grande inimigo. Você pode perder facilmente algumas horas por lá. E sempre há livros ou quadrinhos para ler.

Como você acha que essa realidade que estamos vivendo vai afetar o seu ambiente profissional? Você tem conversado com outros autores e editores sobre essa situação?

Não, eu não conversei com mais ninguém sobre isso. Mas sou publicado na maior parte das vezes por editoras pequenas, administradas por duas pessoas. E o mercado já é difícil, pelo menos na França, com muitas publicações novas a cada semana. Espero que todos os meus editores ainda estejam por aí e que as lojas de quadrinhos também se saiam bem quando meu próximo livro for publicado na próxima primavera.

“Lembro dos meus 30 e poucos anos como uma época em que me preocupava em ganhar dinheiro suficiente apenas para pagar aluguel”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Você pode me contar um pouco sobre o ponto de partida de A Gangue da Margem Esquerda? Você lembra de como surgiu a ideia desse livro?

Eu gosto do Hemingway e li muitas biografias sobre ele e sobre a Paris dos anos 1920. Foi um período emocionante, com muitas pessoas interessantes morando lá. Eu senti que era um bom lugar para ambientar uma história. Lembro dos meus 30 e poucos anos como uma época em que me preocupava em ganhar dinheiro suficiente apenas para pagar aluguel e pensando se tinha feito a escolha errada estudando ilustração na escola de artes e depois tentando ganhar a vida como ilustrador e quadrinista. Eu consigo me relacionar com muitos dos escritores na Paris dos anos 1920 também preocupados com dinheiro. E, por último, assisti ao filme O Grande Golpe, de Stanley Kubrick, que foi a inspiração para contar a história de um assalto fora de ordem cronológica.

Por que utilizar autores e artistas reais? E por que transformá-los em quadrinistas?

Para criar um distanciamento dos artistas, deixando claro que isso é uma fantasia e não fatos biográficos. Usei alguns fatos, mas ao mesmo tempo tive liberdade para inventar uma história. Além disso, achei engraçado transformar Hemingway e Scott Fitzgerald em quadrinistas.

“Você precisa aceitar que poderá fazer algo que ama, mas terá que enfrentar a realidade financeira como resultado”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Eu estava pensando sobre os dramas e dilemas desses artistas e autores na vida real e como eles poderiam ser semelhantes aos de quadrinistas. Você crê em muitas similaridades entre a vida profissional e as dificuldades de um pintor ou escritor e a vida profissional e os dilemas de um quadrinista?

Sim, acho que são praticamentes os mesmos para todos os artistas, sejam escritores, quadrinistas ou artistas plásticos. Na maioria das vezes, não há muito dinheiro envolvido. Você precisa aceitar que poderá fazer algo que ama, mas terá que enfrentar a realidade financeira como resultado. Sem grandes apartamentos, sem férias caras, sem carros sofisticados. A menos que você seja daquele sortudo 1% que terá um sucesso ou conseguirá um contrato de cinema e poderá ganhar muito dinheiro. Provavelmente, depois que morrermos, é que o dinheiro vai entrar.

O que você vê de mais especial na Paris dos anos 1920? Quais seriam as motivações para todos esses artistas se reunirem nesse mesmo local durante esse mesmo período?

Bem, a cidade era barata. E muitos desses expatriados americanos já haviam estado na Europa durante a guerra, como soldados ou motoristas de ambulância. Paris significava liberdade. Na América havia proibição. E talvez a distância torne as coisas mais claras. Hemingway viveu em Paris, mas escreveu histórias sobre sua infância e juventude nos EUA.

“Não tenho nenhuma rotina em particular, exceto não escrever um roteiro completo”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

O quanto você acha que o mundo mudou nesse intervalo de 100 anos entre 1920 e 2020?

Eu não acho que as pessoas mudaram muito. A comunicação mudou. Há a internet e Iphones. Mesmo para mim, crescido nos anos 70, as coisas mudaram. Quando eu criança, na Noruega, havia uma estação de TV e uma estação de rádio. E as mudanças climáticas estão acontecendo agora, sabemos que o ambiente que nós demos como certo agora pode desaparecer, que estamos todos caminhando para uma catástrofe que mudará tudo. O futuro é muito incerto.

Eu gosto muito quando um autor se impõe algumas restrições. Penso nos seus grides fixos, por exemplo. Você gosta desse exercício? Há alguma restrição particular que te interessa mais?

Não vejo o gride como uma restrição. Para mim, ele é apenas esteticamente mais agradável. E assim um painel não recebe mais importância que outro. Cabe ao leitor decidir qual é importante. Então, na maior parte do meu tempo como cartunista, usei grides de 4 painéis, 6 painéis, 8 painéis ou 9 painéis. Houve um período em que fiz muitas histórias silenciosas. Isso foi uma restrição, não usar palavras. Bem, na verdade, eu não gostava de escrever, então ficou mais fácil não usar palavras. E então, em algum momento, esse se tornou o desafio, escrever diálogos. E agora eu gosto de uma combinação. Ter diálogo, mas também ter painéis silenciosos, se isso contar a história de maneira mais eficaz.

“Às vezes, tenho o começo e, enquanto estou trabalhando nisso, penso no que pode acontecer a seguir”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Você pode me falar um pouco sobre os seus métodos de trabalho? Você tem alguma rotina em particular? Você está mais habituado a alguma técnica em particular? A Gangue da Margem Esquerda foi todo com tinta e papel, certo?

Sim, é tudo tinta no papel. Não tenho nenhuma rotina em particular, exceto não escrever um roteiro completo. Improviso e crio a história enquanto estou trabalhando nela. Às vezes, tenho o começo e, enquanto estou trabalhando nisso, penso no que pode acontecer a seguir. Às vezes eu tenho pedaços de diálogos. Outras vezes, as imagens aparecem primeiro e eu decido o diálogo enquanto desenho. Às vezes, faço esboços em miniatura, faço a maior parte do trabalho diretamente na página. Atualmente, eu desenho principalmente com um grid de 4 painéis. Não preciso trabalhar cronologicamente, trabalho em sequências e as coloco na ordem correta no final. Isso facilita a edição do livro. Se uma página ou uma sequência não funcionar, eu posso removê-la, sem precisar substituí-la por outra coisa.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?


Eu reli alguns quadrinhos que não pegava desde que comprei. Christophe Blain, o cartunista francês, já li muitas coisas dele. Eu pretendo ler alguns dos romances russos que desisti pela metade anteriormente, como O Idiota e Os Irmãos Karamazov. Estou revendo Memórias de Brideshead, a série de TV com Jeremy Irons. Eu revejo O Picolino e os velhos filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers. Columbo é sempre divertida de assistir e muito relaxante. Eu não tenho Netflix nem uso streaming, então tudo isso é DVD. Música, há muito para mencionar. Ouvi alguns CDs de John Renbourn que acabei de ganhar. 

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino
HQ

Especial Vitralizado: Jason fala sobre A Gangue da Margem Esquerda, os autores da Geração Perdida e o impacto da pandemia no mercado de HQs

“Por que a gente faz quadrinho?”, questiona Ezra Pound a Ernest Hemingway durante uma partida de pingue-pongue no reduto boêmio parisiense do Quartier Latin, em algum momento dos anos 1920. A resposta parte do também quadrinista James Joyce: “É porque líamos quadrinhos quando éramos crianças. Se tivéssemos jogado futebol ou subido em árvores, hoje seríamos normais. Teríamos trabalhos de verdade. Seríamos motoristas de ônibus ou carpinteiros e seríamos felizes”.

O autor irlandês encerra com um lamento: “Agora é tarde demais. É a única coisa que sei fazer. Não consigo dirigir um ônibus, nem acertar um prego com um martelo. Mas consigo contar uma história com desenhos e foder minha vista um pouco mais a cada dia. Estamos fodidos”.

Recém-lançado no Brasil pela editora Mino, com tradução de Dandara Palankof, A Gangue da Margem Esquerda apresenta quatro dos maiores nomes da literatura inglesa como autores de histórias em quadrinhos. Não só. Desenhados como animais antropomorfizados, Ezra Pound, James Joyce, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway estão insatisfeitos com os rumos de suas carreiras e suas dificuldades financeiras, então arquitetam um assalto à mão armada. 

“Provavelmente, depois que morrermos, é que o dinheiro vai entrar”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Terceira obra do quadrinista norueguês Jason publicada no Brasil, a HQ rendeu ao autor o Prêmio Eisner de Melhor Título Estrangeiro no ano de 2007. Seu primeiro trabalho lançado por aqui foi Sshhhh!, coletânea em preto e branco de histórias curtas e mudas que vão do humor ao macabro. Depois saiu Eu Matei Adolf Hitler, sobre um assassino profissional contratado por um cientista para viajar no tempo, matar o líder nazista e impedir o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial.

A Gangue da Margem Esquerda segue muito dos padrões dos demais trabalhos de Jason, como o uso de personagens antropomorfizados e a elegância narrativa caracterizada principalmente pelo uso de um gride constante de nove quadros por página. O contraste maior está na trama.

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

“Eu gosto do Hemingway e li muitas biografias sobre ele e sobre a Paris dos anos 1920. Foi um período emocionante, com muitas pessoas interessantes morando lá. Eu senti que era um bom lugar para ambientar uma história”, disse Jason em entrevista por email ao Vitralizado.

Jason consegue se relacionar com muitos desses escritores e artistas que viveram na Paris de 100 anos atrás. Na avaliação dele, na maior parte do tempo, a principal preocupação desses autores era a mesma que ele tinha quando estava em seus 30 e poucos anos, recém-saído da faculdade e tentando viver como quadrinista: ganhar dinheiro para pagar o aluguel. Para Jason, dificuldades financeiras tendem a ser um drama para 99% dos artistas.

“Na maioria das vezes, não há muito dinheiro envolvido. Você precisa aceitar que poderá fazer algo que ama, mas terá que enfrentar a realidade financeira como resultado. Sem grandes apartamentos, sem férias caras, sem carros sofisticados. A menos que você seja daquele sortudo 1% que terá um sucesso ou conseguirá um contrato de cinema e poderá ganhar muito dinheiro. Provavelmente, depois que morrermos, é que o dinheiro vai entrar”.

“Achei engraçado transformar Hemingway e Scott Fitzgerald em quadrinistas”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

E por que fazer dos quatro protagonistas autores de histórias em quadrinhos?

“Para criar um distanciamento dos artistas, deixando claro que isso é uma fantasia e não fatos biográficos. Usei alguns fatos, mas ao mesmo tempo tive liberdade para inventar uma história. Além disso, achei engraçado transformar Hemingway e Scott Fitzgerald em quadrinistas”.

Fitzgerald é mostrado lamentando a falta de interesse da esposa, Zelda, em suas HQs e Hemingway protagoniza uma cena na qual busca conselhos com a mentora Gertrude Stein – creditada como responsável pela criação do termo Geração Perdida para designar esse grupo de autores expatriados na Paris dos anos 1920.

“Que tipo de lápis está usando?”, questiona Stein, também transformada em quadrinista. Depois ela instrui: “Nunca copie uma foto. Se precisar desenhar um automóvel, saia, ache um e desenhe em seu caderno de rascunhos, certo?”.

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Já a ideia do roubo partiu de uma sessão de O Grande Golpe (1956), terceiro filme de Stanley Kubrick, com o ator Sterling Hayden no papel de um ladrão recém-saído de um período de cinco anos atrás das grades que planeja um último assalto antes de se casar e se aposentar da vida de crimes.

A metade final de A Gangue da Margem Esquerda, focada no crime executado pelo quarteto de quadrinistas, tem influência direta da narrativa fora de ordem cronológica do assalto mostrado no filme de Kubrick. A ação e os desdobramentos do roubo arquitetado por Hemingway com o auxílio de seus três amigos são apresentados sob os pontos de vista de sete personagens.

Em relação à produção do quadrinho, Jason diz ter seguido sua prática habitual de tinta e papel, sem uso de computador.

“Improviso e crio a história enquanto estou trabalhando nela”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

“Não tenho nenhuma rotina em particular, exceto não escrever um roteiro completo. Improviso e crio a história enquanto estou trabalhando nela. Às vezes, tenho o começo e, enquanto estou trabalhando nisso, penso no que pode acontecer a seguir. Às vezes eu tenho pedaços de diálogos. Outras vezes, as imagens aparecem primeiro e eu decido o diálogo enquanto desenho. Às vezes, faço esboços em miniatura, faço a maior parte do trabalho diretamente na página”.

Hoje aos 54 anos, Jason reside desde 2007 na cidade francesa de Montpellier. Ele está atualmente confinado em casa, respeitando o isolamento social imposto pelas autoridades locais durante a pandemia do novo coronavírus. Mas ele conta que sua vida como o autor de quadrinhos já impõe certo distanciamento social ao trabalhar em casa na maior parte do tempo.

Ele acredita ainda estar cedo para mensurar o impacto da pandemia no mercado de quadrinhos, mas mostra-se pessimista: “Sou publicado na maior parte das vezes por editoras pequenas, administradas por duas pessoas. E o mercado já é difícil, pelo menos na França, com muitas publicações novas a cada semana. Espero que todos os meus editores ainda estejam por aí e que as lojas de quadrinhos também se saiam bem quando meu novo livro for publicado na próxima primavera”.

A capa de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino
Entrevistas / HQ

Papo com Jillian Tamaki, coautora de Aquele Verão: “A história de amadurecimento é perene em todo tipo de escrita”

Aquele Verão é dos quadrinhos mais premiados e aclamados dos últimos anos e deverá constar em várias listas de melhores HQs publicadas em português em 2019 quando o ano chegar ao fim. Parceria das primas Jillian e Mariko Tamaki, o álbum levou os prêmios Eisner e Ignatz de melhor graphic novel de 2014 e tornou suas autoras duas das artistas mais celebradas e concorridas da indústria norte-americana de HQs.

Eu já havia entrevistado Mariko Tamaki aqui pro blog em 2015, logo após Aquele Verão ser premiado com o Eisner. Agora, aproveitei a chegada da edição nacional da Mino às livrarias nacionais, em tradução de Dandara Palankof, para entrevistar Jillian Tamaki e perguntar um pouco mais sobre a origem, o desenvolvimento e a repercussão da HQ. Transformei esse papo em matéria para o jornal O Globo, disponível para leitura clicando aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jillian, em tradução do tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Não teve nenhum acesso de inspiração, a gente só tava se divertindo fazendo gibi e a receptividade foi boa”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você poderia contar um pouco sobre o início dos seus trabalhos com a sua prima em Aquele Verão? Como esse projeto teve início?

Nós já tínhamos trabalhado em outra graphic novel, chamada Skim, que saiu de um jeito um pouquinho mais orgânico. Skim era uma história de 24 páginas, a primeira HQ que a Mariko tinha escrito e a primeira HQ narrativa comprida e “básica” que eu já tinha feito. Não sei como aconteceu, mas alguém deu a ideia de ampliar e transformar em graphic novel. A graphic teve uma recepção muito boa, então a gente pensou, tipo, “vamos tentar mais uma”. Montamos uma proposta e acabamos vendendo. Desculpe, a história não tem nada de romântico! Não teve nenhum acesso de inspiração, a gente só tava se divertindo fazendo gibi e a receptividade foi boa.

Eu também gostaria de saber mais sobre a dinâmica do seu trabalho com a Mariko. Como era a interação entre vocês? Vocês trabalharam juntas em todas as etapas da produção da HQ?

Geralmente deixo que ela crie o argumento e escreva. Gosto do desafio de interpretar o roteiro e ela não precisa da minha ajuda na concepção. Na fase de esboço, eu tiro umas coisas, acrescento outras e tento moldar de um jeito que fique fiel à intenção dela, mas que também seja significativo pra mim. Editamos juntas num processo bem rigoroso. É óbvio que precisa de muita confiança dos dois lados.

“Acho que hoje em dia nos interessamos muito por histórias pessoais e por ‘identidade’, principalmente quando vêm de grupos marginalizados”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Sobre a sua arte: quais técnicas você utiliza? Você tem alguma preferência por tinta ou digital?

Em Aquele Verão foi nanquim tradicional. Óbvio que é escaneado e montado no computador. Eu faço os esboços no digital, geralmente para facilitar, depois eu faço lápis, nanquim e separo numa mesa de luz. Outros álbuns, tipo SuperMutant Magic Academy e Boundless, foram 100% digital. Gosto de algumas coisas de cada método. Eu odeio escanear, odeio muito, então tem essa vantagem quando faço tudo digital.

Aquele Verão não é um trabalho autobiográfico, mas é inspirado em algumas memórias de infância da sua prima. Hoje em dia há muitos quadrinhos autobiográficos e HQs com histórias de amadurecimento. Você vê alguma razão em particular para isso?

Bom, eu nunca escrevi memórias, então talvez não seja a melhor pessoa para se perguntar. Acredito que nenhum livro surge do zero. Ele sempre vai ser moldado pela experiência de vida da pessoa. Quanto à popularidade desse tipo de trabalho… A primeira pessoa, o “eu”, é muito envolvente e direta. Acho que hoje em dia nos interessamos muito por histórias pessoais e por “identidade”, principalmente quando vêm de grupos marginalizados. É uma coisa boa. A história de amadurecimento é perene em todo tipo de escrita. Aliás, acho que nos próximos anos vamos ver cada vez menos histórias assim nos quadrinhos. As editoras estão apostando sério na graphic novel e, embora a predominância seja do young adult, nem tudo vai ser explicitamente história de formação. Se é que isso faz sentido. Pode ser que elas pilotem uma nave, que tenha aventuras no espaço etc.

“Eu entendo que minha função é botar as personagens a ‘atuar’ da melhor maneira possível”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você tem em mente alguma obra em particular que tenha influenciado seu trabalho em Aquele Verão?

Quando eu penso nas coisas que foram influência na HQ, eu penso em filmes. Especificamente Conta Comigo. Ou naqueles filmes de terror que a Windy e a Rose assistem no laptop: A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e outros do tipo.

Uma das coisas que mais gosto em Aquele Verão está no realismo das posturas e do diálogos das personagens. Todo mundo foi criança uma vez na vida, mas nem todo mundo consegue lembrar da forma como agia, pensava e falava quando era criança. Você ainda tem muitas memórias de infância frescas na sua cabeça? Se sim, como elas influenciaram o seu trabalho em Aquele Verão?

Acho que há pouco tempo eu cruzei aquele limiar em que as memórias de infância perdem a importância que tinham. Eu tenho uma memória sensorial bem forte, então é fácil pra mim aproveitar muito dessa memória. Mas meus trabalhos mais recentes tratam de uma transição mais explícita pra maturidade – o fim da adolescência, a fase dos vinte anos, até do trinta. Quanto a ter autenticidade na voz, isso é especialidade da Mariko. Eu entendo que minha função é botar as personagens a “atuar” da melhor maneira possível.

“A influência vem de mangás antigos, que às vezes se imprimiam em tinta azul escura ou roxa”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Eu também gosto muito dos tons azuis do livro. Você pode me contar um pouco sobre a sua escolha por essa paleta? Por que ela?

Eu escolhi em um catálogo Pantone na sede da First Second. A influência vem de mangás antigos, que às vezes se imprimiam em tinta azul escura ou roxa. Tem um pouco de mangá em Aquele Verão, mas, pra ser sincera, foi uma escolha barata, de estilo. Tem um pouquinho de melancolia nessa cor. E me pareceu que ia ser uma coisa singular da HQ – pelo menos na época.

O livro foi um grande sucesso de crítica. Há alguma leitura ou interpretação em particular da obra que tenha chamado sua atenção?

Eu me interessei muito em ouvir interpretações de leitores de várias idades. O público se identifica com personagens que tenham idade parecida. Acho que só adultos conseguem entender todo o escopo da HQ. Putz, hoje eu entendo muito mais sobre coisas tipo aborto do que quando eu trabalhei na HQ.

“Vejo que tem gente reagindo, que é corajosa, que sabe unir as lutas e que consegue vislumbrar outros modos de existir”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Eu fico curioso para saber sobre a sua leitura do mundo hoje. Vivemos em uma realidade no qual Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e o presidente do Brasil é Jair Bolsonaro – uma versão provavelmente mais estúpida, xenófoba, reacionária e pior do que Trump em todos os sentidos. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Crueldade, cobiça e sofrimento sem limites. Dito isso, eu vejo que tem gente reagindo, que é corajosa, que sabe unir as lutas e que consegue vislumbrar outros modos de existir. Me parece uma coisa que não tem antecedentes desde que eu existo, mas admito que às vezes parece que não basta.

“O futuro” significa um monte de coisas. Não existe um ponto final em que toda a injustiça vai ser erradicada pra todo sempre. Acho que é um envolvimento para toda a vida, intenso, que leva em conta as pessoas que não são só você e a sua vida. E sempre foi assim.

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curiosa em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Sempre fico surpresa quando traduzem meus quadrinhos. O jeito como eu escrevo é descaradamente da perspectiva de uma mulher canadense suburbana e ex-alternativinha. As ambientações costumam ser bem específicas. Ainda assim uma pessoa de outra cultura consegue se ver na história e nos personagens. Uma pessoa do Brasil, da Polônia, da Coreia, consegue se ver nesse verão estranho como se fosse essas duas meninas? Gibi é uma coisa sensacional. Haha.

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Pen15. Quero que elas façam seriado ou filme de SuperMutant Magic Academy. Ia ser perfeito.

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Tenho um livro infantil que sai no segundo semestre.

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Trabalho no meu apartamento. Tenho uma sala separada, o que é essencial. Não é um estúdio legal de se ver, pra ser sincera. Tem só as coisas do computador, uma mesa com mesa de luz e outra mesa com um scanner. E a caixinha da minha gata.

A última. Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Minha irmã organizava a coleção dela de Archie pela cor da lombada. Muitos anos antes de isso virar moda. E as coletâneas de Herbie que meus pais tinham e que eu não entendia nada… Ainda não entendo, pra ser sincera…

A capa de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

HQ / Matérias

Jillian Tamaki fala sobre memórias de infância, mangás e Aquele Verão

Aquele Verão é um dos quadrinhos mais premiados e aclamados dos últimos anos. O álbum das primas Jillian e Mariko Tamaki levou os prêmios Eisner e Ignatz de melhor graphic novel de 2014 e tornou suas autoras duas das artistas mais celebradas e concorridas da indústria norte-americana de HQs. A obra está finalmente saindo em português, pela editora Mino e com tradução de Dandara Palankoff. Eu entrevistei a Jillian Tamaki pra saber mais sobre a origem, o desenvolvimento e a repercussão do livro.

Nessa conversa, a quadrinista falou sobre a influência de mangás em seu estilo de desenho, a relação dela com memórias de infância e a dinâmica de suas ilustrações com o roteiro da prima Mariko. Esse papo virou matéria pra edição de hoje do jornal O Globo e você lê meu texto clicando aqui.

Página de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

HQ / Matérias

Box Brown fala sobre Cannabis, racismo e a ilegalização da maconha nos EUA

Eu entrevistei o quadrinista norte-americano Box Brown sobre o lançamento da edição brasileira de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos e esse papo virou matéria no jornal O Globo. O livro publicado no Brasil pela editora Mino com tradução de Diego Gerlach tem como foco principal os empenhos de autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário dos EUA para impedir o consumo e a difusão da erva no país, mas vai muito além disso.

Produzido a partir de extensa pesquisa bibliográfica, Cannabis defende a tese de que todo o processo de combate e proibição do consumo e da difusão da maconha nos Estados Unidos tem o racismo como ponto de partida. É dos lançamentos mais interessantes de 2019 por aqui e recomendo que você leia o quanto antes. Na minha matéria também adianto a publicação em português de Tetris, álbum de Brown sobre o joguinho precursor da indústria de games, para um futuro próximo, também pela Mino. Você lê o meu texto para O Globo clicando aqui.

Um quadro de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, HQ do quadrinista norte-americano Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino
Entrevistas / HQ

Papo com Jason, autor de Eu Matei Adolf Hitler: “Sou bem pessimista em relação ao futuro. Acho que só vai piorar. Vamos nos autodestruir”

Eu Matei Adolf Hitler é o segundo álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil. O primeiro, Sshhhh!, saiu por aqui em 2017 pela mesma editora Mino que lança a ficção científica com a presença do líder nazista. Torço para que não fique apenas nesses dois e logo mais cheguem outros trabalhos do autor em português.

Ontem eu publiquei aqui no blog uma matéria na qual falo mais sobre Eu Matei Adolf Hitler, o estilo do autor, as técnicas utilizadas por Jason e alguns dos temas mais caros a ele. Hoje eu reproduzo a íntegra da minha entrevista com o artista. Papo bom demais – assim como a entrevista dada por ele ao blog em 2017, na época do lançamento de Sshhhh!. Saca só:

“O Hitler não é realmente importante na história, ele só aparece em alguns painéis. Eu estava mais interessado nos outros personagens”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Quais são as suas memórias mais antigas relacionadas a quadrinhos?

A leitura dos quadrinhos da minha irmã mais velha, que era uma série da Europa Ocidental chamada Silver Arrow. Tenho certeza que devo ter lido alguns Pato Donald, que eram muito populares na Escandinávia, e ocasionalmente quadrinhos de super-heróis. Depois, descobri os álbuns de Tintin na biblioteca e realmente gostei deles.

Quais técnicas você utilizou para criar Eu Matei Adolf Hitler? Você usa apenas papel e tinta?

Eu uso um pena e tinta. Eu gosto do efeito de variação na linha. Eu não faço nada no computador. Eu não tenho uma Cintiq ou algo assim. Chama-se Cintiq? Não tenho certeza. Eu não gosto de quadrinhos que tenham cara de computador. Os desenhos e as letras devem estar no mesmo ambiente, não gosto de colocar depois no Photoshop. Eu faço o letreiramento dos meus quadrinhos a mão. Para a edição brasileira eles estão utilizando uma fonte, mas pelo menos ela é baseado no meu letreiramento manual.

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Eu Matei Adolf Hitler? Se sim, você poderia me dizer como isso aconteceu?

Eu queria fazer uma história com máquina do tempo e matar o Hitler é uma ideia meio óbvia. Ao mesmo tempo, o Hitler não é realmente importante na história, ele só aparece em alguns painéis. Eu estava mais interessado nos outros personagens, no casal principal que faz a viagem no tempo e em como todos esses acontecimentos da história os afetam.

“Você só precisa olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje. Os sinais não são nada bons”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Você já pensou sobre a ideia de matar Adolf Hitler? Você faria isso se tivesse uma máquina do tempo?

Não, eu nunca pensei sobre isso. Eu não sei o que faria com uma máquina do tempo. O Louis CK tem uma piada ótima sobre isso, que ele não a usaria, ou talvez apenas colocasse uma bebida nela.

Seu personagem principal chega no passado antes da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler era apenas uma sombra do que ele se tornaria. Há muitos políticos de extrema-direita em posições de liderança no mundo agora – Trump nos EUA, Bolsonaro aqui no Brasil e Marine Le Pen na França, por exemplo. Você está preocupado com o nosso futuro? Você é otimista?

Não, não, sou bem pessimista em relação ao futuro. Acho que só vai piorar. Vamos nos autodestruir. A América tem um presidente que não acredita em mudanças climáticas. A indústria de combustíveis fósseis gasta milhões subornando políticos. As abelhas estão morrendo. As coisas só serão feitas quando for tarde demais. Eu estarei morto em talvez 30 anos. Felizmente. Eu sinto muito pelas crianças de hoje que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’.

Eu sou um leitor do seu blog e vi que você tem lido muito Philip K. Dick. Muitos dos romances dele não são muito otimistas em relação ao nosso futuro. Você acha que deveríamos levar nossas ficções – e refiro-me não apenas à ficção científica – mais a sério?

Eu acho. Dick tem sido muito bom para prever o futuro. Mas realmente, você só precisa olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje. Os sinais não são nada bons.

“O leitor não deveria notar a narrativa. Nada é pior do que apontar qual deve ser o próximo painel ou causar uma confusão na ordem de leitura”

Quadros de Sshhh!, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Quando eu te entrevistei pela primeira vez, você me falou como quadrinhos sem texto exigem um pouco mais de clareza no narrativa. Eu Matei Adolf Hitler tem texto, mas eles são muito objetivos e breves. Você tem alguma preferência para escrever quadrinhos mudos ou quadrinhos com textos?

Eu fiz quadrinhos mudos porque eu achava difícil trabalhar com texto. Agora eu acho que é a parte mais interessante de fazer quadrinhos. O desenho é a parte chata. Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais.

Você poderia me falar um pouco sobre a sua abordagem em relação a cores? Você tem alguma técnica para definir uma paleta específica para um livro?

Eu não faço a colorização. Para os álbuns coloridos, como Eu Matei Adolf Hitler, eu trabalho com o Hubert. Estou muito feliz com o que ele faz, então não interfiro.

Eu gosto muito do ritmo dos seus quadrinhos. O uso dos grids fixos é a sua maneira de determinar o ritmo de uma história?

Eu gosto do grid. Ele me agrada esteticamente. E cada painel tem a mesma importância. Cabe ao leitor decidir se este é mais importante que o próximo. Dessa forma a história acaba sendo a coisa mais importante, não a forma como ela é contada. O leitor não deveria notar a narrativa. Nada é pior do que apontar qual deve ser o próximo painel ou causar uma confusão na ordem de leitura dos painéis.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem uma definição pessoal do que são quadrinhos?

Não, isso é algo que cabe a vocês críticos decidir ou debater. Pessoalmente, eu não penso nisso. Existe mais de um painel? Existe diálogo em balões? Ok, isso é quadrinhos!

Eu gostaria de saber sobre sua relação com a crítica. Como você se sente quando vê a análise ou as interpretações de alguém sobre seu trabalho?

Bem, eu prefiro receber críticas positivas! Comentários negativos são ok, caso o autor da crítica tenha um ponto e possa expressar seus problemas com o livro. Se ele percebe algo que eu não vi, isso é uma coisa boa. Mas na maior parte das vezes eu acabo tendo uma ideia se o livro funciona ou não. Se estou feliz com o livro, não me importo com críticas negativas ocasionais. Se tenho dúvidas em relação ao livro, aí é outra história.

O que você acha quando seu trabalho é publicado no Brasil? Nós somos todos ocidentais, mas estamos falando de culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade sobre como o seu livro será lido?

Sim, isso é interessante. Eu fui traduzido para o coreano. Como eles veem os meus quadrinhos? Existe uma diferença entre isso e como os meus quadrinhos são lidos na França? Eu não sei. A universalidade vem de ser específico e local. As pessoas às vezes mencionam uma qualidade escandinava em meus quadrinhos, talvez fazendo referência a uma espécie de objetividade ou melancolia. Que talvez até estejam lá. Se eu tivesse nascido na Austrália ou na Ásia, meus quadrinhos teriam sido diferentes? Provavelmente. Mas quem sabe?

“Estou trabalhando em um novo livro, um romance gráfico de pequeno porte. É uma coleção de três histórias. Hemingway é um personagem”

Quadros de Sshhh!, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Você está trabalhando em algum novo projeto em particular agora?

Estou trabalhando em um novo livro, um romance gráfico de pequeno porte. É uma coleção de três histórias. Hemingway é um personagem. Eu também já fiz alguns rascunhos e algumas anotações para o livro seguinte, que será um álbum com o clássico formato francês e de 48 páginas.

Você poderia me falar sobre o seu espaço de trabalho?

Eu não tenho um local de trabalho espaçoso. É uma mesa simples, parte da sala de estar. Há um tocador de CD, que eu não uso muito mais, um scanner e um laptop. Há uma janela do outro lado da sala, com vista para o telhado do outro lado da rua.

Você poderia recomendar alguma coisa que tenha lido, assistido ou escutado recentemente?

Você mencionou Philip K. Dick. Eu li alguns dos livros dele recentemente. Eu comprei mais uns livros do John Fante, eu sou um grande fã de Pergunte ao Pó. Eu comecei a ler as histórias curtas dele e também romances como 1933 Foi um Ano Ruim. Eu tenho escutado muito Pentangle nos últimos dois anos. Eles fizeram vários discos folk nos anos 60 e 70. E também álbuns solo de John Renbourn. O Lagosta foi o último filme que eu realmente gostei. Mas devo admitir que também assisto a muitos filmes do James Bond, Missão: Impossível e John Wick.

A capa da edição brasileira de Eu Matei Adolf Hitler, do quadrinista norueguês Jason