Escrevi sobre Boca de Siri (Pitaya/Harper Collins Brasil), obra de Paulo Moreira, para o anúncio das obras vencedoras do Prêmio Grampo 2026 de Grandes HQs. O título ficou em segundo lugar na premiação, atrás de Algumas de sua verdades ainda moram em mim (Conrad), de Alexandre S. Lourenço, e à frente de Dormindo entre Cadáveres (Comix Zone), obra de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci. Você confere o resultado completo do Grampo 2026 clicando aqui e as 20 listas individuais do júri clicando aqui. A seguir, o meu texto sobre Boca de Siri:
Paulo Moreira e o realismo mágico (e cômico) de Boca de Siri
Já escrevi sobre a minha percepção do trabalho de Paulo Moreira como o grande elo entre a tradicional cena brasileira de humor gráfico e o recente neorrealismo brasileiro em quadrinhos de Marcelo D’Salete e Marcello Quintanilha. Seu Bom Dia, Socorro, lançado em 2022 e segundo colocado no Prêmio Grampo de 2023, investia nos disparates da vida cotidiana com humor, mas alguns momentos fantásticos apontavam para um rumo ainda mais singular na história das HQs nacionais. Boca de Siri segue essa trajetória em direção ao realismo mágico e cômico.
Muito do apelo fantástico de Boca de Siri está exatamente na capacidade de seu autor em retratar a realidade. A oralidade dos personagens, a representação urbana da HQ e as questões sociais apresentadas por Paulo Moreira reforçam a ambientação verossímil da obra. O traço caricato é um adendo ao humor.

Já a trama é centrada na chegada do caranguejo gigante Guaiamum em João Pessoa e seu embate com o Robô Parahybatron (pilotado por um recifense e patrocinado por uma empresa de apostas), um conflito gerado pelos planos da prefeitura para o alargamento da orla da praia. O leitor acompanha a luta sob a perspectiva de Ygo, Vitória e Duda. O trio é meio que um equivalente nacional (e mais espertos) de Elliot e seus amigos em E.T. O Extraterrestre, de Steven Spielberg.
Aguardo ansiosamente cada nova tira de Paulo Moreira no Instagram. Sua série mais recente, Robison o bebê de chifres, é das minhas leituras preferidas no momento e candidata potencial a muitas listas no de melhores HQs de 2026. Assim como em Bom Dia, Socorro, Boca de Siri apresenta os domínios do autor para a construção de uma história longa.
Paulo Moreira não é de investidas narrativas mirabolantes. Em Boca de Siri ele conta, muito bem, uma história envolvente com início, meio e fim sólidos; com personagens grandiosos e carismáticos; e desenhos dignos dos melhores momentos do Cartoon Network. É uma mistura maluca de Círculo de Fogo, do Guillermo del Toro, com Love and Rockets, dos irmãos Hernandez. É coisa para caramba. É legal demais. É uma grande HQ.





