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Posts por data outubro 2019

Entrevistas / HQ

Papo com Lelis, autor de Reconexão: “No meu dia a dia vejo como o uso excessivo da tecnologia e a vivência do mundo virtual têm afetado as pessoas. Indistintamente da idade que têm”

Entrevistei o quadrinista Lelis sobre o álbum Reconexão, HQ de 48 páginas recém-publicada pela Abacatte Editorial. Esse papo virou matéria no caderno Pensar do jornal Estado Minas, publicada na sexta-feira da semana passada (25/10) e disponível para leitura clicando aqui.

Reconexão tem como foco a presença crescente de tecnologias digitais na rotina das pessoas. O quadrinho tem início com a mãe do jovem Luiz pedindo para que o filho largue o celular e vá jogar bola com os amigos que o aguardam no campinho de terra em frente à sua casa. O garoto esquece dos colegas, investe no joguinho em seu aparelho e é transportado para uma realidade paralela habitada por robôs que patrulham o local contra a presença das crianças perdidas que acabam por lá. O menino precisa descobrir como fugir dessa cilada virtual.

Recomendo a leitura da minha matéria sobre a obra e depois a entrevista a seguir. Nela Lelis fala sobre o ponto de partida de Reconexão, trata de suas técnicas e materiais de trabalho, comenta sobre a relação dele com tecnologias digitais e adianta um pouco de seu próximo trabalho com o roteirista francês Antoine Ozanam – seu parceiro em Goela Negra. Saca só:

Quadro de Reconexão, álbum do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Houve algum ponto de partida específico, algum momento de inspiração em particular, para o início da construção desse quadrinho? 

A história desse álbum é bem curiosa. Um dia marquei um encontro com uma editora aqui de Minas para apresentar um projeto de livro de imagens. O livro trata de questões universais: luto, perdas, ganhos. Enfim, coisas da vida. Montei o PDF com algumas imagens finalizadas e outras em esboço. Sentamos para falar sobre ele enquanto ela via as imagens. No segundo momento, ela me disse que gostaria de fazer o Lobato em quadrinhos e tal. Aí eu fiquei pensando enquanto ela falava. Pensei muito no Lobato, de como vivíamos quando crianças, porque o Lobato me remete a isso. Saí da editora sem uma resposta sobre meu livro de imagens nem tão pouco confirmando que iria adaptar as histórias do Sítio para os quadrinhos. Cheguei em casa e numa sentada escrevi Reconexão. Acho que ouvindo a editora e pensando na minha infância e o tanto de coisas que fazíamos ao ar livre, comparadas às coisas que as crianças e o adolescentes fazem hoje, acho tudo isso me inspirou a escrever o livro.   

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Reconexão?

Uma técnica super simples e das mais baratas. Desenho com grafite 2B sobre um papel reciclado, tipo sulfite, aquele de cor creme, e que é super barato. Depois digitalizo a imagem e faço a colorização no photoshop. Só que a paleta de cores e o jeito de pintar em aquarela são tão fortes em mim que até os franceses às vezes se confundem pensando ser um aquarela realmente.

“Acho que nunca entrei naqueles debates sem fim sobre coisas que nunca resolveremos em uma rede social”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Quando você pensa um quadrinho como Reconexão, você costuma ter um público específico em mente? Você produz levando em conta se uma obra é para crianças ou adultos? 

Acho que o Reconexão pensei num primeiro momento em fazer para os jovens. Mas, claro, há um mea culta ali. Por isso é para todas as idades. No meu dia a dia vejo como o uso excessivo da tecnologia e a vivência no mundo virtual têm afetado as pessoas. Indistintamente da idade que tem. 

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com tecnologias. Como são os seus hábitos de uso de celular, tablets e afins?

Realmente demorei um pouco a ter um celular tipo smartphone. Mas, depois de algum tempo, e por questões profissionais e também por se mais um instrumento de comunicação com a família, aderi. Tenho um bom computador lap top, que ligo em um monitor maior para fazer os quadrinhos, digitalizar as aquarelas e também para filmar e editar pequenos filmes. Essas máquinas, para artistas gráficos precisam ser boas. Mas paro por aí. Não sou de ficar horas em uma rede social por exemplo. Acho que nunca entrei naqueles debates sem fim sobre coisas que nunca resolveremos em uma rede social. No smartphone sim, sempre olho o wattsapp mas evito compartilhar o que me chega. Participo de 2 grupos e mesmo assim no modo silencioso. Vejo muitas notícias nos portais. Mas o que eu gosto mesmo é de filmes e de futebol. Acho que das tecnologias, essa é que me prende mais. Mas vejo quase que exclusivamente pela TV.

“Para projetos de quadrinhos muito pessoais, quando eu sou o roteirista também e que posso gerenciar meus prazos, prefiro usar aquarela”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Aliás, na maior parte das vezes você faz uso de técnicas de ilustração e pintura manuais. Como é a sua relação com técnicas digitais de ilustração?

Ultimamente tenho usado a técnica de colorização digital para os quadrinhos. Principalmente para o mercado francês. Acho que, das artes, é uma expressão das mais complexas que existem. Imagine só, construir todo um cenário que tem que se repetir por todas essas páginas, dar vida a um sem número de personagens que precisam estar coerentes fisicamente durante toda a sequência do livro, me ater aos prazos curtíssimos da produção do livro e ainda cuidar de minha carreira como ilustrador e escritor de livros infantis. Por isso tudo, tenho optado pelo digital. Sem contar que o material que uso é de primeira linha: papel, pigmentos e pincéis profissionais. Ainda não pagam o suficiente para isso. Agora, para projetos de quadrinhos muito pessoais, quando eu sou o roteirista também e que posso gerenciar meus prazos, aí prefiro usar aquarela mesmo. 

Ver alguma presença de tecnologia em Reconexão me fez notar como tecnologias e modernidades estão pouco presentes ou completamente ausentes de seus trabalhos prévios. Como você chegou na estética desse universo paralelo tecnológico retratado no quadrinho?

Pois é. Foi um desafio. A primeira coisa que me ocorreu é que eu teria que criar um cenário formado por placas de computador, fusíveis (acho que nem usam isso mais), conectores, essas pecinhas todas. Então eu fui pesquisar. Salvei um monte de fotos de placas, de componentes e também pesquisei alguns nomes dessas peças para ficar no contexto. O resto foi só imaginação mesmo. Fui montando tudo, buscando coerência. Por exemplo: sempre ouvimos falar sobre lixo tecnológico. Então imaginei que esse lixo deveria estar depositado no fundo do mar que é um dos lugares mais puros da terra e também um dos mais sensíveis aos agentes poluentes. 

“Esperança está na raiz do que eu acredito”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

O final de Reconexão me soou ligeiramente sombrio, de certa forma coerente com a realidade pouco esperançosa em que estamos vivendo. Como você vê o mundo hoje?

Ramon, sou um Cristão Protestante. Esperança está na raiz do que eu acredito. Obvio que os embates do dia a dia nos fazem amolecer às vezes. Há tantas desigualdades, tantas injustiças que por vezes até essa esperança titubeia. Mas a questão é, e é assim que acredito, que somos falhos. Temos a natureza caída e precisamos sempre lutar contra essa queda. Às vezes esperamos atitudes altruístas das outras pessoas mas se examinarmos a nós mesmos, não somos assim naturalmente. Precisamos nos esforçar muito para agirmos assim. Então, se eu sei que naturalmente eu não sou assim, fica mais fácil fazer diferente, algo inusitado, contra a minha natureza. É uma espécie de vitória. 

Você é otimista?

Sim, claro. Tem um negócio que é o muito certo. Sempre, principalmente aqui no Brasil, precisamos de um super-herói que vai nos salvar dos nossos males. E depositamos todas as nossas fichas nesse ídolo. Mas, se cada um de nós começasse a cuidar da sua rua, do seu bairro, do seu vizinho, da sua cidade, talvez, com o tempo, nem precisássemos mais da figura do político como está instituída. Todos nós seríamos um, no melhor sentido da palavra. 

Você tem esperanças por melhorias?

Só individuais, que repercutirão no coletivo. Nada desse negócio de cima pra baixo.  

“Estou cercado de miséria, de amor, de ódio, de desavenças, de perdão, de riqueza, de arrogância, de medo, de coragem, de saúde, de doença. Tudo isso é mote para histórias”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Como as suas impressões em relação à nossa realidade impactam os seus trabalhos?

Estou cercado de miséria, de amor, de ódio, de desavenças, de perdão, de riqueza, de arrogância, de medo, de coragem, de saúde, de doença. Tudo isso é mote para histórias. Em 2001 escrevi um livro chamado Saino a Percurá. Uma das histórias se chama Mudernidades. Nela, o vaqueiro Jovino de Tião Ferrêra acha uma TV e fica tão fascinado com ela que se esconde de todo mundo dentro de um poço. Para ele, aquela realidade era tão mais interessante que sua vida real que acaba morrendo lá mesmo, no poço, grudado na TV. Acho que essa é a mesma história de Reconexão. Só a tecnologia dos dias de hoje ficou mais avançada e mais viciante.

Como leitor e autor, o que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Eu gosto do Cris Ware mas ele me deixa tonto. 

Há algum plano de lançamento de Popeye no Brasil? 

Que eu saiba não.

O que você pode adiantar sobre o seu próximo projeto com o Antoine Ozanam?

Ah, é uma história pessoal do Antoine. Ele ainda vai me enviar a sinopse completa, só fiz as primeiras 10 pranchas. Só sei que é profundamente francesa, com relatos bem pessoais se rementendo a um lugar e personagens bem específicos. Ou seja, terei que me tornar um francês para fazer esse novo álbum. Nem se for um francês caipira.

A capa de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial
HQ

6ª (1/11) é dia de lançamento de Sangue Seco tem Cheiro de Ferro, de Amanda Miranda, e Óbice, de Paula Puiupo, em São Paulo

Ei, tenho um convite: na 6ª (1/11), a partir das 19h, na loja Monstra, aqui em São Paulo, rola o lançamento de Sangue Seco tem Cheiro de Ferro, de Amanda Miranda, e Óbice, de Paula Puiupo. O evento começa com as artistas lendo seus quadrinhos para o público, segue com um bate-papo com a minha mediação e termina com uma sessão de autógrafos.

Tanto Sangue Seco tem Cheiro de Ferro quanto Óbice foram obras selecionadas e publicadas pelo edital anual de publicações da Feira Des.Gráfica com Museu da Imagem do Som. As duas obras também têm em comum o fato de serem ambientadas em um cenário urbano em decadência. Trabalhos pouco usuais assinados por duas das minhas quadrinistas brasileiras preferidas.

Só lembrando: a Monstra fica no primeiro andar do número 158 da Praça Benedito Calixto, em São Paulo. Você encontra outras informações sobre os lançamentos na página do evento no Facebook. Vamos?

HQ

Lynda Barry fala sobre quadrinhos, infância e Robert Crumb. Ouça!

Entre os trabalhos que mais gostaria de ver publicados em português, os álbuns da Lynda Barry estão entre aqueles que acho mais improváveis que saiam por aqui. Imagino que ninguém vai querer se arriscar no trabalhão imenso que daria mexer no letreiramento manual misturado com ilustrações das obras dela – e sei lá se dá pra ficar tão fiel ao original. De qualquer forma, deixo a dica: leiam Lynda Barry.

Aí que mais cedo eu tava ali na minha biblioteca de podcasts e vi que a edição mais recente do Design Matters, da apresentadora Debbie Millman, é uma entrevista com a Lynda Barry.

Ainda quero arrumar um momento sem ocupações pra ouvir tudo na íntegra, sem distrações, mas adianto que curti muito o pouco que escutei, com ela falando sobre suas memórias mais antigas relacionadas a quadrinhos, a influência do Robert Crumb em seu trabalho e algumas de suas percepções sobre os potenciais da linguagem das HQs. Ouça!

Uma página de um álbum de Lynda Barry
Entrevistas / HQ

Kainã Lacerda expõe originais na 9ª Arte Galeria, em São Paulo

O quadrinista Kainã Lacerda selecionou 32 obras originais – entre rascunhos, ilustrações e páginas de quadrinhos – para expor em sua mostra solo na 9ª Arte Galeria (R. Augusta 1371, loja 113), em São Paulo. A exposição terá abertura na noite de hoje, 29 de outubro, e ficará em cartaz até o próximo sábado, dia 2 de novembro. Você confere outras informações sobre a abertura da mostra na página do evento no Facebook.

Autor das revistas Cintaralha Comix, Lacerda tem como principais características obras com forte teor pornográfico – e possivelmente ofensivas para muitos -, extremamente técnicas e marcadas pelo uso do nanquim – prática inspirada pelos trabalhos de autores como Daniel Clowes e Peter Bagge.

“Desde que eu comecei a fazer quadrinhos eu tenho estudado bem mais narrativa. Ultimamente eu tenho lido coisas com olhos mais críticos. Como tal cara constrói uma página e quais os benefícios disso. É uma parada que eu tô sempre pensando pra me melhorar como  quadrinista e deixar a leitura mais fluida e prazerosa pro leitor”, diz o autor sobre uma de suas reflexões enquanto fazia a curadoria dos trabalhos que serão expostos a partir de hoje.

No papo a seguir, Lacerda fala sobre os bastidores de sua mostra na 9ª Arte Galeria, a repercussão de seu trabalho nas redes sociais e sua próxima publicação. Saca só:

“Me deram carta branca pra eu colocar o que eu quisesse na exposição”

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Ela é feita a partir de algum recorte específico do seu trabalho?

Não necessariamente. Eles me deram o máximo de liberdade possível pra fazer a exposição da forma que eu queria. Eles me deram carta branca pra eu colocar o que eu quisesse lá na exposição e a partir daí eu selecionei alguns dos meus trabalhos que estavam mais direitinhos pra colocar lá e eu recebi toda a atenção e ajuda necessária do pessoal. 

Todos os seus trabalhos que estarão expostos são obras produzidas com nanquim. O que mais te interessa no uso do nanquim? Você tem alguma técnica e material de trabalho preferidos?

Eu trabalho muito com nanquim e caneta pincel. A maioria dos meus primeiros trabalhos foram feitos dessa forma e mesclados com digital. Eu comecei a usar nanquim porque é o material que todas as minhas influências usam pra produzir quadrinhos. Eu lembro de uma entrevista com o Daniel Clowes que ele fala que passou uma eternidade tentando achar o material certo pra conseguir o efeito que ele queria nos desenhos dele, até ele descobrir que os profissionais trabalhavam com pincel e nanquim. Eu nunca consegui me adaptar muito bem pra usar pincel, aí eu uso o mais próximo disso, que é uma canetinha com ponta de pincel. 
Eu gosto muito de aquarela também, mas eu sou péssimo haha. 

Além disso, eu tenho trabalhado muito no digital ultimamente. O Cintaralha 3 foi produzido todo no digital e estou gostando muito do resultado. Meu traço fica mais limpo e certinho quando eu trabalho no digital, além de ser bem mais rápido. A única desvantagem é que eu fico sem original pra expor hehe. 

“Parece que tá todo mundo num estado de desenvolvimento interrompido”

Quadros de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Eu imagino que uma exposição como essa acaba também sendo uma oportunidade para você refletir e pensar sobre a sua produção. Isso aconteceu com você? Você nota muitas mudanças e transformações na forma como você pensa e faz quadrinhos ao longo dos anos?

Ah, sim, com certeza. Eu nunca liguei pros meus originais, eu nunca achei que eles tinham valor, e ainda não sei se eu acho. Mas ir lá na galeria e mostrar minhas folhas de quadrinho me fez pensar que talvez eu devesse desenhar em um papel um pouco melhor que chamequinho, haha. Desde que eu comecei a fazer quadrinhos eu tenho estudado bem mais narrativa e tal. Ultimamente eu tenho lido coisas com olhos mais críticos. Como tal cara constrói uma página e quais os benefícios disso e tal. É uma parada que eu tô sempre pensando pra me melhorar como  quadrinista e deixar a leitura mais fluida e prazerosa pro leitor. 

O seu trabalho apresenta muitas cenas de nudez e sexo – o seu Inktober inclusive foi denunciado e censurado mais de uma vez no Instagram. Que leitura você faz da repercussão que uma produção como a sua acaba tendo em dias retrógrados como os que estamos vivendo?

Até o final desse mês o meu Instagram ainda vai ser excluído, haha. Eu acho que tem muita gente puritana por aí, ou gente que interpreta o que eu faço de uma forma escrota e mal-intencionada. Eu já ouvi muita merda em relação a isso, já tive gente me tratando esquisito e tal, mas eu acho que isso faz parte quando tu faz um conteúdo igual ao que eu faço. Eu não ligo muito. Ligava mais antes. 

Recentemente eu vi uma palestra com a youtuber Lindsay Ellis, no qual ela conta sobre como ela estava sendo perseguida pela Alt-Right e por esses 4channers neonazi. Ela conta sobre como isso fodeu com a cabeça dela e ela foi parar numa instituição psiquiátrica por causa disso. Horrível. Eu morro de medo de cair na mira dessa gente. Eu morro de medo de bolsominions de internet em massa. Espero continuar fora do radar deles. Eu não tenho emocional pra lidar com esses psicopatas. Ler comentários de Facebook me deprime. Quando teve aquela parada da Escória, que o filho do bolsonaro retuitou uma foto do maluco com a pochete do Adriano Disk Gás, eu fui ler os comentários e aquilo acabou comigo. Eu me sinto péssimo vendo essa galera tão ignorante no mundo. Parece que tá todo mundo num estado de desenvolvimento interrompido. Tá todo mundo na terceira série fazendo piada homofóbica e racista como se fosse a parada mais groundbreaking do mundo. Eu odeio essa galera com todas as minhas forças. 

“O meu objetivo é  fazer um gibi que, se não fosse meu, eu ia gostar de ler”

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Ultimamente eu tô obcecado por Hate, do Peter Bagge. Eu não consigo parar de ler. A forma como ele escreve os diálogos e monta a história é absolutamente incrível. Parece que tu tá vendo uma conversa de verdade acontecendo ali. Eu queria fazer isso. Os quadrinhos que eu gosto muito de fazer são quadrinhos que são quase inteiramente monólogos. Personagens conversando com o leitor. Mas quando eu vou criar duas pessoas conversando não sei se fica tão fluído assim, tão natural. Mas é algo que eu quero fazer. Deixar o texto dos meus quadrinhos parecendo uma conversa real, que tu pode entrar na história e sentir que aquilo poderia ser uma conversa que tu tá ouvindo quando tu tá na rua. Texto pra mim é fundamental. Se eu tô lendo um quadrinho que a história é boa, os desenhos são bons, a narrativa é irada, mas o texto é mecânico, isso me frustra um pouco. E é isso que eu quero melhorar mais. A gente é muito autocrítico e isso atrapalha um pouco às vezes, mas meu objetivo é  fazer um gibi que, se não fosse meu, eu ia gostar de ler.

Uma pergunta que tenho feito bastante aqui no blog: desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu vario bastante entre estar otimista e pessimista. O Bolsonaro é o reflexo do cidadão brasileiro. Ele é a imagem cuspida e escarrada do teu tio fascista. Ele não tá lá sozinho. Ele não tá lá porque ele enganou a população. Ele tá lá porque tem muita gente que pensa exatamente igual a ele. E isso é profundamente assustador. Eu cresci com varias pessoas que sempre falaram exatamente o que o Bolsonaro tá falando agora pro Brasil todo ver. O que me fode é um cara desses chegar ao poder e fazer as merdas que ele tá fazendo. A gente tá vivendo numa época que parece que mundo inteiro tá andando pra trás. A KKK tá aí marchando pela rua dos EUA. Nós temos nazistas se sentindo empoderados por esses caras. Antes eu achava que essa gente era a exceção, mas agora parece que é a regra. A gente essencialmente tá dividindo o país com uma porcentagem gigantesca de mongolóides nacionalistas tementes a deus que valorizam padrões arcaicos de família tradicional branca conservadora que advogam por ideias medievais de hegemonia. Mas meu lado mais positivo, porém, acredita que isso seja uma coisa passageira. Eu já escutei uma vez que antes de algum progresso existir, a sociedade precisa mostrar a sua cara feia. E acho que talvez seja isso que estamos vivendo hoje, a sociedade se declarando abertamente como podre. E eu espero que a partir daí, exista algum progresso substancial. 

Quadros de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu terminei de ver Sopranos outro dia. Uma das melhores séries de todos os tempos e que abriu espaço pra séries picas de hoje. Breaking Bad não existiria sem Sopranos, por exemplo. Eu sempre recomendo os filmes do Ari Aster, um dos meus cineastas favoritos atualmente, o filme mais recente dele, Midsommar, é uma obra de arte.

Fora séries e filmes eu fico muito tempo assistindo vídeos no YouTube. Recomendo a ContraPoints e o Hbomberguy, que são pessoas que tão fazendo uns vídeos incríveis sobre a sociedade atual. Recomendo muito o vídeo sobre Incels, da ContraPoints e da Terra Plana, do Hbomberguy. São umas análises do caralho. 

Meu gosto musical é bem bizarro. Eu vou usar essa oportunidade pra indicar um dos melhores álbuns de todos os tempos, Emotion, da Carly Rae Jepsen. 

“Fazer uma história mais longa tá me dando oportunidade de explorar coisas que eu não conseguia antes”

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Eu tô terminado o próximo Cintaralha Comix. Essa é a maior história que eu fiz até agora. Tá com 52 páginas e três epílogos. Eu comecei a fazer essa história porque eu queria expandir um personagem que eu criei em 2017, chamado Bebe-Mijos. Esse próximo Cintaralha vai ser a primeira parte de três, da história da ascensão, auge e queda desse personagem. O que eu posso falar sobre essa história é que ela não é o que vocês imaginam que ela vai ser. Eu tô sentindo que fazer uma história mais longa tá me dando oportunidade de explorar coisas que eu não conseguia antes. Eu tô me divertindo fazendo. Tô sentindo que eu tô aprendendo bastante em questão de estrutura de história e de ritmo e tal. Eu tô bem empolgado pras pessoas lerem. Eu quero ver se consigo lançar agora em dezembro, numa tiragem pequena. Vamo ver se rola! 

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria
HQ / Matérias

Sarjeta #1: É fundamental o surgimento de espaços com linhas editoriais mais diversificadas e críticas, mais coerentes com a diversidade e a criatividade das HQ nacionais

Está no ar a primeira edição da Sarjeta, a minha coluna mensal sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Recebi o convite para escrever a coluna há pouco mais de um mês e minha intenção é utilizar esse espaço para chamar atenção para tudo aquilo que foge às vias oficiais e mais frequentadas em termos de quadrinhos no Brasil.

No texto de estreia eu falo um pouco sobre as minhas observações relacionadas à infantilização crescente nos debates relacionados a histórias em quadrinhos no Brasil. E ressalto a importância do surgimento de espaços com linhas editoriais mais diversificadas e críticas, minimamente coerentes com a diversidade e a criatividade das HQ nacionais.

De quebra, ainda bato um papo rápido com Cecilia Silveira, quadrinista e editora do selo Sapata Press. Você lê a primeira Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #1: A vanguarda dos quadrinhos nacionais está fora do radar do grande público.

(crédito da foto: Divulgação/Cássia Guerra)

HQ / Matérias

Lelis fala sobre tecnologias digitais, aquarelas, Photoshop e Reconexão

Escrevi para o jornal Estado de Minas sobre Reconexão, mais novo trabalho do quadrinista Lelis. O álbum recém-lançado pela Abacatte Editorial apresenta 48 páginas desenhadas em grafite narrando a aventura de um jovem perdido em um realidade paralela digital em busca de seu caminho de volta para o mundo real.

Produzi o meu texto a partir de uma conversa com Lelis tratando dos hábitos digitais dele, do ponto de partida desse novo quadrinho, das técnicas utilizadas para a produção da HQ e da presença crescente de aparelhos digitais no nosso cotidiano. Você lê o meu texto obre Reconexão clicando aqui.

A capa de Reconexão, álbum do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial